Os Secretários — Alma viva do Partido Comunista
Este ensaio resgata a importância histórica, política e ideológica dos secretários do Partido Comunista — de Organização, Agitação e Propaganda, e Finanças — como operadores centrais da linha revolucionária e construtores da unidade entre teoria e prática. Em diálogo com as experiências socialistas do século 20 e os desafios do século 21, o ensaio propõe avanços organizativos e reafirma que, sem secretários conscientes e formados, não há Partido, nem revolução.
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Primeira parte: A definição do trabalho do secretariado
Introdução
Em toda construção histórica séria da revolução
proletária, desde a Comuna de Paris até o poder soviético e a experiência
albanesa de construção socialista, há uma constante: a necessidade de um
Partido Comunista centralizado, disciplinado e firmemente enraizado na classe
trabalhadora. Mas um partido comunista não é uma abstração teórica, uma sigla
vazia ou um “coletivo horizontal” sem direção. Ele é uma organização viva,
composta por homens e mulheres forjados na luta, educados na teoria
marxista-leninista e dotados de responsabilidades políticas definidas. E nesse
organismo vivo, os secretários cumprem o papel vital de manter pulsando o
coração das organizações partidárias.
Se quisermos compreender verdadeiramente o papel desses
camaradas — os secretários de Organização, de Agitação e Propaganda, e de
Finanças — é preciso romper de antemão com toda visão mecanicista ou
reducionista sobre suas funções. Eles não são meros “técnicos administrativos”,
“coordenadores neutros” ou burocratas despidos de ideologia. Ao contrário: são
quadros políticos de vanguarda, responsáveis por manter viva a chama da
revolução no seio do Partido, garantir sua ligação com as massas e transformar
ideias revolucionárias em prática organizada.
Nosso propósito aqui é duplo: primeiro, recuperar
histórica e filosoficamente o sentido político da função dos secretários na
estrutura partidária comunista; segundo, detalhar suas tarefas práticas,
dialeticamente ligadas às determinações da luta de classes, às exigências da
construção revolucionária do nosso tempo e à formação de quadros
verdadeiramente temperados nos combates da nossa época histórica.
E aqui cabe recuperar, com a devida reverência e
atualidade, as palavras do camarada Stálin, que compreendeu como poucos a
centralidade dos quadros na vida do Partido e do Estado proletário. No célebre
discurso “O Homem, o Capital Mais Precioso” (1935),
declarou:
“Pois bem, camaradas, se queremos superar com êxito a penúria no domínio das pessoas e conseguir que o nosso país disponha de uma quantidade suficiente de quadros, capazes de fazer progredir a técnica e pô-la em ação, devemos saber, antes de mais, dar valor aos quadros, a cada trabalhador capaz de ser útil à nossa causa comum. É preciso, por fim, compreender que, de todos os capitais preciosos que existem no mundo, o mais precioso e o mais decisivo, são as pessoas, os quadros. [...] Os quadros decidem tudo.”
Esta afirmação, que se tornou uma divisa imortal do
socialismo científico, não é um exagero retórico: ela expressa uma compreensão
profundamente dialética do papel do sujeito revolucionário. Sem quadros
capazes, disciplinados e formados, a teoria permanece letra morta; as decisões
do Comitê Central se perdem no vazio; o Partido torna-se uma casca vazia,
incapaz de dirigir as massas. Os secretários, portanto, não são meros
executores, mas elementos conscientes da mediação entre direção política e base
social, entre teoria e prática, entre o Programa e sua realização concreta. São
a vértebra da vida partidária, e sua qualidade determina a saúde do Partido
como um todo.
Ainda segundo Stálin:
“Camaradas, acabastes a escola superior e recebestes aí a primeira têmpera. Mas a escola não é mais do que um grau preparatório. A verdadeira têmpera recebemo-la no trabalho vivo, fora da escola, na luta contra as dificuldades, na sua superação. Lembrem-se, camaradas, que os bons quadros são aqueles que não temem as dificuldades, que não se esquivam a elas, mas que, pelo contrário, vão ao seu encontro para as ultrapassar e vencer. Só na luta contra as dificuldades é que se forjam os verdadeiros quadros.”
Estas palavras sintetizam a alma do trabalho dos
secretários comunistas: sua têmpera se dá na prática militante cotidiana,
enfrentando contradições internas e externas, organizando o trabalho coletivo,
elevando a consciência política da base, superando o espontaneísmo, corrigindo
desvios e fraquezas, formando novos camaradas, garantindo a segurança da
organização, a clareza ideológica da propaganda e a saúde material do Partido.
Não há tarefa simples nem cargo “menor” em um Partido
Comunista que realmente se proponha a destruir a ordem burguesa. Por isso, ao
longo deste ensaio, trataremos em detalhe do papel dos Secretários de
Organização, de Agitação e Propaganda e de Finanças, revelando como suas
tarefas se entrelaçam com as grandes determinações filosóficas, políticas e
materiais da luta de classes em sua expressão partidária. Veremos como cada um
deles atua como um operador político e moral da linha revolucionária,
carregando sobre os ombros o dever histórico de preparar a vitória da classe
trabalhadora. Não se trata de um trabalho individual ou de “liderança
personalista”, mas da aplicação viva dos princípios do centralismo democrático
e do internacionalismo proletário, firmemente baseados na tradição leninista.
Afinal, se “os quadros decidem tudo”, então os
secretários são os escultores de quadros, os arquitetos do Partido e os
soldados da disciplina revolucionária. E é por isso que sua formação, seu
acompanhamento, sua crítica e seu reconhecimento são tarefas estratégicas de
primeira ordem.
O Secretário de Organização: Sentinelas do Marxismo
Nada é mais temido pelas classes dominantes do que a
existência de uma organização comunista viva, disciplinada, lúcida e
estruturada com raízes profundas entre as massas trabalhadoras. E se há uma
figura dentro dessa engrenagem partidária que concentra o ódio histérico da
burguesia, é a do Secretário de Organização. A razão é simples: ele é a
antítese viva do caos pequeno-burguês, do liberalismo desorganizador e da
espontaneidade destrutiva. Ele é o sujeito coletivo encarnado numa tarefa:
construir a organização que destrói a velha ordem e ergue a nova.
As mentiras promovidas pela burguesia contra essa figura
não são acidentais, nem se dá por ignorância — ela cumpre uma função política
concreta: desacreditar o papel do Partido na direção das massas e da revolução.
A figura do Secretário de Organização é pintada ora como um burocrata cinzento
e sem alma, ora como um “xerife” autoritário que pretende “vigiar e punir” a
vida dos militantes, ou até como um funcionário obtuso do Comitê Central cuja
única tarefa seria “controlar” os demais. Essa narrativa pueril, liberal e
profundamente anticomunista deve ser desmontada com firmeza. Ela não se
sustenta nem do ponto de vista histórico, nem do ponto de vista prático. Na
realidade, o Secretário de Organização, em sua melhor expressão, é a síntese de
várias qualidades revolucionárias: disciplina, iniciativa, escuta, firmeza,
planejamento, centralismo, zelo coletivo e dedicação incondicional à causa do
socialismo científico.
Tomemos como base o exemplo da União Soviética sob a direção
de Lênin e Stálin, ou o Partido do Trabalho da Albânia (PTA) sob Enver Hoxha:
em todos os momentos de virada histórica, a organização partidária foi o fator
decisivo entre a vitória e a derrota. E onde a organização floresceu com
disciplina e ligação real com as massas, lá havia secretários de organização
atentos, comprometidos, humildes e implacáveis com o desleixo. Yakov Sverdlov,
o bolchevique que Lênin considerava o maior organizador da revolução, não era
um chefe arrogante, mas um camarada presente em cada comissão, em cada célula,
cuidando da disciplina como quem cuida de um viveiro de sementes
revolucionárias.
O papel do Secretário de Organização não é o de um “gestor”
neutro, mas o de um dirigente político da base — e, como tal, seu compromisso é
com a elevação da consciência coletiva, com a execução das tarefas práticas e
com o avanço político do coletivo. Ele é o primeiro a chegar e o último a sair.
Coordena reuniões, propõe pautas, acompanha tarefas, mas também observa
silêncios, ausências, contradições não verbalizadas, e atua como um educador
paciente. Sua tarefa é dialética: manter a firmeza organizativa sem esmagar a
iniciativa criadora, incentivar o debate sem perder o eixo central, cultivar a
vigilância revolucionária sem paranoia, estabelecer normas sem cair no
formalismo.
A escuta ativa dos membros não é um gesto liberal de “democracia
vazia”, mas uma ferramenta dialética para detectar contradições internas,
fortalecer a unidade ideológica e corrigir desvios antes que se tornem tumores
no organismo partidário. O Secretário de Organização deve conhecer
profundamente cada militante — suas capacidades, limitações e estado de
formação política e de ânimo — para destacar tarefas conforme as necessidades
da revolução, jamais conforme caprichos individuais.
Além disso, cabe ao Secretário de Organização garantir a
segurança do Partido. Isso significa, na prática, estabelecer protocolos de
cuidado e proteção para os militantes, tanto nos espaços físicos quanto nos
digitais. Num tempo em que o imperialismo vigia cada clique, cada reunião
virtual, cada expressão contestadora, é fundamental que este camarada se
qualifique no campo da cibersegurança, conheça os métodos de infiltração e
desinformação utilizados pela reação e esteja em constante diálogo com os demais
membros sobre os perigos reais que nos rondam. A segurança partidária não é
paranoia, é necessidade histórica — e o secretário que a conduz não é um
carcereiro, mas um guardião da nossa continuidade.
Esse camarada também deve zelar pela formação teórica
contínua do coletivo. Isso inclui não só organizar sistematicamente os estudos
da teoria marxista-leninista, como também incentivar o estudo das ciências
naturais, da história, da filosofia, das lutas populares, da cultura nacional e
universal. Ele deve ser, ele mesmo, um leitor voraz, um formador exigente, um
amante da ciência e do conhecimento. Nenhuma revolução é possível com quadros
ignorantes — e se o partido quer preparar seus militantes para dirigir o novo
Estado, precisa formar intelectuais orgânicos da classe trabalhadora, aptos a
compreender e transformar o mundo. É o Secretário de Organização que muitas
vezes impulsiona essa tarefa cotidiana, silenciosa e titânica: a elevação
cultural da militância.
Tampouco se pode reduzir seu papel à “administração” da
vida partidária. O secretário deve pensar estrategicamente: como ampliar nosso
raio de ação? Como intervir melhor na luta de classes? Como avançar o
enraizamento do Partido nos locais de trabalho, moradia, estudo? Como despertar
os desorganizados, os desmoralizados, os desesperançados? A ele cabe também
sugerir novas formas de ação, propor campanhas políticas, articular frentes de
massas, identificar novos quadros e potenciais dirigentes. Não há espaço para
acomodação. O secretário que se fecha numa sala somente para “organizar
planilhas” trai sua função histórica. O verdadeiro secretário está com os pés
na terra e os olhos no horizonte.
Por fim, é preciso dizer com toda a franqueza
revolucionária: o Secretário de Organização é um espelho do Partido que temos.
Se ele é omisso, o coletivo se fragiliza. Se ele é arrogante, o coletivo se
distancia. Se ele é desorganizado, o coletivo se dispersa. Mas se ele é
dedicado, coerente, humilde, firme e amoroso com seus camaradas, então o
Partido cresce, floresce e se torna uma força histórica viva. Por isso, não se
trata apenas de cobrar esse camarada — trata-se de compreendê-lo, fortalecê-lo,
acompanhá-lo e, sobretudo, formar novos secretários à sua altura.
O Partido Comunista do futuro precisa de centenas,
milhares de secretários de organização como o camarada Sverdlov, como o
camarada Enver Hoxha, como os anônimos que mantiveram as células comunistas
vivas mesmo sob a mais dura repressão. Eles não aparecem nas manchetes, mas sem
eles não há revolução. A história futura lhes fará justiça. E nossa tarefa é
não esperar que o tempo os reconheça — mas reconhecer agora, politicamente, que
são eles os verdadeiros operários da construção comunista.
Burocratismo, formalismo e autoritarismo na organização partidária
O Partido Comunista não é um corpo infalível. É uma
organização composta de seres humanos em luta contra a velha sociedade,
carregando, portanto, as marcas dessa sociedade dentro de si. A tarefa da
organização revolucionária é justamente depurar-se desses vícios herdados da
ordem burguesa, combatê-los com energia e vigilância política. No entanto, a
história do Movimento Comunista Internacional (MCI) mostra que, em diferentes
momentos e contextos, a função organizativa do Partido foi corroída por três
desvios principais: o burocratismo, o formalismo e o autoritarismo sectário.
Estes desvios não apenas enfraqueceram os Partidos de vanguarda, mas, em muitos
casos, contribuíram diretamente para sua degeneração e ruptura com as massas.
O burocratismo é o primeiro e talvez mais insidioso de
todos os males. Ele não aparece como um “grande desvio ideológico”, mas como
uma rotina — a rotina do papel pelo papel, da reunião pela reunião, da tarefa
feita apenas para ser registrada. O burocratismo transforma a prática militante
viva em carimbo, em ritual vazio. Quando um Secretário de Organização se torna
prisioneiro do burocratismo, ele deixa de ser um dirigente revolucionário e
passa a ser um funcionário inerte. Os problemas da base deixam de ser ouvidos,
as tarefas viram listas de tarefas e a militância se esfria. Pior ainda: em
nome da “eficiência organizativa”, pode-se sufocar a iniciativa criadora das
massas, substituindo a política pela técnica. Na União Soviética, esse mal foi
denunciado por Lênin nos últimos anos de sua vida, especialmente ao tratar do
crescente distanciamento entre os órgãos partidários e o povo. E foi justamente
contra esse processo que o camarada Stálin teve de empreender uma luta
profunda, politizando novamente a organização, colocando os quadros no centro e
varrendo da máquina do Partido os elementos inertes, oportunistas e
burocráticos.
O formalismo está intimamente ligado ao burocratismo, mas
se expressa com mais clareza no plano ideológico. É o vício de transformar as
normas partidárias em dogmas, os estatutos em religião, a disciplina em
liturgia. O formalismo é, essencialmente, uma negação do método dialético: ele
congela a realidade, fecha a política em esquemas abstratos e torna o Partido
incapaz de compreender o movimento real da luta de classes. O formalista repete
fórmulas e esquece a análise concreta da situação concreta. Na prática, isso
significa punir camaradas com base em tecnicalidades, ignorar os contextos,
aplicar decisões mecânicas sem escutar a base. O Partido deixa de ser educador
coletivo e se transforma em tribunal moralista. Esse desvio afetou
profundamente partidos comunistas da Europa Oriental, onde, em nome da “legalidade
socialista”, se sufocaram debates reais, se esconderam erros e se isolaram
setores combativos da classe trabalhadora. Um Partido dominado pelo formalismo
perde sua flexibilidade tática, sua capacidade de aprender com o povo e sua
função de vanguarda.
Já o autoritarismo sectário, quando penetra a função
organizativa, é talvez o mais destrutivo de todos os desvios. Aqui, o
Secretário não é mais um dirigente coletivo, mas um “chefe” que concentra
poder, impõe ordens sem consulta, suspeita permanentemente da base e reprime
qualquer crítica como “desvio ideológico”. Esse tipo de conduta desmoraliza a
militância, gera medo, silencia o debate e destrói a confiança coletiva, que é
o cimento da organização comunista. A história mostra que o autoritarismo,
embora possa parecer “eficaz” a curto prazo, corrói a estrutura partidária por
dentro. Foi justamente por não combater de forma consequente essa tendência que
muitos Partidos comunistas se desfiguraram e perderam sua função
revolucionária, afundando em crises internas, rupturas sectárias ou completa
degeneração oportunista. Não basta a disciplina mecânica — é preciso a
disciplina consciente, forjada na convicção política e na confiança mútua entre
os camaradas.
A autocrítica sobre esses desvios não é uma
autoflagelação, mas um dever revolucionário. Se um Partido não sabe fazer
autocrítica, não presta para nada. E a função organizativa deve estar na linha
de frente dessa luta. O Secretário de Organização deve ser o primeiro a
combater o burocratismo, mantendo vivo o contato com a base; o primeiro a enfrentar
o formalismo, contextualizando e politizando as normas internas; o primeiro a
derrotar o autoritarismo, garantindo o exercício real do centralismo
democrático, que une a direção política com a iniciativa militante das massas.
É necessário retomar, com espírito revolucionário, a
ideia de que a função organizativa é antes de tudo uma função pedagógica,
política e militante. E isso exige espírito crítico, escuta ativa, formação
contínua e, sobretudo, humildade revolucionária. Não existe Partido comunista
sério sem organização sólida — mas tampouco existe organização sólida sem
espírito revolucionário, sem ligação real com o povo e sem vigilância
permanente contra os desvios que deformam a forma para esvaziar o conteúdo.
Aprender com os erros é uma prova de maturidade.
Corrigi-los na prática é um sinal de força. Fortalecer os secretários na luta
contra o burocratismo, o formalismo e o autoritarismo é fortalecer o próprio
Partido como instrumento da libertação proletária.
O Secretário de Agitação e Propaganda: a ponte entre o Partido e as massas
Entre os cargos mais atacados pela ideologia dominante e
mais incompreendidos até mesmo dentro de setores progressistas, está o do
Secretário de Agitação e Propaganda. A burguesia, com sua lógica pervertida,
tenta pintar este quadro como um “ideólogo fanático”, uma espécie de pregador
doutrinário do comunismo, um “sacerdote laico” do Partido, isolado do povo,
repetidor de manuais, distante da vida real. Essa caricatura não apenas revela
a ignorância da classe dominante sobre a natureza do trabalho revolucionário,
como também expressa o medo genuíno que sentem da capacidade do Partido
Comunista de conquistar corações e mentes para a luta socialista, por meio da
ciência, da arte, da palavra, da emoção e da verdade organizada.
O Secretário de Agitação e Propaganda é, na verdade, um
dos pilares mais dinâmicos da luta comunista. Não há revolução possível sem a
disputa do imaginário social, sem a batalha cultural e ideológica, sem a
presença viva do Partido na cabeça e no coração das massas. E essa presença não
surge do nada. Ela é construída meticulosamente por aqueles que organizam a
palavra, a imagem, o gesto e a ação direta com um só objetivo: romper o
consenso ideológico burguês e fazer germinar a consciência de classe revolucionária
entre os explorados.
Historicamente, os comunistas sempre compreenderam isso.
Basta recordar o trabalho exemplar de Stálin na Transcaucásia durante os anos
de clandestinidade bolchevique. Ali, no meio das montanhas do Cáucaso, Stálin
organizou gráficas subterrâneas, redes de distribuição de jornais, tipografias
móveis e rotas clandestinas que garantiram a circulação de panfletos e textos
marxistas entre os operários e camponeses da região. O jornal Brdzola (A
Luta) foi apenas um entre dezenas de instrumentos forjados com sacrifício para
manter acesa a chama da consciência. “Sem teoria revolucionária, não há
movimento revolucionário”, dizia Lênin (“O Que Fazer?”, 1902), e o jornal era,
para os bolcheviques, o organizador coletivo da vanguarda, muito mais do que
uma publicação: era uma ferramenta de construção política, disciplinar,
cultural e ideológica.
Hoje, os comunistas enfrentam desafios ainda mais
complexos. Vivemos num século marcado pela velocidade da informação, pela
despolitização em massa, pelo domínio das redes digitais e pela
hiperestimulação das consciências. Nesse cenário, o papel do Secretário de
Agitação e Propaganda torna-se ainda mais central: ele é o responsável por
articular uma frente ampla de comunicação militante, que vá do jornal físico à
produção digital, dos cartazes de rua ao audiovisual de intervenção, da
formação ideológica à provocação estética. A ele cabe planejar, executar,
fiscalizar e inspirar os meios pelos quais o Partido se comunica com o povo. E,
mais do que nunca, esse trabalho exige profissionalismo, ousadia, iniciativa e
ciência.
No caso do Partido Comunista, é tarefa inadiável elevar
qualitativamente o trabalho de seu jornal A Verdade.
Isso exige, antes de tudo, que cada célula e comitê tenha metas concretas de
leitura, venda e difusão — sejam elas feitas por cotas individuais ou brigadas
coletivas — e que haja prestação de contas rigorosa dos números, tanto em
termos de circulação quanto de impacto. Mas não basta distribuir: é preciso
produzir conteúdo, relatar lutas locais, elaborar denúncias bem fundamentadas,
escrever crônicas políticas, entrevistar operários e estudantes, refletir o
mundo real com a linguagem das massas. Cada célula deve ser uma redação viva, e
o Secretário de AgitProp o seu editor político.
Essa responsabilidade se estende às Edições Manoel
Lisboa, patrimônio político e ideológico do Partido. O acompanhamento do
catálogo, a prestação de contas, a ampliação da distribuição, a popularização
dos títulos entre a juventude, a organização de lançamentos, debates e círculos
de leitura — tudo isso deve ser parte do planejamento político do AgitProp.
Afinal, como dizia Antonio Gramsci em seus “Cadernos do Cárcere” (1926-1937),
“a indiferença é o peso morto da história”, e cabe aos comunistas agitar, mover
e iluminar consciências. O livro é um instrumento revolucionário, desde que estejam
nas mãos certas, com a mediação certa.
Além disso, o Secretário deve organizar as ações de rua,
pois é no espaço público que se trava grande parte da disputa ideológica.
Tribunas populares, panfletagens, pichações, escrachos, colagem de cartazes,
banquinhas com livros e jornais — tudo isso deve ser sistemático, planejado e
acompanhado. A comunicação de massas não pode ser esporádica, e tampouco “espontânea”.
O Partido precisa voltar a criar imagem pública, marcar presença estética e
simbólica nas ruas, voltar a ser temido pelos inimigos e amado pelos operários.
Isso só se faz com ousadia tática e disciplina organizativa.
A palavra “propaganda”, tão demonizada pelos liberais,
vem do latim propagare — espalhar, semear, multiplicar. E é isso que o
Secretário de AgitProp faz: espalha ideias revolucionárias, semeia esperança
comunista, multiplica a força do Partido na consciência social. Seu trabalho é
tanto pedagógico quanto político, tanto artístico quanto estratégico. Ele deve
dominar o marxismo-leninismo, mas também a história, a linguagem, a psicologia,
o design, o audiovisual, as ferramentas online e as redes digitais — não como
moda ou fetiche, mas como instrumentos táticos da revolução.
Nesse sentido, é urgente que o Partido construa sua
própria gráfica revolucionária, como fizeram os bolcheviques, os vietnamitas,
os cubanos. Somente com o domínio do processo produtivo — desde a escrita, a
edição, a impressão e a distribuição — o Partido pode garantir independência
ideológica e eficiência organizativa. Os materiais de propaganda devem ser
tratados como armas: bem planejadas, bem afiladas, bem distribuídas. E o
Secretário de Agitação e Propaganda deve ser, com orgulho, o armeiro ideológico
do proletariado.
Fazendo eco às palavras de Epicuro — o filósofo
materialista que ensinava que o conhecimento liberta do medo —, podemos dizer
que a função do agitador comunista é romper o medo e a ignorância que mantêm o
povo acorrentado. Ele é o construtor do novo senso comum, o portador da palavra
que não apenas denuncia, mas organiza. Como escreveu Karl Marx em sua décima
primeira tese sobre Feuerbach: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de
diversas maneiras; o que importa é transformá-lo” (“Teses sobre Feuerbach”,
1845). A propaganda comunista é esse salto: da interpretação à transformação,
da palavra à luta, do jornal à ação.
Portanto, o Secretário de AgitProp não é um dogmático de
púlpito, nem um “marqueteiro” moderno. Ele é um militante revolucionário com
espírito de artista e disciplina de operário, que transforma ideias em força
material, que comunica o Partido com o povo e prepara as condições subjetivas
para o assalto ao céu. Seu trabalho é vital, sua tarefa é estratégica, sua
formação deve ser constante. E sua audácia, inabalável.
O Secretário de Finanças: a sustentação material da revolução
Entre todas as funções que estruturam a máquina viva do
Partido Comunista, talvez nenhuma seja tão vilipendiada, deturpada e cercada de
calúnias pela burguesia quanto a do Secretário de Finanças. Os meios de
comunicação dos capitalistas e os seus cães de guarda ideológicos não hesitam
em acusar essa figura de ser uma espécie de “caixa clandestina”, um “ladrão de
cotas”, um “recolhedor de tributos para o terrorismo” ou, nas palavras mais
grotescamente anticomunistas, um “chantagista de operários ingênuos”. Mas por
trás dessa campanha de difamação, esconde-se o pavor da burguesia diante de um
fato elementar da luta de classes: um Partido Comunista que se sustenta com
recursos próprios é um Partido que não se ajoelha.
Desde os primórdios do movimento operário, ficou claro
que a independência política do Partido exige sua independência financeira.
Isso não é uma opção moral, mas uma exigência material da luta revolucionária.
Karl Marx, já na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), defendia com
firmeza a necessidade de contribuições regulares dos membros para garantir o
funcionamento da organização. “A emancipação da classe trabalhadora deve ser
obra da própria classe trabalhadora”, escrevia no “Estatuto da AIT” (1864), e
isso implicava também a responsabilidade coletiva pela sustentação dos meios de
luta. Um Partido que depende de doações de ONGs, de verbas estatais ou de
financiamentos indiretos está, na prática, manietado — ainda que grite “revolução”
em seus discursos. O marxismo-leninismo exige coerência entre os meios e os
fins. E o Secretário de Finanças é o guardião dessa coerência.
As cotas mensais, recolhidas entre os militantes e
simpatizantes do Partido, não são um imposto, mas um ato consciente de
compromisso político. Cada contribuição é uma afirmação prática de que a luta
de classes precisa de estrutura, de papel, de tinta, de tijolos, de transporte,
de livros, de segurança, de impressão. Um militante que paga suas cotas não
está “doando dinheiro”, está participando diretamente da construção da
infraestrutura revolucionária. E o Secretário de Finanças é o camarada que
organiza, acompanha, orienta e dá transparência a esse processo. Seu trabalho
não é “contábil”, mas profundamente político e ideológico: ele cultiva o
espírito de responsabilidade coletiva e a consciência de que a revolução exige
sacrifício, planejamento e rigor com os recursos do povo.
A história do movimento comunista internacional está
repleta de exemplos heroicos nesse sentido. Lênin, durante os anos de
clandestinidade, defendia com unhas e dentes a centralização dos recursos
partidários para garantir a sobrevivência dos jornais, das tipografias, dos
comitês e das células. Já o camarada Stálin, antes mesmo de ser um dirigente
nacional, destacou-se pela sua capacidade de obter recursos para o Partido sob
as condições mais difíceis. Atuando na Geórgia e no Cáucaso, Stálin organizava expropriações
de fundos das oligarquias czaristas, interceptava carregamentos de ouro, tomava
carroças de banqueiros para financiar panfletagens, apoiar greves, construir
casas seguras e manter os bolcheviques em atividade. Esse trabalho era
arriscado, clandestino e absolutamente necessário. “Koba” caucasiano era
conhecido pela eficiência militar com que reunia fundos e os colocava a serviço
da causa revolucionária.
É evidente que hoje, nas condições específicas da luta de
classes no Brasil, sob o regime democrático-burguês e com vigilância total do
Estado, esse tipo de ação não está na ordem do dia. Seria suicídio político
promover expropriações armadas em um contexto onde o Partido ainda constrói sua
influência entre as massas. Mas a lição que devemos extrair da história não é a
forma tática, mas o espírito estratégico: a luta revolucionária exige que a
questão financeira seja tratada com a mesma seriedade que qualquer batalha de
ideias ou de armas.
Portanto, cabe ao Secretário de Finanças, em cada núcleo,
célula e comitê do Partido, planejar e executar uma política financeira
organizada, criativa e constante, com metas claras, calendário de arrecadações
e profunda ligação com o povo. Nenhuma atividade deve ser espontânea. Festas,
rifas, jantares, campanhas de contribuição, venda de camisetas, chaveiros,
bandeiras, canecas, livros, assinaturas do jornal e cotas de solidariedade
devem ser pensados com profissionalismo, propaganda ativa e senso de beleza e
unidade estética. Um Partido que trata mal seus próprios materiais de venda
está dizendo ao povo que não acredita na sua própria bandeira.
Mais ainda, é preciso profissionalizar a arrecadação.
Isso significa capacitar camaradas para lidar com logística, atendimento,
finanças digitais, plataformas de contribuição online (como vaquinhas, PIX
organizados, QR Codes nos materiais do Partido), gerenciamento de estoques de
produtos, prestação de contas clara e periódica. O Partido deve se adaptar às
ferramentas do século 21 — não para se vender, mas para resgatar, com meios
modernos, o princípio leninista de autossuficiência revolucionária.
Também é papel do Secretário de Finanças articular redes
de apoio fora do Partido. Os “amigos do Partido” — militantes de movimentos
sociais, artistas, sindicalistas, intelectuais e trabalhadores simpatizantes do
socialismo — devem ser convidados a contribuir regularmente com a construção da
nova sociedade. Não como “doadores”, mas como companheiros de caminho, como
sujeitos conscientes de que a luta de um Partido Comunista não é só do Partido,
mas da classe trabalhadora em sua totalidade. O apoio material dos amigos é uma
forma de compromisso político, e deve ser valorizado, incentivado e cultivado
com atenção e camaradagem.
É aqui que entra uma verdade filosófica profunda, que
atravessa toda a tradição revolucionária, de Epicuro a Hegel, de Marx a Lênin:
a liberdade concreta só se realiza quando está enraizada na matéria. Não basta
querer transformar o mundo — é preciso garantir os meios concretos para tal
transformação. A política sem base material degenera em retórica. A retórica
sem estrutura se desfaz no ar. Como dizia Goethe, “o que não produz, se
corrompe”. O Partido que não cuida de sua economia interna, de sua base de sustentação,
de sua autonomia financeira, se transforma, mais cedo ou mais tarde, em um
satélite de interesses alheios ou em um monumento à impotência.
Portanto, o Secretário de Finanças não é um “tesoureiro”,
nem um “funcionário arrecadador”. Ele é um dirigente político da sustentação
revolucionária. Seu trabalho não é menos nobre que o de um agitador de rua ou
de um organizador de massas. Pelo contrário: sem ele, não há panfleto, não há
cartaz, não há reunião, não há segurança, não há propaganda, não há Partido.
Ele é a expressão prática da máxima de que a revolução precisa de pão e aço. E
seu trabalho deve ser valorizado, politizado, acompanhado e fortalecido com
todas as nossas forças.
Assim como os bolcheviques ergueram tipografias no
subterrâneo, nós devemos construir os alicerces materiais do novo mundo nas
entranhas da velha ordem. E isso começa com disciplina, planejamento, espírito
coletivo e confiança política em nossos camaradas responsáveis pelas finanças
do Partido.
Modernização, continuidade e centralização
Se o Partido é, como nos ensinou Lênin em “Um Passo à Frente, Dois Passos Atrás” (1904), a “forma superior de organização da classe
operária”, então sua estrutura precisa evoluir com a luta de classes, com o
avanço da técnica e com a complexificação das tarefas históricas que se impõem.
Um Partido Comunista que pretende dirigir a transformação radical da sociedade
não pode contentar-se com formas organizativas rudimentares ou estruturas
improvisadas. O crescimento da militância, o acúmulo de experiências e o avanço
das contradições objetivas exigem uma renovação permanente dos métodos, das
formas e dos instrumentos do secretariado revolucionário.
Não se trata de “inovar” por fetiche tecnológico ou
adaptação liberal ao mundo burguês, mas de aplicar, com rigor
marxista-leninista, a máxima da análise concreta da situação concreta. O século
21 apresenta novas condições de luta: um capitalismo cada vez mais
informatizado, uma vigilância digital sem precedentes, uma juventude
fragmentada por múltiplas ideologias de despolitização, um proletariado
precarizado e, ao mesmo tempo, uma abundância de ferramentas de comunicação,
organização e mobilização que, se bem utilizadas, podem dar à vanguarda um
poder multiplicador jamais visto.
Isso significa que os secretários do Partido devem
aprofundar-se em suas tarefas com método, dedicação e abertura ao aprendizado
permanente. É preciso superar qualquer resquício de voluntarismo, improvisação
ou rotinas mecânicas herdadas de períodos anteriores. O trabalho de
organização, propaganda e finanças deve ser elevado a um novo patamar, que
combine a profundidade ideológica com a eficiência técnica, a tradição com a
criatividade, o centralismo com a flexibilidade tática. A direção
revolucionária não pode ser refém da repetição, mas também não pode dissolver
sua coerência política em nome do “novo”. A chave está na síntese: aquilo que
Hegel chamava de Aufhebung — a superação que conserva o essencial e nega
o inútil.
À medida que o Partido cresce, e especialmente quando
assume caráter de organização de massas, torna-se imprescindível automatizar,
sistematizar e descentralizar tarefas sem abrir mão da centralização política e
ideológica. A criação de bancos de dados organizados de militantes, o uso de
ferramentas seguras de comunicação interna, a construção de calendários
unificados, o acompanhamento sistemático de cotas, vendas, textos produzidos,
atividades realizadas — tudo isso deve ser feito com instrumentos técnicos
adequados, com acompanhamento constante e prestando contas não como uma
obrigação burocrática, mas como expressão de maturidade política e confiança
coletiva. Como dizia Friedrich Engels em 1875, “a liberdade não consiste na
ausência de organização, mas na organização consciente”.
As experiências do século 20 nos oferecem lições
valiosas. Na União Soviética, sob a direção de Stálin, o Partido desenvolveu um
sistema organizativo que combinava a formação política contínua com a avaliação
sistemática dos quadros, permitindo que os secretários nos sovietes, nas fábricas,
nos kolkhozes e nas cidades mantivessem o vínculo orgânico entre a base e o
Comitê Central. A Albânia socialista, sob a direção de Enver Hoxha, mesmo em
meio à escassez material e ao cerco imperialista, construiu uma estrutura
partidária sólida que colocava os secretários como pedagogos políticos
permanentes. No Vietnã, o Partido Comunista utilizou formas de descentralização
organizativa em zonas guerrilheiras e áreas urbanas ocupadas, mas sempre com um
sistema centralizado de diretrizes e formação contínua, inclusive em plena
guerra. E em Cuba, sob a direção de Fidel Castro, os Comitês de Defesa da
Revolução (CNR) operam até hoje como instrumentos de vigilância, solidariedade
e mobilização política, onde os responsáveis pela agitação e organização atuam
como extensões vivas do Partido em cada bairro, quadra, vila ou fazenda.
No Brasil, também há exemplos heroicos e discretos. O
trabalho do Partido Comunista, há décadas, tem sido exemplo de perseverança
clandestina, de disciplina organizativa, e de formação de quadros
comprometidos. Em diversas regiões, secretários de núcleo, de coordenação, de
células e comitês têm desenvolvido formas criativas de manter a chama
revolucionária acesa mesmo diante da repressão, da escassez de recursos e da
dispersão ideológica. Há núcleos que construíram metodologias de acompanhamento
pessoal dos militantes, coordenações que sistematizaram atividades regulares de
panfletagem, escolas políticas que mantêm calendário e materiais próprios,
experiências de bancas e festas que geram renda com dignidade e consciência.
Essas experiências devem ser compartilhadas, sistematizadas, estudadas e
replicadas com as devidas adaptações locais, como parte de um esforço coletivo
de construção do poder revolucionário.
Mas para isso, é indispensável investir de modo
permanente na formação dos quadros partidários, e em especial dos secretários.
É urgente construir — e fortalecer — a Escola do Partido, como espaço político,
teórico, organizativo e prático. Essa escola não deve ser apenas um curso
introdutório, mas um processo contínuo de educação política, que forme,
atualize e renove nossos quadros. A formação deve incluir teoria
marxista-leninista, história das revoluções, análise política da conjuntura,
métodos organizativos, propaganda e agitação, segurança partidária, economia
política, ciência e tecnologia, cultura popular e arte revolucionária. A cada
nova leva de secretários formados, o Partido se fortalece. A cada camarada que
aprofunda sua consciência e capacidade organizativa, a revolução se aproxima.
Como disse José Martí, “ser culto é a única forma de ser livre”.
Essa formação precisa ser combinada com instrumentos
regulares de avaliação política, crítica e autocrítica. Os secretários devem
prestar contas, sim, mas não apenas num sentido técnico. Devem relatar como
desenvolveram a consciência dos militantes, quais avanços houve na coesão
interna, quais desafios surgiram, quais erros foram cometidos e como foram
corrigidos. A crítica e a autocrítica não são castigos — são formas superiores
de aprendizado coletivo, o método leninista por excelência de correção dos rumos.
“A única maneira de não errar é nada fazer”, dizia Stálin. E como nossa tarefa
é histórica, e não escolástica, errar faz parte da caminhada. Mas errar da
mesma forma duas vezes — isso sim é imperdoável.
O Partido no século 21 precisa ser como o aço temperado:
flexível, resistente, afiado, centralizado e forjado no calor da luta e do
pensamento crítico. Seus secretários são os operários dessa fundição. E como
operários conscientes, devem dominar tanto as ferramentas antigas quanto as
novas; devem conhecer a filosofia dialética e a prática operária, o panfleto e
a criptografia, o mimeógrafo e a rede digital, o microfone da tribuna e o
microfone do podcast, a tribuna popular e o código de conduta organizativa.
Devem ser, enfim, sínteses vivas da tradição e da inovação, do exemplo e da
ciência, da humildade e da direção.
Por isso, modernizar a estrutura partidária não é abrir
mão de princípios — é aplicá-los com inteligência histórica. É reforçar o
Partido como sujeito coletivo da revolução e preparar-se para o momento em que,
como um raio, a insurreição e a organização coincidam. Até lá, cada passo de
formação, cada nova ferramenta, cada calendário de tarefas e cada militante bem
formado é uma peça a mais na engrenagem que há de mover a história. E quando
isso acontecer, que os secretários do Partido possam olhar nos olhos da classe
operária e dizer, com orgulho: estivemos aqui o tempo todo, preparando o chão
por onde passará a revolução.
Segunda Parte: Saltos qualitativos necessários
Plano Nacional de Organização — pela construção dos Birôs do Partido
Para que
um Partido Comunista seja de fato a vanguarda da classe operária e não apenas
um aglomerado de boas intenções revolucionárias, ele precisa se dotar de uma
estrutura nacional coordenada, com mecanismos centralizados de direção,
acompanhamento, formação e mobilização. Com o crescimento da militância, o
aumento das responsabilidades políticas e a intensificação das tarefas de
agitação e organização, torna-se indispensável a construção de um Plano
Nacional de Organização do Partido Comunista, com metas operacionais, políticas
e ideológicas definidas nos níveis nacional, estadual, regional, municipal e
local, sob controle direto do Secretariado do Comitê Central.
Essa
tarefa exige a criação e desenvolvimento de três instâncias orgânicas
fundamentais: o Birô Nacional de Organização, o Birô Nacional de Agitação e
Propaganda, e o Birô Nacional de Finanças. Esses Birôs, compostos por quadros
de confiança e alta formação política, devem funcionar como centros dirigentes
e operacionais para planejar, executar, acompanhar e nacionalizar as principais
iniciativas do Partido, dotando-o de coesão estratégica e operacional.
O Birô
Nacional de Organização deve coordenar a implementação dos Calendários
Nacionais de Tarefas, garantindo que os núcleos, células e comitês em todo o
país estejam atuando em sintonia política e temporal. Deve organizar a Escola
Nacional de Formação, responsável por cursos regulares, estágios, produção de
materiais didáticos, e formação contínua de novos quadros e secretários em
todas as regiões. Também cabe a este Birô realizar sensos internos regulares
sobre a composição da militância, o estado dos núcleos e as demandas
organizativas, transformando esses dados em orientações práticas. A
nacionalização das iniciativas — por exemplo, campanhas de massas, campanhas de
recrutamento, mutirões de estudos e ações de denúncia — também deve ser
coordenada por este Birô, garantindo impacto político simultâneo e visível do
Partido em nível nacional.
Já o Birô
Nacional de Agitação e Propaganda deve ser o cérebro criador da presença
pública do Partido. Ele é responsável pela produção do jornal nacional (A Verdade), coordenando pautas, impressões, tiragens,
distribuição, formação de redatores e gráficos, e integração com as lutas
locais. Também deve organizar a revista teórica do Partido, espaço de formação
aprofundada, polêmica revolucionária e sistematização da linha política em alto
nível. A coordenação da editora nacional (Edições
Manoel Lisboa) também
recai sobre este Birô, promovendo lançamentos, reedições, traduções e
publicações de interesse do proletariado. Deve ainda fundar e manter uma
Fundação Social-Científica, centro de pesquisas e estudos voltado para o
desenvolvimento de uma visão científica da realidade brasileira, da classe
trabalhadora, da juventude, da tecnologia e da cultura, a serviço da revolução
socialista. Essa fundação poderá oferecer cursos, produzir relatórios, promover
seminários e formar intelectuais orgânicos do Partido, enraizados nas massas.
O Birô
Nacional de Finanças, por sua vez, é o guardião da autonomia material do
Partido. Deve coordenar uma Loja nacional e suas operações locais
produtivas subordinadas, que produza, venda e entregue livros, camisetas,
bandeiras, posters, cadernos, bottons etc. e produtos partidários com
segurança, organização e regularidade, garantindo arrecadação permanente e
divulgação. Também deve estruturar estamparias nacionais e locais, que
centralizem a produção de materiais, barateiem os custos e profissionalizem a
aparência e distribuição dos produtos do Partido e dos movimentos de massas
aliados. Além disso, este Birô deve sistematizar campanhas de doações, financiamento
coletivo e relações com os “Amigos do Partido”, organizando formas criativas e
militantes de contribuição — incluindo eventos online e presenciais, planos de
contribuição recorrente, campanhas temáticas e relatórios transparentes de
arrecadação e gastos.
Cada um
desses Birôs deve operar com funcionários e militantes destacados
exclusivamente para essa tarefa, acompanhando metas, processando dados,
garantindo segurança, corrigindo erros e mobilizando quadros em tempo integral
para tarefas operacionais prioritárias. Para isso, o Secretariado do Comitê
Central deve possuir uma base de dados atualizada sobre quadros disponíveis,
com seus perfis, formações, regiões e áreas de atuação, permitindo que sejam
mobilizados rapidamente conforme a necessidade da luta de classes. A agilidade
na mobilização — como demonstraram os bolcheviques — é um critério essencial da
capacidade dirigente de um Partido.
Todos os
Birôs devem manter relatórios regulares de produtividade, avaliando metas
atingidas, revisando métodos, corrigindo desvios e propondo novas diretrizes ao
Secretariado. Essa dinâmica reforça a disciplina consciente, o planejamento
estratégico e o espírito coletivo, valores que devem ser a alma da organização
partidária.
Tais
estruturas não são “luxos organizativos” — são condições técnicas e políticas
para a construção do Partido revolucionário que a classe trabalhadora
brasileira precisa e merece. Sem uma direção nacional sistemática, os esforços
regionais dispersam-se, as experiências não se somam, os acúmulos se perdem e o
Partido enfraquece. Com os Birôs, a luta de um núcleo no interior do Maranhão
pode se conectar com a formação teórica em Porto Alegre, a agitação na
periferia de Recife pode ser potencializada por uma campanha nacional em São
Paulo, e a venda de livros em Belém pode sustentar uma brigada de propaganda no
ABC paulista. A revolução socialista exige escala, exige sistema, exige
centralismo dinâmico.
Uma
organização revolucionária não se improvisa. E essa organização só será
revolucionária se construir, desde já, as bases materiais e operacionais do
poder socialista, com uma direção nacional operando como cérebro coletivo da
classe trabalhadora. Os Birôs, portanto, não são estruturas administrativas:
são expressões práticas do Partido Comunista enquanto sujeito histórico da
transformação radical da sociedade.
Se
queremos de fato preparar o assalto ao céu, não basta indignação, nem mesmo
disciplina isolada. É preciso organização planificada, técnica, política e
revolucionária — e os Birôs Centrais devem ser os centros nervosos dessa nova
etapa da luta comunista em nosso país.
Por um salto qualitativo na organização partidária
Ao longo
da história do movimento comunista — e em especial na trajetória de construção
dos partidos revolucionários sob condições de semiclandestinidade, perseguição
ou crescimento orgânico gradual — as direções nacionais muitas vezes recorreram
a formas organizativas provisórias e flexíveis para dar conta das tarefas mais
imediatas da luta de classes. Assim, surgiram e seguem existindo estruturas
como Comissões Nacionais, Coordenações Nacionais e Comitês Nacionais — órgãos
geralmente compostos por camaradas experientes, designados para planejar,
executar ou acompanhar tarefas em campos específicos da ação partidária.
Essas
estruturas têm cumprido, historicamente, um papel importante para dar resposta
a situações emergenciais, campanhas específicas, ou lacunas de atuação em áreas
diversas, como comunicação, finanças, formação ou mobilização de base. No
entanto, à medida que o Partido se amplia, que os desafios se tornam mais
complexos e contínuos, e que o acúmulo organizativo exige maior regularidade,
profissionalismo e estabilidade, torna-se evidente a limitação estrutural e
política das Comissões e Coordenações como formas organizativas permanentes.
O
principal limite dessas estruturas está em seu caráter transitório, não
permanente, muitas vezes difuso quanto à linha de comando, composição e rotina
operacional. Coordenações podem ser descontinuadas por esgotamento conjuntural;
Comissões podem carecer de autoridade prática; Comitês Nacionais podem ser
sobrecarregados por tarefas demais e clareza política de menos. Em muitos
casos, essas estruturas funcionam quase como “extensões voluntaristas” do
Comitê Central, e não como instâncias operacionais plenamente integradas à
estrutura estável do Partido, com metas, relatórios e mecanismos de controle
sistemático.
Por
isso, propomos que, a partir do amadurecimento político e organizativo do
Partido Comunista, avancemos na criação e consolidação dos Birôs Centrais como
órgãos superiores, permanentes, especializados e estrategicamente subordinados
ao Secretariado do Comitê Central, e não mais apenas estruturas consultivas ou
de apoio. Os Birôs Nacional de Organização, Agitação e Propaganda, e Finanças
devem funcionar como núcleos dirigentes operacionais, com corpo próprio, metas
definidas, estrutura logística, quadros mobilizáveis e capacidade técnica
permanente.
A
diferença essencial entre os Birôs e as comissões ou coordenações reside em
três aspectos principais: permanência, estrutura e função dirigente.
Primeiro,
os Birôs não são criados para uma tarefa específica ou uma conjuntura
determinada, mas para garantir a continuidade organizativa do Partido no tempo
— são, portanto, órgãos permanentes, que acumulam experiência, profissionalizam
tarefas, criam métodos e garantem que o Partido não recomece do zero a cada
nova campanha.
Segundo,
os Birôs não operam de forma informal ou dispersa: possuem estrutura orgânica
interna, com funcionamento sistemático, quadros destacados, cronogramas,
métodos próprios de planejamento, mecanismos de avaliação e capacidade de
mobilização direta. O Birô não apenas orienta — ele executa, acompanha,
distribui, avalia e responde ao Secretariado do Comitê Central com eficácia e
responsabilidade política.
Terceiro,
sua função não é apenas auxiliar, mas dirigir diretamente uma dimensão
estratégica do Partido: a organização, a propaganda e as finanças não são áreas
“laterais” ou “logísticas” — são trincheiras centrais da guerra de classes. Por
isso, os Birôs devem gozar de autoridade orgânica para mobilizar quadros,
propor diretrizes, descentralizar tarefas e assegurar a integração das diversas
frentes sob um mesmo plano nacional.
Ao
institucionalizar os Birôs como órgãos superiores do Partido, avançamos na
construção de um Partido Comunista centralizado, cientificamente planejado e
com capacidade de ação em todos os níveis do território nacional. Abandonamos o
improviso e abraçamos a profissionalização revolucionária. Damos um passo além
da tática, rumo à estrutura estratégica necessária para preparar, dirigir e
vencer a luta socialista.
Uma
pequena máquina, mas bem lubrificada, bem afinada e sabiamente dirigida, pode
operar maravilhas. Os Birôs devem ser essa máquina: afinada, dirigente e
disciplinada, a serviço do futuro da classe operária.
É hora do salto qualitativo nas finanças do Partido Comunista
Para um
Partido Comunista que se pretende nacional, dirigente e profissionalizado, não
basta proclamar a independência política — é preciso construí-la materialmente,
inclusive naquilo que os oportunistas consideram “secundário”: a produção,
comercialização e distribuição de seus próprios materiais. A edificação de uma
Loja Nacional (Física e Online), dirigida pelo Birô Nacional de Finanças,
é uma dessas tarefas estratégicas, e não pode ser improvisada como um bazar
episódico, nem tratada como um negócio paralelo. Ela deve operar como um braço
logístico, simbólico e econômico da revolução em marcha, sustentado por
quadros, ciência e método.
Sua
função, antes de tudo, é produzir recursos materiais para o Partido — mas não
só isso. A Loja deve também cumprir um papel de agitação, propaganda, formação
estética e disciplinamento político, oferecendo produtos que expressem os
valores do socialismo científico, fortaleçam a identidade partidária, divulguem
a teoria revolucionária e conectem militantes e simpatizantes a uma cultura
política coerente com o futuro que queremos construir. Uma camiseta com a
imagem de Manoel Lisboa, um pôster com uma citação de Stálin, uma caneca com o
logotipo do Partido, um livreto de introdução ao marxismo — tudo isso é forma
de luta e forma de organização.
A
estrutura dessa Loja precisa operar com rigor organizativo, fluxo estável,
acompanhamento técnico e divisão planejada do trabalho, como uma engrenagem
firme — uma verdadeira engrenagem com sincronismo revolucionário, onde cada
peça cumpre sua função com disciplina e eficiência.
Para
isso, devemos construir quatro núcleos interdependentes, todos sob o controle
político do Birô Nacional de Finanças:
1.
Núcleos de Produção: responsável por organizar a fabricação direta dos materiais —
camisetas, livros, jornais, adesivos, faixas, cartazes, chaveiros, bandeiras
etc. Isso exige mobilização de estamparias próprias (locais e nacional),
relação com gráficas confiáveis, controle de insumos, formação técnica de
quadros e padronização de qualidade. Devem ser estabelecidos ciclos de produção
trimestrais ou mensais, com metas quantitativas e qualitativas. Cada núcleo
estadual deve estar ligado a esse centro, com autonomia operacional, mas
obediência à linha política e visual nacional.
2.
Núcleos de Logística e Distribuição: encarregado de armazenar, embalar, despachar e rastrear os produtos
vendidos. É preciso organizar estoques regionais (minicentros logísticos),
definir formas de entrega (parceiros, correios, entrega solidária entre
militantes) e criar um sistema de rastreamento interno. A logística deve ter um
calendário rotativo de envios, controle de perdas, reembalagens e uma base de
dados de compradores — conectando a Loja à militância e ao público
simpatizante.
3.
Núcleos de Tecnologia e Dados: o cérebro técnico da operação. Esse núcleo deve desenvolver e manter o
sistema online da Loja — site, catálogo, meios de pagamento (PIX, boleto,
crédito etc.), canal de atendimento, área de apoio, banco de dados de clientes
e relatórios automáticos de vendas. Aqui, devemos investir em engenharia de
dados e automação política, utilizando linguagens como Python, SQL e R para
organizar campanhas regionais, cruzar dados de vendas por estado, criar perfis
de compradores recorrentes, prever estoques, planejar lançamentos e integrar o
sistema a outras plataformas do Partido (jornal, editora, Escola Nacional de
Formação). É possível, por exemplo, gerar relatórios automáticos que cruzem o
número de leitores do jornal com os compradores da Loja, e então orientar
campanhas específicas para fortalecer a fidelização política desses camaradas.
4.
Núcleos de Comunicação e Mobilização: responsável por dar vida política à Loja.
Não basta vender produtos — é preciso politizá-los. Cada lançamento deve ser
acompanhado de campanhas organizadas nas redes sociais, com vídeos, textos,
arte gráfica, depoimentos de militantes, conexões com datas históricas e ações
simultâneas em diversas regiões. A Loja não é uma empresa — é uma máquina de
difusão da cultura revolucionária, e seu conteúdo precisa ser tratado com
estética, pedagogia e força simbólica. Esse núcleo também será responsável por
mobilizar os “Amigos do Partido” para compra recorrente, patrocínio de ações
específicas e cofinanciamento de produções (como edições especiais de livros,
faixas para manifestações etc.).
Além desses núcleos operacionais, a Loja deve funcionar
sob uma estrutura de controle mínimo padronizado, utilizando planilhas de
custos, cálculo de ponto de equilíbrio, análises de margem, levantamento de
necessidades de reposição e controle semanal de fluxo de caixa e relatórios
mensais. Todos os dados devem estar acessíveis ao Birô Nacional de Finanças
que se comunica diretamente ao Comitê Central que, por sua vez, direciona,
manobra e centraliza localmente os Comitês Estaduais com base nesses informes,
para garantir a transparência e a confiança entre os camaradas. A direção deve
acompanhar e exigir prestação de contas, metas de produtividade e propostas de
aprimoramento contínuo.
Mais do que um canal de vendas, a loja nacional deve
funcionar como um laboratório de inteligência coletiva revolucionária. Ao
reunir dados, talentos, ferramentas, quadros técnicos e militantes criadores,
ela pode se tornar uma escola prática de administração comunista da produção,
distribuição e cultura, um microcosmo do que será o futuro socialista. Cada
campanha, cada faixa vendida, cada pacote enviado é uma lição de organização
proletária. Devemos estimular, dentro dela, o espírito de inovação, de sistematização,
de compartilhamento de experiências exitosas — por meio de encontros regulares
entre os responsáveis regionais, tutorias, comissões técnicas e redes de apoio
interno.
A Loja deve também integrar-se aos sistemas de campanhas
locais, permitindo que núcleos estaduais e municipais proponham coleções
próprias (com camisetas, adesivos ou cadernos de luta locais), desde que dentro
da linha estética e política geral do Partido. Isso cria sentimento de
pertencimento, descentraliza a ação e fortalece a identidade comunista em cada
canto do país. É a aplicação prática da tese leninista: centralismo no plano
político, iniciativa no plano tático.
Com tudo isso, superaremos definitivamente a lógica de
improviso, a militância artesanal e a dependência de eventos pontuais para
financiar a ação comunista. A Loja será uma usina revolucionária de produção
ideológica, econômica e pedagógica. Como disse Marx no “18 de Brumário de Luís Bonaparte” (1852), “os homens fazem sua própria história, mas não
a fazem como querem, nem nas circunstâncias que escolheram”. Cabe a nós,
portanto, criar as condições para fazê-la com mais consciência, mais método e
mais poder popular.
O salto qualitativo da Agitação e Propaganda — da gráfica à hegemonia revolucionária
O Partido que deseja dirigir a revolução não pode se
contentar em ser um eco débil no ruído da sociedade burguesa. Ele precisa ser,
no sentido leninista-stalinista mais pleno, um construtor de hegemonia. Isso
significa mais do que disputar ideias — significa construir meios materiais
permanentes e centralizados de difusão da linha política do proletariado, que
atuem de forma organizada, disciplinada e articulada com a conjuntura. A
agitação e propaganda, portanto, não é uma tarefa de apoio — é o coração
político da ligação do Partido com as massas, o ponto de fusão entre teoria e
prática, entre direção e base, entre vanguarda e povo.
A história dos grandes partidos comunistas ensina que não
há revolução sem imprensa, gráfica, jornalismo e cultura sob controle do
Partido. A experiência dos bolcheviques com o Iskra (A Centelha), das
gráficas clandestinas de Stálin, dos albaneses com o Zëri i Popullit (A
Voz do Povo), dos vietnamitas com as impressoras portáteis na selva, e hoje de
partidos como o Emek Partisi (Partido do Trabalho) da Turquia, com seu jornal
diário Evrensel Gazetesi (Universal), são provas concretas de que a
comunicação não é um apêndice da política: é uma de suas formas mais
superiores.
Dentro do Partido Comunista, há um debate cada vez
mais maduro sobre a centralização e o controle integral de todo o processo
produtivo da Agitação e Propaganda: desde o conteúdo, as imagens, a
diagramação, até a impressão, a logística e a entrega do jornal A Verdade, da
futura revista teórica e dos materiais gráficos do Partido. Esse debate precisa
dar um salto — e o salto exige infraestrutura centralizada, gestão operativa e
direção política clara. É chegada a hora de construir uma gráfica nacional do
Partido.
Essa gráfica, dirigida pelo Birô Nacional de Agitação
e Propaganda, subordinado ao Comitê Central, deve ser capaz de produzir em
escala nacional o jornal A Verdade, com regularidade e qualidade. O objetivo
deve ser a superação da periodicidade quinzenal e o avanço rumo à publicação
diária, de segunda a sexta, com distribuição impressa e digital. Para isso,
será necessário mobilizar quadros gráficos, redatores, revisores, diagramadores
e operadores de máquinas — todos organizados segundo critérios de disciplina,
produtividade e comprometimento político com a linha partidária. O jornal deve
se tornar o órgão central da revolução, lido em todas as periferias, fábricas,
universidades, feiras e escolas.
Além da edição principal, deve-se organizar suplementos
internos, como:
– Um caderno quinzenal da juventude, produzido com e para
a juventude popular e revolucionária, com linguagem própria, estética combativa
e foco formativo.
– Um suplemento mensal das mulheres, que aprofunde as
lutas femininas sob perspectiva marxista-leninista, divulgue as iniciativas das
camaradas, resgate as heroínas da história proletária e contribua para a
construção de uma verdadeira vanguarda do movimento de mulheres.
Mas o salto qualitativo exige mais. Precisamos lançar,
enfim, uma revista teórica, científica, política e cultural do Partido, de
publicação mensal, que seja rígida, disciplinada, formadora e orientadora, uma
revista que oriente a ação nacional do Partido, registre sua intervenção na
conjuntura, aprofunde as elaborações teóricas, combata desvios, atualize o
marxismo-leninismo às condições brasileiras e internacionalistas. Essa revista
será a voz pública da vida teórica do Partido e deve expressar a elevação
política do Comitê Central e sua capacidade de centralização política e
ideológica. Cada artigo, cada citação, cada editorial deve ser uma arma — e
cada edição, um reflexo das contradições em movimento no país.
A gráfica nacional deve funcionar em interdependência
dialética com a loja nacional, alimentando seu estoque com materiais próprios:
cadernos, livros, cartazes, faixas, folhetos, calendários, pôsteres, panfletos,
adesivos. Essa integração garante custo reduzido, qualidade uniforme,
padronização política e circulação ampla. O que hoje é feito de maneira
artesanal — dependendo de boas vontades isoladas, orçamentos improvisados e
tiragens irregulares — deve ser convertido em um fluxo permanente de produção
ideológica e material, controlado centralmente, mas articulado com as bases do
Partido em cada canto do país.
A gráfica também deve servir como espaço de formação
técnica e política, com camaradas aprendendo a operar máquinas, diagramar,
editar, compor materiais — transformando o processo de produção gráfica em uma
escola de organização revolucionária. Não apenas “produzir”, mas organizar a
produção como forma de disciplinamento coletivo e formação de quadros técnicos
comprometidos com o poder popular.
Ao lado da gráfica nacional, precisamos construir um estúdio
nacional de agitação e propaganda audiovisual. Um centro técnico de produção de
conteúdos visuais, sonoros e formativos: vídeos, podcasts, aulas da Escola
Nacional de Formação, documentários populares, programas semanais, materiais de
denúncia e agitação. Desse estúdio sairão também as campanhas eleitorais da
Unidade Popular (UP), as imagens dos nossos candidatos, as entrevistas com os
trabalhadores, os vídeos de formação tática e política. O estúdio deve abrigar
equipamentos de qualidade, iluminação, microfones, câmeras, computadores,
softwares e uma equipe permanente e profissional, capaz de transformar a
linguagem audiovisual numa ferramenta de agitação política contínua e massiva.
Esse estúdio se articulará com uma rede nacional de
fotógrafos, videomakers e agitadores visuais, distribuídos entre núcleos
regionais, que atuarão com orientação direta do Birô, enviando imagens,
cobrindo lutas, registrando eventos, produzindo conteúdos locais e alimentando
um banco de imagens revolucionário — um acervo sistemático da luta do Partido e
das massas trabalhadoras, com rigor, beleza e historicidade. Cada imagem será
parte da nossa memória e da nossa ofensiva ideológica.
Toda grande transformação revolucionária nasce de
contradições concretas. No Brasil, a crescente efervescência política, o
refluxo das organizações tradicionais e o impulso espontâneo de criação
cultural e ideológica entre setores combativos da juventude e da classe
trabalhadora produziram, nos últimos anos, experiências valiosas na esfera da
comunicação socialista. Estas iniciativas, embora dispersas, expressam a
necessidade objetiva de um salto organizativo e ideológico: de um lado, revelam
que há quadros e talentos disponíveis para a construção de um sistema de
comunicação popular e revolucionário; de outro, demonstram que sem direção
partidária, essas experiências tendem a se esgotar de alguma forma.
Dentro da vida concreta da militância comunista
brasileira, algumas iniciativas já indicam caminhos para esse salto. A “Redes
JAV”, surgida em São Paulo, é um exemplo notável de organização disciplinada de
produtores locais — jornalistas, fotógrafos, redatores e designers — que
passaram a colaborar com a Redação Nacional do jornal A Verdade, oferecendo
formação técnica a militantes de base e canalizando a produção de conteúdo
regional de forma alinhada com a linha nacional. Cursos de edição de vídeo,
redação jornalística e diagramação têm servido como ferramentas práticas de
politização e formação técnica coletiva, mostrando como o jornal pode ser ao
mesmo tempo produto, escola e organização.
O Coletivo Soberana, por sua vez, apresenta um modelo de
produção permanente de conteúdo revolucionário para a internet, operando em
aliança orgânica com a Unidade Popular pelo Socialismo (UP). Sua atuação tem
demonstrado a possibilidade técnica, estética e política de produzir vídeos,
quadros, campanhas e transmissões ao vivo com regularidade, qualidade e impacto
real. A criação de seu estúdio próprio de gravação, subordinado à sua linha
política, é a prova de que uma estrutura audiovisual orgânica e disciplinada é
possível — e urgente — para a construção partidária.
O Estúdio Reds, que realizou o documentário “O
Que Fazer?” (2025), produzido sob uma concepção
estética e militante, mostra que é possível conectar a linguagem
cinematográfica com o debate revolucionário de maneira pedagógica, provocadora
e bem executada, atingindo milhares de pessoas com um material de impacto. Já o
Instituto Conhecimento Liberta (ICL), embora de base progressista e não
marxista-leninista, demonstra a força de uma estrutura formativa e jornalística
de alcance nacional, com múltiplos programas diários, videocasts, séries
documentais e cursos. Ele provê a imagem de um jornalismo à esquerda com
capacidade de massificação, ainda que careça de centralidade estratégica.
Todas essas experiências são dignas de reconhecimento,
respeito e valorização. Elas fazem parte do acúmulo prático e simbólico
necessário para a reorganização da esquerda brasileira. Elas demonstram que há
sede de formação, vontade de comunicar, criatividade em estado latente. Mas
também deixam claro que, enquanto essas experiências permanecerem fragmentadas,
limitadas por territorialidade, por espontaneísmo ou pela ausência de direção
comunista, elas não serão capazes de responder à exigência estratégica da luta
de classes no Brasil atual.
É preciso avançar. E avançar significa ousadia. As
experiências devem ser incorporadas, não como apêndices ou parceiros eventuais,
mas como expressões embrionárias da tarefa maior do Partido Comunista:
construir um sistema nacional de comunicação, propaganda e formação
revolucionária sob direção única, disciplinada e estratégica, como parte
orgânica do plano nacional do Partido para conquistar o poder.
O Partido deve ser capaz de absorver esses talentos,
sistematizar suas experiências, nacionalizar seus métodos e ampliá-los com
organização superior. Isso só será possível se houver uma concepção clara de
que a comunicação é parte da luta pelo poder de Estado. Não se trata de “fortalecer
projetos alternativos de esquerda”, mas de estabelecer a hegemonia ideológica,
simbólica e cultural do proletariado brasileiro. Isso exige unidade
estratégica, direção ideológica e aparato técnico permanente.
O jornal A Verdade deve deixar de ser apenas um produto
editorial quinzenal, para se tornar um centro vivo de organização política e
cultural, em torno do qual giram estúdios, gráficas, editoras, redes de
militantes da imagem, da palavra, do som e da estética. A revista teórica do
Partido deve ser o ponto culminante da reflexão comunista contemporânea,
articulando teoria e prática com centralidade, orientação e profundidade.
A criação de uma gráfica nacional, um estúdio audiovisual
completo, uma rede nacional de formadores técnicos e culturais e a ampliação
disciplinada dos materiais de propaganda são tarefas imediatas. A gráfica deve
alimentar a Loja; o estúdio deve alimentar a Escola Nacional de Formação; o
jornal deve orientar todas essas instâncias. Cada fio desse tecido deve estar
subordinado ao órgão central da agitação e propaganda, que, por sua vez,
expressa a linha do Comitê Central do Partido.
Assim, poderemos enfim alcançar o objetivo de Lênin:
ligar o Partido às massas por uma cadeia de fios invisíveis — jornais, vídeos,
aulas, panfletos, transmissões, músicas, imagens, palavras de ordens, cartazes.
Uma rede viva de comunicação proletária, operada por quadros conscientes,
dirigida por uma estratégia clara, em função da grande tarefa histórica da
nossa época: a superação do capitalismo e a construção do socialismo no Brasil.
A hegemonia não virá por espontaneidade. Ela deve ser
organizada. E para organizá-la, é preciso que o Partido tome para si a tarefa
de construir, com método, disciplina e convicção, a máquina viva da comunicação
comunista.
Mas essa estrutura ainda é o mínimo — no futuro, o
Partido deve estar preparado para assumir plenamente a produção de veículos de
comunicação de massa: rádios populares, TVs, selos editoriais, canais
audiovisuais profissionais, podcast de rede nacional. Essa cadeia de comando
garante a coerência política, impede a fragmentação ideológica e constrói a
hegemonia cultural da classe operária sobre a sociedade.
Um Partido Comunista sério não “atua na comunicação” —
ele é um sistema de comunicação. Ele se conecta com as massas por uma cadeia
invisível de fios ideológicos, simbólicos, visuais, afetivos e práticos. Cada
jornal distribuído, cada vídeo compartilhado, cada cartaz colado, cada podcast
ouvido, cada aula assistida — tudo isso é parte integral e necessária do
acúmulo para o poder popular em forma de discurso, imagem e prática pedagógica.
Construir a gráfica e o estúdio é o passo necessário para
preparar essa hegemonia através de aparelhos claros do Partido para a Agitação
e Propaganda. Não se trata de um luxo — é o mínimo exigido para dirigir uma
revolução.
Porque o comunismo não se faz apenas com armas e
discursos. Se faz também com máquinas gráficas, microfones, arquivos,
servidores, imagens e ideias. E, sobretudo, com uma vanguarda que saiba que
toda forma de comunicação é, em última instância, forma de poder.
Terceira Parte: Conclusão política
Quadros adormecidos, potencial desperdiçado
Nenhuma revolução fracassa por falta de talento — ela
fracassa, muitas vezes, por desperdício de talento, por má alocação de força
viva, por subutilização da inteligência e da capacidade política e técnica de
seus próprios quadros. Dentro do Partido Comunista, já existe um exército
silencioso de militantes altamente capacitados — camaradas com conhecimento em
administração, tecnologia, logística, produção gráfica, pedagogia, economia,
programação, estatística, produção audiovisual, engenharia de dados, arte,
design, trabalho comunitário, organização do trabalho, cultura popular e
ciência. Mas quantos deles estão de fato sendo utilizados em tarefas que
correspondam às suas capacidades? Quantos estão sendo desafiados e
desenvolvidos? Quantos estão crescendo, e quantos estão sendo sufocados pela
rotina?
Essa realidade exige uma crítica profunda e consequente.
É necessário reconhecer que ainda persiste dentro do Partido uma tendência
artesanal e rotineira, que, em nome da “multifuncionalidade militante”, termina
por dissolver as especializações em um mar de tarefas urgentes e improvisadas,
muitas vezes desconectadas de qualquer plano estratégico. Camaradas com vasto
domínio técnico acabam presos à triagem de materiais, à gestão desordenada de
tarefas locais, ao improviso constante — enquanto seus potenciais para a
revolução permanecem adormecidos, drenados, subutilizados, quando não
desmoralizados. Ao invés de elevar, muitas vezes rebaixamos nossos próprios
quadros.
É necessário romper com esse ciclo de improviso,
dispersão e mediocridade organizativa. Superar a lógica espontaneísta e
desorganizada de “quem estiver disponível faz” e passar, com rigor comunista, à
lógica revolucionária de “cada quadro no lugar certo, sob planejamento
estratégico, acompanhamento político e formação contínua”. Isso não significa
cair na rigidez mecanicista ou sufocar a flexibilidade operativa do Partido —
pelo contrário: significa reconhecer que a revolução exige organização lógica
(dialética) das forças humanas disponíveis, exige ciência do trabalho político,
e exige respeito integral aos talentos que o Partido forma com suor e
abnegação. Dar esse passo é realizar um salto qualitativo na vida interior do
Partido, na forma como tratamos nossos quadros, como planejamos suas tarefas,
como os educamos, desafiamos e desenvolvemos sob a bandeira do socialismo
científico.
A subutilização de quadros é, em última instância, um
desrespeito à máxima de Stálin: “os quadros decidem tudo”. Se decidem tudo,
então devem ser tratados como o patrimônio vivo e insubstituível da revolução —
não como engrenagens descartáveis. Um camarada com domínio em programação,
redes de dados ou engenharia de software não pode ser tratado como “militante
genérico” — ele deve ser integrado aos núcleos técnicos, mobilizado para
desenvolver sistemas próprios do Partido, segurança digital, automação de tarefas,
plataformas de formação e comunicação. Uma camarada com domínio editorial e
sensibilidade literária não pode ser relegada à revisão de panfletos — ela deve
ser integrada ao núcleo nacional de publicações, receber formação gráfica,
atuar na construção teórica e estética do jornal. Um jovem artista popular, se
bem orientado, pode transformar-se num agitador visual da revolução — desde que
não se lhe imponha a repetição mecânica de tarefas, mas sim a criação dirigida,
politizada e coletivamente organizada.
É aqui que devemos nos lembrar da fórmula mais elevada do
comunismo, proclamada por Marx em “Crítica ao Programa de Gotha” (1875): “De
cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”.
Essa máxima não é apenas um ideal para o futuro distante
— ela deve começar a tomar forma no interior do Partido Comunista, hoje. Porque
o Partido é, já agora, a forma embrionária da nova sociedade, a escola da nova
humanidade. Aplicar essa máxima no trabalho organizativo significa que devemos
conhecer as capacidades reais de cada militante, e prover, como organização, os
meios políticos, técnicos e humanos para que essas capacidades se desenvolvam
plenamente — não só no plano material, mas também espiritual, intelectual,
emocional e cultural. O Partido deve ser o espaço onde os indivíduos se
superam, não onde se consomem.
Por isso, é urgente que o Partido construa um mapeamento
sistemático de seus quadros, com uma base de dados que contemple suas
formações, aptidões técnicas, experiências profissionais, inclinações
políticas, tempo disponível e trajetória militante. Esse levantamento — feito
sob responsabilidade do Secretariado do Comitê Central e dos Birôs — deve ser
atualizado regularmente, utilizado de forma estratégica e integrado ao Plano
Nacional de Organização. Nenhum militante deve ser desperdiçado. Nenhuma
habilidade deve ser esquecida. Nenhum talento deve apodrecer por falta de
espaço político. Um Partido verdadeiramente revolucionário não tolera a estagnação
de seus filhos — ele os eleva, os arma e os transforma em construtores
conscientes do mundo novo.
A superação da lógica artesanal não é uma negação da
abnegação voluntária — é a sua elevação à altura do nosso tempo. A revolução
exige hoje não apenas sacrifício, mas organização científica do sacrifício, uma
gestão comunista do tempo, da energia, do conhecimento e da criatividade
militante. Isso também é comunismo: a organização dialética e coletiva das
forças humanas em função da libertação universal.
Como dizia Aristóteles, “onde a excelência não é
organizada, a mediocridade ocupa seu lugar” (Ética a Nicômaco). No Partido
Comunista, não podemos permitir que a mediocridade, o improviso ou a rotina
consumam o que há de melhor entre nós. Precisamos fazer de cada militante um
quadro, e de cada quadro um dirigente em potencial, forjado na luta e
reconhecido por sua entrega, mas também por sua capacidade.
Só com essa nova consciência organizativa poderemos
passar à fase superior da construção partidária. Só assim deixaremos de ser um
agrupamento voluntarista e nos tornaremos uma verdadeira organização nacional
de vanguarda, capaz de dirigir, formar e vencer. Os quadros já existem — cabe a
nós acordá-los, organizá-los e colocá-los a serviço da revolução socialista.
Ousar sonhar, ousar vencer: pelo espírito conspirador e criador da revolução comunista
Sem ousadia, não há Partido Comunista. Sem conspiração,
não há revolução. Sem espírito criador, nenhum projeto histórico resiste à
prova do tempo. E sem sonho — sonho concreto, orientado, férreo, disciplinado —
não há porvir possível. A história exige de nós, agora, um salto qualitativo
que não seja apenas técnico ou estrutural, mas também subjetivo, emocional,
simbólico e moral: um salto de ousadia. Ousadia de sonhar com a vitória, de
organizar para o impossível, de conspirar para a verdade, de caminhar com os
olhos fixos na linha do horizonte, enquanto as mãos mergulham no barro da vida
concreta.
Lênin, em “O Que Fazer?” (1902), zombava da rigidez
dos marxistas do tipo legalista e pragmático, daqueles que, incapazes de
sonhar, matavam a política em nome da “ponderação”. Com ironia leninista,
lembrava da passagem de Píssarev sobre a função vital do sonho para o trabalho
criador, e escrevia:
“Se uma pessoa estivesse absolutamente privada da capacidade de sonhar assim, se não pudesse, de vez em quando, adiantar-se e contemplar em imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça entre suas mãos, eu não poderia de maneira alguma compreender que razão levaria o homem a iniciar e levar a seu termo vastos e penosos empreendimentos nas artes, nas ciências e na vida prática […] Quando existe um contato entre o sonho e a vida, quer dizer que tudo vai bem.”
Esse espírito sonhador e realista — a ousadia de imaginar
com método e executar com disciplina — é o que precisamos recuperar nas
fileiras do Partido Comunista. Não temos o direito de ser medíocres. Não temos
o luxo de sermos cautelosos demais. Devemos pensar como conspiradores — não no
sentido vulgar e policialesco da palavra, mas no sentido mais elevado:
conspirar contra a ordem vigente, contra o conformismo, contra a ideologia
dominante, contra os limites estreitos do possível imediato.
É preciso ousar organizar aparelhos complexos,
permanentes, clandestinos e públicos ao mesmo tempo, capazes de minar os
pilares da hegemonia burguesa. Ousadia para pensar um sistema nacional de
agitação e propaganda interligado a um estúdio de produção, uma gráfica
própria, uma rede de formação, um canal de distribuição ideológica, uma malha
de colaboradores militantes, um banco de dados revolucionário. Tudo isso não
como peças soltas, mas como partes de uma arquitetura conspiradora do novo
poder.
Ousadia, ousadia, ousadia. Ousadia de fazer a revolução
antes que ela seja tolerada. Ousadia de dizer ao povo que o comunismo não é só
possível, mas necessário e urgente. Ousadia de construir um jornal diário, com
suplementos para juventude e mulheres, enquanto a burguesia enterra suas
próprias redações. Ousadia de fundar um estúdio, uma editora, uma gráfica, uma
escola, uma loja, uma rede de agitação nacional. Ousadia de falar à massa como
quem sabe para onde está indo — não mendigando atenção, mas assumindo o lugar
de direção histórica da classe trabalhadora.
Essa ousadia exige o abandono definitivo da lógica
artesanal. Não se constrói hegemonia com esforço isolado, com improviso, com
dependência de talentos individuais. É preciso aparato, método, planejamento e
audácia. E é aqui que o Partido Comunista deve se diferenciar de todos os
agrupamentos de esquerda que permanecem presos às suas próprias limitações.
Nosso papel é dirigir o conjunto da luta de classes, captar cada explosão
local, cada insatisfação difusa, cada movimento subterrâneo de rebeldia — e subordiná-los
à necessidade estratégica da tomada do poder.
As ferramentas para isso existem. Os quadros estão vivos.
As ideias estão em fermentação. Mas falta o impulso. Falta o grito. Falta o
gesto inaugural. E esse gesto precisa partir de nós. Como dizia Che Guevara, “a
revolução é feita pelo homem, mas o homem deve se forjar revolucionariamente a
cada dia”.
O Partido precisa assumir que não basta reagir: é preciso
iniciar, provocar, dirigir e organizar. Deve ser o primeiro a propor, o
primeiro a agir, o primeiro a estar nas ruas, o primeiro a chegar na fábrica, o
primeiro a formar um novo quadro, o primeiro a ocupar um bairro, o primeiro a
lançar um jornal, o primeiro a colocar sua bandeira em cada escola, em cada
telhado de cada cidade.
A luta de classes no Brasil exige um Partido Comunista
que não tenha medo de vencer. Que se proponha a governar, a tomar o poder, a
destruir o velho Estado e erguer a nova sociedade. E isso começa pela ousadia.
Pela conspiração paciente. Pela construção de uma estrutura que seja ao mesmo
tempo oculta e visível, firme e flexível, disciplinada e inventiva.
Porque a hegemonia do proletariado não se constrói
pedindo licença — ela se constrói invadindo o presente com a força organizada
do futuro.
Os secretários do Partido — artífices da vitória
Ao longo deste ensaio, percorremos com método e paixão
revolucionária a trilha das tarefas dos secretários do Partido Comunista: o
Secretário de Organização, o de Agitação e Propaganda, e o de Finanças.
Rechaçamos as calúnias lançadas pela burguesia, revelamos o conteúdo histórico
e político de suas funções e apontamos as exigências do presente e do futuro.
Estes camaradas, longe de serem “burocratas”, “fanáticos” ou “cofres ambulantes”,
são — em cada núcleo, célula, coordenação ou comitê — a encarnação prática da
linha política do Partido, os fios vivos que ligam a teoria à ação, a vanguarda
ao povo, o programa à sua realização concreta. Além disso, propomos as tarefas
necessárias para um verdadeiro salto qualitativo em todo o Partido Comunista.
Não há exagero, tampouco romantização, em afirmar que os
secretários são os operários invisíveis da história, os artífices do poder
popular que ainda está por vir. Como os bolcheviques que mantinham a disciplina
sob a repressão czarista, como os comunistas vietnamitas que organizavam a
propaganda no meio dos bombardeios, como os camaradas albaneses que mantiveram
a ordem revolucionária mesmo cercados, ou como os companheiros cubanos que alfabetizaram
um povo inteiro sob a mira do imperialismo — também hoje, aqui e agora, os
secretários do Partido devem agir com a mesma consciência do dever histórico
que recai sobre seus ombros.
“Os quadros decidem tudo”, ensinou Josef Stálin em 1935,
e nunca essas palavras foram tão verdadeiras quanto no século 21. Mas os
quadros não nascem prontos: são formados, acompanhados, temperados na luta e
exigidos permanentemente, como o aço que precisa do fogo e da pressão para
adquirir resistência. E quem os forja, os disciplina e os fortalece é, muitas
vezes, o trabalho paciente e revolucionário do secretariado partidário. Não se
trata apenas de cumprir tarefas — trata-se de construir sujeitos históricos.
Neste mundo em decomposição, onde reina o individualismo,
a alienação e o niilismo, onde a juventude é empurrada ao desespero e os
trabalhadores à servidão moderna, o Partido Comunista precisa ser um farol — e
seus secretários, os que mantêm a chama acesa. A tarefa que lhes cabe é
monumental: manter coesa a organização, formar quadros, garantir os meios
materiais da luta, educar as massas, romper o cerco ideológico da burguesia e
preparar a ofensiva socialista. E fazê-lo com humildade, coragem, ousadia, inteligência,
com espírito coletivo e sem jamais ceder ao cansaço ou ao sectarismo.
O futuro da revolução será também o fruto da qualidade
dos nossos secretários. O Partido que queremos — centralizado, combativo,
enraizado, disciplinado e amado pelas massas — não existirá por geração
espontânea, mas será o resultado de milhares de reuniões organizadas, jornais
distribuídos, cotas pagas, panfletos colados, escolas realizadas, debates
animados e tarefas cumpridas. Cada militante forjado, cada célula fortalecida,
cada centavo coletado, cada linha escrita — tudo isso é parte da lenta e paciente
arte de construir o poder popular.
Este ensaio é, portanto, mais que uma análise: é um
chamado. Um chamado à responsabilidade, à elevação do nível político e técnico
do trabalho de base, à formação de uma nova geração de secretários
revolucionários à altura de seu tempo. Secretários que compreendam que sua
tarefa não é pessoal, mas coletiva; não é de um dia, mas de uma época; não é
para o ego, mas para a história.
Que a nossa geração de comunistas seja digna do futuro
pelo qual luta. Que os secretários do Partido sejam, hoje e sempre, as
sentinelas conscientes do novo mundo que brota no seio do velho. E que o nome “secretário”
não seja sinônimo de rotina ou papelada, mas de dignidade, audácia e direção
revolucionária.
Porque sim, camaradas — os quadros decidem tudo!