As mentiras da Folha de S. Paulo sobre os estupros em massa do Exército Vermelho — uma reabilitação dissimulada do nazismo

Denunciamos a farsa revisionista histórica promovida pela Folha de S. Paulo, que busca reescrever a história da vitória soviética sobre o nazismo com base em acusações mentirosas de estupros em massa. Com dados, documentos e estudos de historiadores russos e internacionais, desmontamos a propaganda burguesa, defendemos a memória do Exército Vermelho e destacamos o protagonismo das mulheres soviéticas na luta antifascista.

{getToc} $title={Conteúdo} $count={Boolean} $expanded={Boolean}

A calúnia mascarada de denúncia

Na segunda-feira (26), a Folha de S. Paulo publicou um artigo, intitulado “Estupro de quase 1 milhão de alemãs no final da Segunda Guerra revela lado oculto da vitória contra nazistas”, que — sob o pretexto de reanimar uma campanha anticomunista — retoma, com novas roupas, uma das mais infames calúnias da propaganda hitlerista: a de que o Exército Vermelho teria estuprado em massa mulheres alemãs como vingança pela violência nazista. O que foi forjado por Joseph Goebbels em 1945 como um último cartaz de guerra psicológica — a imagem dos “mongóis comunistas estupradores de arianas” — é hoje requentado pela imprensa burguesa brasileira como se fosse informação neutra, história reabilitada, saber acadêmico. Já lhes adiantamos que não é. É apenas anticomunismo. É revisionismo histórico. É reabilitação dissimulada do nazismo.

Não se trata apenas de um debate sobre um fato histórico isolado. Estamos diante de uma disputa de memória, uma tentativa de reconfigurar a narrativa da Grande Guerra Patriótica a partir dos interesses ideológicos da classe dominante, que busca igualar o comunismo ao nazismo, e, com isso, retirar do movimento operário internacional uma de suas maiores conquistas: a vitória sobre o fascismo. A imprensa burguesa, como instrumento ideológico, não poupa esforços, tinta e papel, em reverter o significado dessa vitória, manchando-a com acusações de barbárie que visam transformar os libertadores da humanidade em algozes.

Mais do que uma infâmia histórica, trata-se de um ataque direto à memória revolucionária do proletariado internacional, um esforço deliberado para consolidar o “fascismo democrático” dos nossos tempos, onde se cultua a forma jurídica do Estado liberal ao mesmo tempo que se demoniza toda e qualquer tentativa de superação revolucionária da ordem capitalista. O uso desse tipo de narrativa, aliás, se insere numa longa tradição da propaganda imperialista: substituir a análise concreta pela emoção fabricada, o exame dos fatos por indignações dirigidas. Essa estratégia visa desmoralizar o socialismo e barrar qualquer processo de radicalização das massas.

Estupro no Brasil e a manipulação da dor

No Brasil de 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados mais de 74 mil estupros, sendo 61% das vítimas meninas de até 13 anos. São mais de 200 estupros por dia, todos os dias. Desse total, apenas 11% resultam em algum tipo de investigação efetiva. Em 80% dos casos, o agressor é conhecido da vítima. Esse é o retrato brutal da violência sexual num país cuja burguesia prefere vociferar contra o Exército Vermelho do que combater o estupro real, cotidiano e sistêmico contra as mulheres brasileiras.

É especialmente grave que um jornal de grande circulação — financiado por bancos e empresas que lucram com essa realidade — utilize a luta das mulheres como cortina de fumaça para atacar a história da libertação antifascista. Essa instrumentalização da dor feminina é uma das formas mais perversas de manipulação ideológica. A retórica de defesa das mulheres só aparece quando serve aos interesses geopolíticos do imperialismo, nunca quando diz respeito às mulheres pobres, indígenas, quilombolas e periféricas.

Em vez de denunciar os casos de violência sexual atribuídos a militares dos EUA na Coreia do Sul nos últimos anos — segundo dados da própria Justiça sul-coreana — ou os milhares de estupros relatados durante a ocupação americana no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão, a imprensa ocidental insiste em transformar em dogma inquestionável uma acusação sistematicamente refutada por estudos sérios, documentos oficiais e evidências empíricas.

Stálin, disciplina e justiça militar

A realidade, como mostram os documentos internos do Exército Vermelho e estudos como os de Vera Dubina, Daniil Ivanov, Elena Senyavskaya e O. A. Rzheshevsky, é que a liderança soviética levou a sério a repressão a qualquer tipo de abuso contra civis. Em 19 de janeiro de 1945, Stálin emitiu a ordem direta:

Oficiais e homens do Exército Vermelho! Estamos entrando no país do inimigo. A população restante nas áreas libertadas, independentemente de ser alemã, tcheca ou polonesa, não deve ser submetida à violência. Os perpetradores serão punidos de acordo com as leis da guerra. Nos territórios liberados, não são permitidas relações sexuais com mulheres. Os autores de violência e estupro serão fuzilados.

A ordem foi acompanhada por instruções adicionais nos comandos de frente, criando mecanismos de denúncia e responsabilização. O general Rokossovsky emitiu circular interna reforçando a execução imediata de saqueadores e estupradores. Na Frente Bielorrussa, entre 1944 e 1945, mais de 4 mil soldados foram julgados por crimes contra civis. Em centenas de casos, a pena aplicada foi o fuzilamento. A Procuradoria Militar da URSS registrou mais de 7.500 processos disciplinares por crimes diversos apenas entre janeiro e maio de 1945. A maioria desses casos envolvia punições severas.

É conhecida as orientações e ordens diretas de Stálin e da Stavka (Alto Comando Soviético):

Diretriz do Quartel-General do Comando Supremo aos comandantes de tropas e membros dos conselhos militares da 1ª Frente Bielorrussa e da 1ª Frente Ucraniana sobre a mudança no tratamento dos prisioneiros de guerra alemães e da população civil — 20 de abril de 1945

O Quartel-General do Comando Supremo determina o seguinte:

1. Torna-se imperativo alterar a conduta adotada em relação aos prisioneiros de guerra e à população civil alemã. A partir de agora, os alemães devem ser tratados com maior humanidade. O tratamento excessivamente severo, até aqui empregado, tem provocado o efeito contrário ao desejado: reforça o temor entre os alemães e os leva a oferecer resistência obstinada, evitando a rendição. No seio da população civil, o pavor de represálias tem incentivado a formação de bandos armados. Tal quadro não favorece os objetivos estratégicos das forças soviéticas. A adoção de uma postura mais comedida e humana contribuirá, sem dúvida, para enfraquecer a resistência inimiga e facilitará a campanha militar em território alemão.

2. Nas regiões da Alemanha situadas a oeste da linha que vai da foz do rio Oder até Fürstenberg e, em seguida, ao longo do rio Neisse (em sua margem ocidental), deverão ser organizadas administrações locais compostas por cidadãos alemães. Nas cidades, será necessário nomear burgomestres alemães. Com relação aos membros de base do Partido Nacional-Socialista (NSDAP), caso demonstrem lealdade ao Exército Vermelho, não devem ser tocados. Somente os quadros dirigentes do partido deverão ser detidos, desde que não tenham conseguido escapar.

3. A melhoria no tratamento dispensado aos alemães não pode, em hipótese alguma, conduzir à negligência na vigilância ou à adoção de uma postura ingênua e complacente diante do inimigo.

Quartel-General do Comando Supremo.

JOSEF STÁLIN

ANTONOV

Relatórios apresentados por Rzheshevsky indicam que a disciplina militar soviética foi mantida com rigor e que, em muitos casos, os próprios comandantes da frente apresentaram ações punitivas exemplares, buscando preservar a dignidade do Exército Vermelho como força libertadora. Há inclusive relatos de delegações religiosas protestantes alemãs que agradeceram aos comandantes soviéticos pela proteção dada às populações locais.

A farsa estatística desmontada

Daniil Ivanov realiza uma crítica devastadora à base estatística das acusações de “milhões de estupros” cometidos pelo Exército Vermelho. Ele mostra que os números propagados vêm principalmente de estimativas feitas por Helke Sander e Miriam Gebhardt — que extrapolam pequenas amostragens e as projetam sobre toda a Alemanha ocupada. Um dos cálculos mais divulgados baseia-se na estimativa de 90 mil abortos realizados em Berlim entre 1945 e 1946 — sem qualquer comprovação de que tenham sido resultado de estupros, e muito menos cometidos por soldados soviéticos.

Ivanov lembra que os registros de aborto na Alemanha não exigiam prova alguma: bastava a alegação de que o pai era “um estrangeiro” para que o procedimento fosse autorizado. Criado por decreto nazista no fim da guerra, esse mecanismo foi aproveitado pelas mulheres para escapar do estigma social da gravidez fora do casamento, num contexto de colapso total da infraestrutura alemã. A possibilidade de dizer “fui estuprada por um russo” garantia o procedimento.

Mesmo em Berlim, onde se concentram os relatos mais frequentes, as estatísticas são frágeis. O Hospital de Frauenklinik Charité, principal referência do setor, registrou 195 abortos entre maio e agosto de 1945. Não há como sustentar, com esse tipo de base, uma acusação de estupros em escala de milhões.

Elena Senyavskaya acrescenta que os dados usados por autores ocidentais são compostos majoritariamente por “rumores, relatos anônimos e repetições infundadas”, sem base em documentação oficial. Trata-se de uma “memória fabricada”, usada para promover a equivalência entre os horrores do nazismo e o projeto revolucionário soviético.

Revisionismo histórico e geopolítico

A professora Vera Sergeevna Dubina, historiadora da Universidade Estatal Humanitária Russa, demonstra que a construção da imagem do Exército Vermelho como “estuprador coletivo” é parte de um projeto ideológico ocidental que visa absolver os crimes do nazismo. Em sua pesquisa, ela demonstra que a memória da violência sexual cometida pelos nazistas contra soviéticos — incluindo mulheres, crianças e prisioneiros — foi sistematicamente apagada da historiografia dominante.

Documentos dos arquivos de Smolensk, de Kiev e de Leningrado revelam que as tropas nazistas instalaram bordéis forçados em diversos territórios ocupados. Milhares de soviéticas foram mantidas como escravas sexuais. Em Babi Yar, mulheres e meninas foram estupradas antes de serem executadas. Nenhuma dessas histórias é lembrada com a mesma frequência que os supostos abusos dos soviéticos.

Ao mesmo tempo, Dubina mostra que os relatos de estupros cometidos por soldados soviéticos se concentram em um curto período — abril e maio de 1945 — e diminuem radicalmente com o avanço da reorganização administrativa nos territórios ocupados. Ou seja, mesmo onde houve abusos, estes foram pontuais e contidos por ação deliberada do comando militar soviético.

O historiador Ludo Martens explica que a fórmula “contra Hitler e contra Stálin” foi a base de união entre antigos nazistas e a inteligência estadunidense no pós-guerra. Sob o pretexto de combater o “totalitarismo”, reabilitou-se o discurso antissoviético e se fabricaram mitos como o “Holodomor” ou os “100 milhões de mortos pelo comunismo”, projetando uma equivalência falsa e politicamente útil a um capitalismo em constantes crises sistêmicas.

O papel das mulheres no Exército Vermelho

Mais de 800 mil mulheres serviram no Exército Vermelho durante a Grande Guerra Patriótica. Destas, cerca de 200 mil atuaram diretamente na linha de frente. Foram atiradoras de elite, aviadoras, médicas de campo, sapadoras, operadoras de rádio, partisans. Entre as heroínas, destacam-se nomes como Lyudmila Pavlichenko (309 inimigos abatidos), Roza Shanina (59 mortes confirmadas) e a aviadora Marina Raskova, criadora do regimento feminino de bombardeio noturno — as lendárias “Bruxas da Noite”.

Essas mulheres não apenas combateram: organizaram, resistiram, formaram quadros. Ignorar sua existência ou insinuar que aceitaram caladas um genocídio sexual promovido por seus camaradas é um insulto à sua memória e à sua luta. A tentativa de apagar esse protagonismo feminino é parte de uma operação mais ampla: negar que o socialismo tenha produzido mulheres livres, revolucionárias, armadas e conscientes de sua missão histórica.

A verdadeira luta das mulheres — herdeiras do Exército Vermelho

Enquanto a Folha distorce o passado, mulheres organizadas constroem o futuro. O Movimento de Mulheres Olga Benário ergue Casas de Referência por todo o Brasil com luta, ocupação e defesa da vida das mulheres. Essas casas são espaços de acolhimento, formação política e resistência concreta. Ali se combate o estupro de verdade e a violência patriarcal, não com artigos de jornal repletos de revisionismo histórico, mas com prática concreta, organização e poder popular. A verdadeira revolução das mulheres não é liberal, nem midiática: é comunista.

Essas mulheres não esperam reportagens favoráveis da grande imprensa. Elas ocupam prédios abandonados, enfrentam despejos, organizam campanhas de solidariedade, formam brigadas de luta. São as herdeiras das combatentes soviéticas, das guerrilheiras vietnamitas, das cubanas, das bolivarianas. Sua luta é por uma sociedade sem opressão de classe, sem machismo, sem racismo — uma sociedade socialista!

Nem perdão, nem esquecimento!

Enquanto a Folha de S. Paulo fabrica mentiras com base em propaganda de guerra reciclada, o Movimento de Mulheres Olga Benário constrói no Brasil casas de referência para salvar a vida de mulheres em situação vulnerável. Enquanto colunistas reabilitam o nazismo sob a máscara do feminismo liberal, as mulheres comunistas constroem nas trincheiras da luta a possibilidade concreta de um mundo novo.

A mentira da Folha não é apenas uma falsificação do passado. É uma arma na guerra ideológica do presente. E como toda arma ideológica, deve ser enfrentada com organização, crítica, estudo e ação consequente. O Exército Vermelho não será julgado por seus algozes. Será defendido por seu legado: a vitória sobre o fascismo e a construção heroica do socialismo.

Não perdoaremos, nem esqueceremos!

Referências Bibliográficas

ARTIGOS CIENTÍFICOS E ENSAIOS UTILIZADOS

• Dubina, Vera Sergeevna. Violência Sexual na Segunda Guerra Mundial: Memória, Discurso, Instrumentalização Política. Universidade Estatal Humanitária Russa. Disponível em: Cyberleninka

• Ivanov, Daniil. Como Violamos 15 Milhões de Alemãs? Guia de Moscou, 2013. Disponível em: Guia de Moscou - Blogspot

• Martens, Ludo. Outra Visão Sobre Stáline. Capítulo 5: “A coletivização e o “holocausto ucraniano”. 1994. Disponível em: Arquivo Marxista na Internet (português).

• Senyavskaya, Elena. Sobre as Alegações de Estupro em Massa na Alemanha em 1945: Guerra e Discurso Historiográfico. Manuscrito traduzido (2022). Universidade Estatal de Moscou.

• Rzheshevsky, O.A. Ainda Sobre as Alegações de Estupro de Mulheres Alemãs pela Tropas Soviéticas. Comitê de História da Grande Guerra Patriótica. Moscou, 2009.

DADOS ESTATÍSTICOS E RELATOS HISTÓRICOS ADICIONAIS

• Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024. São Paulo: FBSP, 2024.

• O Globo. Quem eram as mulheres de conforto sul-coreanas escravas sexuais de tropas americanas após a guerra da Coreia. 2023.

• O Globo. My Lai: 50 anos do massacre americano que escancarou os horrores no Vietnã. 2018.

• Wikipedia. Prisão de Abu Ghraib. Última atualização: 2024.

REFERÊNCIAS UTILIZADAS PELOS AUTORES

• Beevor, Antony. Berlin: The Downfall 1945. Viking Penguin, 2002.

• Sander, Helke. BeFreier und BeFreite: Krieg, Vergewaltigung, Kinder. Fischer Verlag, 1992.

• Gebhardt, Miriam. Als die Soldaten kamen: Die Vergewaltigung deutscher Frauen am Ende des Zweiten Weltkriegs. DVA, 2015.