Fatih Polat: O que Lênin escreveu há 110 anos continua a servir de guia



Fatih Polat
Jornal Evrensel

Toda guerra entre dois Estados carrega consigo significados múltiplos e entrelaçados, que vão desde as relações entre os próprios Estados envolvidos, passando pelas condições objetivas das classes sociais que compõem suas formações nacionais, até as dinâmicas das forças regionais que os cercam e, finalmente, alcançando as determinações de escala global que configuram o sistema mundial de poder.

O Estado de Israel, sob a liderança de Netanyahu e prosseguindo com seus massacres que já alcançam dimensões genocidas, ao atacar o Irã, alega estar atingindo a origem da ameaça que o cerca, e, assim, proclama que chegou ao ápice de sua guerra. Essa agressão, realizada com apoio direto dos Estados Unidos e com a anuência das potências dominantes do Reino Unido e da União Europeia, representa, ao mesmo tempo, uma guerra por procuração contra as esferas de influência de Rússia e China. Desde a derrota do socialismo na União Soviética, o bloco capitalista do Ocidente tem avançado com sucessivas ofensivas, arrancando, em seu processo de expansão, a Síria da zona de influência russa e, agora, deslocando seu foco para o Irã.

Vladimir Ilitch Lênin, em sua brochura “O Socialismo e a Guerra, redigida entre julho e agosto de 1915, quando a Primeira Guerra Mundial completava seu primeiro ano, destacou que o capitalismo, ao se converter em imperialismo (questão que ele desenvolveria de modo mais sistemático em “Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo”), tornava as guerras inevitáveis. Nessa obra, Lênin travou um combate ideológico direto contra os dirigentes da 2ª Internacional que, traindo o proletariado mundial, haviam se subordinado aos interesses das suas respectivas burguesias nacionais durante o conflito. Lênin denunciava o que chamou de “social-chauvinismo internacional”, caracterizando a capitulação da social-democracia:

Por outro lado, os social-chauvinistas de todos os países encontraram uma solução bastante simples e quase internacional para escapar do impasse atual. Não é uma solução difícil de compreender: basta esperar que a guerra termine; até lá, os socialistas de cada país devem ‘defender’ sua própria ‘pátria’ e apoiar seu próprio governo; quando a guerra acabar, todos deverão se ‘perdoar’ mutuamente, aceitar que todos estavam certos e, assim, viver como irmãos em tempos de paz, enquanto, na guerra, enviam os operários alemães para matar seus irmãos franceses e os operários franceses para matar seus irmãos alemães, tudo conforme os desígnios de seus respectivos governos.

Lênin prosseguia afirmando:

No entanto, a oposição mais firme surgiu dentro da própria social-democracia alemã. Dentre todos os grandes partidos europeus, foram os camaradas desta organização que primeiro ergueram suas vozes de protesto em nome da lealdade ao socialismo. Lemos com entusiasmo as revistas Lichstrahlen e Die Internationale. Foi com ainda maior júbilo que soubemos da distribuição clandestina, na Alemanha, de panfletos com palavras de ordem como ‘o inimigo principal está dentro de casa’.

Após os ataques israelenses ao Irã, Foad Keyhosravi, porta-voz da Confederação do Trabalho do Irã (Iran Labour Confederation), declarou ao jornal Evrensel que essa guerra, “realizada com o conhecimento ou coordenação dos Estados Unidos”, representa mais um elo no ciclo destrutivo de guerras que devastam a vida das massas populares. Keyhosravi destacou que o agravamento do clima de guerra, somado às sanções, à inflação galopante, ao desemprego massivo e ao colapso das condições de vida, empurrará ainda mais os trabalhadores, as mulheres e a juventude iraniana para um abismo de miséria e desespero. Ele prosseguiu:

Nessas condições, as forças de esquerda e progressistas — em especial os movimentos de trabalhadores, mulheres e estudantes — devem organizar greves em todo o país, construir suas próprias formas autônomas de organização e estabelecer uma ‘terceira frente’ independente, preenchendo o vazio político e assumindo a direção da luta pelo derrubamento da República Islâmica do Irã. Esta luta revolucionária, conduzida com a meta de pôr fim à pobreza, à opressão e à guerra, representa a única esperança real de libertação para a sociedade iraniana e de solidariedade ativa com os povos oprimidos da região.

No dia seguinte, em reportagem publicada no Evrensel com o título “Dupla pressão sobre o povo iraniano à sombra dos carrascos”, foi incluída uma resposta direta vinda do movimento “Luta por Jina”, nascido a partir da onda de protestos desencadeada pelo assassinato de Mahsa Amini:

O que vivemos hoje no Irã é a continuidade do mesmo projeto iniciado na Palestina. Nós, que enfrentamos tanto a ditadura da República Islâmica quanto os crimes de guerra do regime fascista de Israel, e os assassinatos cometidos pelos EUA e seus aliados, não permaneceremos em silêncio. O futuro que sonhamos não será fruto de uma guerra construída sobre balas e cadáveres, nem de uma liberdade conquistada sob a sombra de exércitos invasores. Essa liberdade só poderá ser alcançada como resultado da luta do povo iraniano.

Interpretar a agressão de Israel ao Irã, sustentada pelo imperialismo, como uma suposta “manobra oportunista de forças seculares” é um erro político crasso e perigoso. Da mesma forma, é evidente que o fato de o Irã estar sob ataque não exige, de forma alguma, a defesa de seu regime reacionário e inimigo do povo. Os escritos de Lênin, redigidos há 110 anos, continuam, ainda hoje, a oferecer uma orientação estratégica e moral inestimável para os revolucionários que lutam por uma saída classista e internacionalista frente à barbárie imperialista e seus agentes locais.