Os Secretários — Alma viva do Partido Comunista

Este ensaio resgata a importância histórica, política e ideológica dos secretários do Partido Comunista — de Organização, Agitação e Propaganda, e Finanças — como operadores centrais da linha revolucionária e construtores da unidade entre teoria e prática. Em diálogo com as experiências socialistas do século 20 e os desafios do século 21, o ensaio propõe avanços organizativos e reafirma que, sem secretários conscientes e formados, não há Partido, nem revolução.

{getToc} $title={Conteúdo} $count={Boolean} $expanded={Boolean}

Primeira parte: A definição do trabalho do secretariado

Introdução

Em toda construção histórica séria da revolução proletária, desde a Comuna de Paris até o poder soviético e a experiência albanesa de construção socialista, há uma constante: a necessidade de um Partido Comunista centralizado, disciplinado e firmemente enraizado na classe trabalhadora. Mas um partido comunista não é uma abstração teórica, uma sigla vazia ou um “coletivo horizontal” sem direção. Ele é uma organização viva, composta por homens e mulheres forjados na luta, educados na teoria marxista-leninista e dotados de responsabilidades políticas definidas. E nesse organismo vivo, os secretários cumprem o papel vital de manter pulsando o coração das organizações partidárias.

Se quisermos compreender verdadeiramente o papel desses camaradas — os secretários de Organização, de Agitação e Propaganda, e de Finanças — é preciso romper de antemão com toda visão mecanicista ou reducionista sobre suas funções. Eles não são meros “técnicos administrativos”, “coordenadores neutros” ou burocratas despidos de ideologia. Ao contrário: são quadros políticos de vanguarda, responsáveis por manter viva a chama da revolução no seio do Partido, garantir sua ligação com as massas e transformar ideias revolucionárias em prática organizada.

Nosso propósito aqui é duplo: primeiro, recuperar histórica e filosoficamente o sentido político da função dos secretários na estrutura partidária comunista; segundo, detalhar suas tarefas práticas, dialeticamente ligadas às determinações da luta de classes, às exigências da construção revolucionária do nosso tempo e à formação de quadros verdadeiramente temperados nos combates da nossa época histórica.

E aqui cabe recuperar, com a devida reverência e atualidade, as palavras do camarada Stálin, que compreendeu como poucos a centralidade dos quadros na vida do Partido e do Estado proletário. No célebre discurso “O Homem, o Capital Mais Precioso (1935), declarou:

“Pois bem, camaradas, se queremos superar com êxito a penúria no domínio das pessoas e conseguir que o nosso país disponha de uma quantidade suficiente de quadros, capazes de fazer progredir a técnica e pô-la em ação, devemos saber, antes de mais, dar valor aos quadros, a cada trabalhador capaz de ser útil à nossa causa comum. É preciso, por fim, compreender que, de todos os capitais preciosos que existem no mundo, o mais precioso e o mais decisivo, são as pessoas, os quadros. [...] Os quadros decidem tudo.”

Esta afirmação, que se tornou uma divisa imortal do socialismo científico, não é um exagero retórico: ela expressa uma compreensão profundamente dialética do papel do sujeito revolucionário. Sem quadros capazes, disciplinados e formados, a teoria permanece letra morta; as decisões do Comitê Central se perdem no vazio; o Partido torna-se uma casca vazia, incapaz de dirigir as massas. Os secretários, portanto, não são meros executores, mas elementos conscientes da mediação entre direção política e base social, entre teoria e prática, entre o Programa e sua realização concreta. São a vértebra da vida partidária, e sua qualidade determina a saúde do Partido como um todo.

Ainda segundo Stálin:

“Camaradas, acabastes a escola superior e recebestes aí a primeira têmpera. Mas a escola não é mais do que um grau preparatório. A verdadeira têmpera recebemo-la no trabalho vivo, fora da escola, na luta contra as dificuldades, na sua superação. Lembrem-se, camaradas, que os bons quadros são aqueles que não temem as dificuldades, que não se esquivam a elas, mas que, pelo contrário, vão ao seu encontro para as ultrapassar e vencer. Só na luta contra as dificuldades é que se forjam os verdadeiros quadros.”

Estas palavras sintetizam a alma do trabalho dos secretários comunistas: sua têmpera se dá na prática militante cotidiana, enfrentando contradições internas e externas, organizando o trabalho coletivo, elevando a consciência política da base, superando o espontaneísmo, corrigindo desvios e fraquezas, formando novos camaradas, garantindo a segurança da organização, a clareza ideológica da propaganda e a saúde material do Partido.

Não há tarefa simples nem cargo “menor” em um Partido Comunista que realmente se proponha a destruir a ordem burguesa. Por isso, ao longo deste ensaio, trataremos em detalhe do papel dos Secretários de Organização, de Agitação e Propaganda e de Finanças, revelando como suas tarefas se entrelaçam com as grandes determinações filosóficas, políticas e materiais da luta de classes em sua expressão partidária. Veremos como cada um deles atua como um operador político e moral da linha revolucionária, carregando sobre os ombros o dever histórico de preparar a vitória da classe trabalhadora. Não se trata de um trabalho individual ou de “liderança personalista”, mas da aplicação viva dos princípios do centralismo democrático e do internacionalismo proletário, firmemente baseados na tradição leninista.

Afinal, se “os quadros decidem tudo”, então os secretários são os escultores de quadros, os arquitetos do Partido e os soldados da disciplina revolucionária. E é por isso que sua formação, seu acompanhamento, sua crítica e seu reconhecimento são tarefas estratégicas de primeira ordem.

O Secretário de Organização: Sentinelas do Marxismo

Nada é mais temido pelas classes dominantes do que a existência de uma organização comunista viva, disciplinada, lúcida e estruturada com raízes profundas entre as massas trabalhadoras. E se há uma figura dentro dessa engrenagem partidária que concentra o ódio histérico da burguesia, é a do Secretário de Organização. A razão é simples: ele é a antítese viva do caos pequeno-burguês, do liberalismo desorganizador e da espontaneidade destrutiva. Ele é o sujeito coletivo encarnado numa tarefa: construir a organização que destrói a velha ordem e ergue a nova.

As mentiras promovidas pela burguesia contra essa figura não são acidentais, nem se dá por ignorância — ela cumpre uma função política concreta: desacreditar o papel do Partido na direção das massas e da revolução. A figura do Secretário de Organização é pintada ora como um burocrata cinzento e sem alma, ora como um “xerife” autoritário que pretende “vigiar e punir” a vida dos militantes, ou até como um funcionário obtuso do Comitê Central cuja única tarefa seria “controlar” os demais. Essa narrativa pueril, liberal e profundamente anticomunista deve ser desmontada com firmeza. Ela não se sustenta nem do ponto de vista histórico, nem do ponto de vista prático. Na realidade, o Secretário de Organização, em sua melhor expressão, é a síntese de várias qualidades revolucionárias: disciplina, iniciativa, escuta, firmeza, planejamento, centralismo, zelo coletivo e dedicação incondicional à causa do socialismo científico.

Tomemos como base o exemplo da União Soviética sob a direção de Lênin e Stálin, ou o Partido do Trabalho da Albânia (PTA) sob Enver Hoxha: em todos os momentos de virada histórica, a organização partidária foi o fator decisivo entre a vitória e a derrota. E onde a organização floresceu com disciplina e ligação real com as massas, lá havia secretários de organização atentos, comprometidos, humildes e implacáveis com o desleixo. Yakov Sverdlov, o bolchevique que Lênin considerava o maior organizador da revolução, não era um chefe arrogante, mas um camarada presente em cada comissão, em cada célula, cuidando da disciplina como quem cuida de um viveiro de sementes revolucionárias.

O papel do Secretário de Organização não é o de um “gestor” neutro, mas o de um dirigente político da base — e, como tal, seu compromisso é com a elevação da consciência coletiva, com a execução das tarefas práticas e com o avanço político do coletivo. Ele é o primeiro a chegar e o último a sair. Coordena reuniões, propõe pautas, acompanha tarefas, mas também observa silêncios, ausências, contradições não verbalizadas, e atua como um educador paciente. Sua tarefa é dialética: manter a firmeza organizativa sem esmagar a iniciativa criadora, incentivar o debate sem perder o eixo central, cultivar a vigilância revolucionária sem paranoia, estabelecer normas sem cair no formalismo.

A escuta ativa dos membros não é um gesto liberal de “democracia vazia”, mas uma ferramenta dialética para detectar contradições internas, fortalecer a unidade ideológica e corrigir desvios antes que se tornem tumores no organismo partidário. O Secretário de Organização deve conhecer profundamente cada militante — suas capacidades, limitações e estado de formação política e de ânimo — para destacar tarefas conforme as necessidades da revolução, jamais conforme caprichos individuais.

Além disso, cabe ao Secretário de Organização garantir a segurança do Partido. Isso significa, na prática, estabelecer protocolos de cuidado e proteção para os militantes, tanto nos espaços físicos quanto nos digitais. Num tempo em que o imperialismo vigia cada clique, cada reunião virtual, cada expressão contestadora, é fundamental que este camarada se qualifique no campo da cibersegurança, conheça os métodos de infiltração e desinformação utilizados pela reação e esteja em constante diálogo com os demais membros sobre os perigos reais que nos rondam. A segurança partidária não é paranoia, é necessidade histórica — e o secretário que a conduz não é um carcereiro, mas um guardião da nossa continuidade.

Esse camarada também deve zelar pela formação teórica contínua do coletivo. Isso inclui não só organizar sistematicamente os estudos da teoria marxista-leninista, como também incentivar o estudo das ciências naturais, da história, da filosofia, das lutas populares, da cultura nacional e universal. Ele deve ser, ele mesmo, um leitor voraz, um formador exigente, um amante da ciência e do conhecimento. Nenhuma revolução é possível com quadros ignorantes — e se o partido quer preparar seus militantes para dirigir o novo Estado, precisa formar intelectuais orgânicos da classe trabalhadora, aptos a compreender e transformar o mundo. É o Secretário de Organização que muitas vezes impulsiona essa tarefa cotidiana, silenciosa e titânica: a elevação cultural da militância.

Tampouco se pode reduzir seu papel à “administração” da vida partidária. O secretário deve pensar estrategicamente: como ampliar nosso raio de ação? Como intervir melhor na luta de classes? Como avançar o enraizamento do Partido nos locais de trabalho, moradia, estudo? Como despertar os desorganizados, os desmoralizados, os desesperançados? A ele cabe também sugerir novas formas de ação, propor campanhas políticas, articular frentes de massas, identificar novos quadros e potenciais dirigentes. Não há espaço para acomodação. O secretário que se fecha numa sala somente para “organizar planilhas” trai sua função histórica. O verdadeiro secretário está com os pés na terra e os olhos no horizonte.

Por fim, é preciso dizer com toda a franqueza revolucionária: o Secretário de Organização é um espelho do Partido que temos. Se ele é omisso, o coletivo se fragiliza. Se ele é arrogante, o coletivo se distancia. Se ele é desorganizado, o coletivo se dispersa. Mas se ele é dedicado, coerente, humilde, firme e amoroso com seus camaradas, então o Partido cresce, floresce e se torna uma força histórica viva. Por isso, não se trata apenas de cobrar esse camarada — trata-se de compreendê-lo, fortalecê-lo, acompanhá-lo e, sobretudo, formar novos secretários à sua altura.

O Partido Comunista do futuro precisa de centenas, milhares de secretários de organização como o camarada Sverdlov, como o camarada Enver Hoxha, como os anônimos que mantiveram as células comunistas vivas mesmo sob a mais dura repressão. Eles não aparecem nas manchetes, mas sem eles não há revolução. A história futura lhes fará justiça. E nossa tarefa é não esperar que o tempo os reconheça — mas reconhecer agora, politicamente, que são eles os verdadeiros operários da construção comunista.

Burocratismo, formalismo e autoritarismo na organização partidária

O Partido Comunista não é um corpo infalível. É uma organização composta de seres humanos em luta contra a velha sociedade, carregando, portanto, as marcas dessa sociedade dentro de si. A tarefa da organização revolucionária é justamente depurar-se desses vícios herdados da ordem burguesa, combatê-los com energia e vigilância política. No entanto, a história do Movimento Comunista Internacional (MCI) mostra que, em diferentes momentos e contextos, a função organizativa do Partido foi corroída por três desvios principais: o burocratismo, o formalismo e o autoritarismo sectário. Estes desvios não apenas enfraqueceram os Partidos de vanguarda, mas, em muitos casos, contribuíram diretamente para sua degeneração e ruptura com as massas.

O burocratismo é o primeiro e talvez mais insidioso de todos os males. Ele não aparece como um “grande desvio ideológico”, mas como uma rotina — a rotina do papel pelo papel, da reunião pela reunião, da tarefa feita apenas para ser registrada. O burocratismo transforma a prática militante viva em carimbo, em ritual vazio. Quando um Secretário de Organização se torna prisioneiro do burocratismo, ele deixa de ser um dirigente revolucionário e passa a ser um funcionário inerte. Os problemas da base deixam de ser ouvidos, as tarefas viram listas de tarefas e a militância se esfria. Pior ainda: em nome da “eficiência organizativa”, pode-se sufocar a iniciativa criadora das massas, substituindo a política pela técnica. Na União Soviética, esse mal foi denunciado por Lênin nos últimos anos de sua vida, especialmente ao tratar do crescente distanciamento entre os órgãos partidários e o povo. E foi justamente contra esse processo que o camarada Stálin teve de empreender uma luta profunda, politizando novamente a organização, colocando os quadros no centro e varrendo da máquina do Partido os elementos inertes, oportunistas e burocráticos.

O formalismo está intimamente ligado ao burocratismo, mas se expressa com mais clareza no plano ideológico. É o vício de transformar as normas partidárias em dogmas, os estatutos em religião, a disciplina em liturgia. O formalismo é, essencialmente, uma negação do método dialético: ele congela a realidade, fecha a política em esquemas abstratos e torna o Partido incapaz de compreender o movimento real da luta de classes. O formalista repete fórmulas e esquece a análise concreta da situação concreta. Na prática, isso significa punir camaradas com base em tecnicalidades, ignorar os contextos, aplicar decisões mecânicas sem escutar a base. O Partido deixa de ser educador coletivo e se transforma em tribunal moralista. Esse desvio afetou profundamente partidos comunistas da Europa Oriental, onde, em nome da “legalidade socialista”, se sufocaram debates reais, se esconderam erros e se isolaram setores combativos da classe trabalhadora. Um Partido dominado pelo formalismo perde sua flexibilidade tática, sua capacidade de aprender com o povo e sua função de vanguarda.

Já o autoritarismo sectário, quando penetra a função organizativa, é talvez o mais destrutivo de todos os desvios. Aqui, o Secretário não é mais um dirigente coletivo, mas um “chefe” que concentra poder, impõe ordens sem consulta, suspeita permanentemente da base e reprime qualquer crítica como “desvio ideológico”. Esse tipo de conduta desmoraliza a militância, gera medo, silencia o debate e destrói a confiança coletiva, que é o cimento da organização comunista. A história mostra que o autoritarismo, embora possa parecer “eficaz” a curto prazo, corrói a estrutura partidária por dentro. Foi justamente por não combater de forma consequente essa tendência que muitos Partidos comunistas se desfiguraram e perderam sua função revolucionária, afundando em crises internas, rupturas sectárias ou completa degeneração oportunista. Não basta a disciplina mecânica — é preciso a disciplina consciente, forjada na convicção política e na confiança mútua entre os camaradas.

A autocrítica sobre esses desvios não é uma autoflagelação, mas um dever revolucionário. Se um Partido não sabe fazer autocrítica, não presta para nada. E a função organizativa deve estar na linha de frente dessa luta. O Secretário de Organização deve ser o primeiro a combater o burocratismo, mantendo vivo o contato com a base; o primeiro a enfrentar o formalismo, contextualizando e politizando as normas internas; o primeiro a derrotar o autoritarismo, garantindo o exercício real do centralismo democrático, que une a direção política com a iniciativa militante das massas.

É necessário retomar, com espírito revolucionário, a ideia de que a função organizativa é antes de tudo uma função pedagógica, política e militante. E isso exige espírito crítico, escuta ativa, formação contínua e, sobretudo, humildade revolucionária. Não existe Partido comunista sério sem organização sólida — mas tampouco existe organização sólida sem espírito revolucionário, sem ligação real com o povo e sem vigilância permanente contra os desvios que deformam a forma para esvaziar o conteúdo.

Aprender com os erros é uma prova de maturidade. Corrigi-los na prática é um sinal de força. Fortalecer os secretários na luta contra o burocratismo, o formalismo e o autoritarismo é fortalecer o próprio Partido como instrumento da libertação proletária.

O Secretário de Agitação e Propaganda: a ponte entre o Partido e as massas

Entre os cargos mais atacados pela ideologia dominante e mais incompreendidos até mesmo dentro de setores progressistas, está o do Secretário de Agitação e Propaganda. A burguesia, com sua lógica pervertida, tenta pintar este quadro como um “ideólogo fanático”, uma espécie de pregador doutrinário do comunismo, um “sacerdote laico” do Partido, isolado do povo, repetidor de manuais, distante da vida real. Essa caricatura não apenas revela a ignorância da classe dominante sobre a natureza do trabalho revolucionário, como também expressa o medo genuíno que sentem da capacidade do Partido Comunista de conquistar corações e mentes para a luta socialista, por meio da ciência, da arte, da palavra, da emoção e da verdade organizada.

O Secretário de Agitação e Propaganda é, na verdade, um dos pilares mais dinâmicos da luta comunista. Não há revolução possível sem a disputa do imaginário social, sem a batalha cultural e ideológica, sem a presença viva do Partido na cabeça e no coração das massas. E essa presença não surge do nada. Ela é construída meticulosamente por aqueles que organizam a palavra, a imagem, o gesto e a ação direta com um só objetivo: romper o consenso ideológico burguês e fazer germinar a consciência de classe revolucionária entre os explorados.

Historicamente, os comunistas sempre compreenderam isso. Basta recordar o trabalho exemplar de Stálin na Transcaucásia durante os anos de clandestinidade bolchevique. Ali, no meio das montanhas do Cáucaso, Stálin organizou gráficas subterrâneas, redes de distribuição de jornais, tipografias móveis e rotas clandestinas que garantiram a circulação de panfletos e textos marxistas entre os operários e camponeses da região. O jornal Brdzola (A Luta) foi apenas um entre dezenas de instrumentos forjados com sacrifício para manter acesa a chama da consciência. “Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário”, dizia Lênin (“O Que Fazer?, 1902), e o jornal era, para os bolcheviques, o organizador coletivo da vanguarda, muito mais do que uma publicação: era uma ferramenta de construção política, disciplinar, cultural e ideológica.

Hoje, os comunistas enfrentam desafios ainda mais complexos. Vivemos num século marcado pela velocidade da informação, pela despolitização em massa, pelo domínio das redes digitais e pela hiperestimulação das consciências. Nesse cenário, o papel do Secretário de Agitação e Propaganda torna-se ainda mais central: ele é o responsável por articular uma frente ampla de comunicação militante, que vá do jornal físico à produção digital, dos cartazes de rua ao audiovisual de intervenção, da formação ideológica à provocação estética. A ele cabe planejar, executar, fiscalizar e inspirar os meios pelos quais o Partido se comunica com o povo. E, mais do que nunca, esse trabalho exige profissionalismo, ousadia, iniciativa e ciência.

No caso do Partido Comunista, é tarefa inadiável elevar qualitativamente o trabalho de seu jornal A Verdade. Isso exige, antes de tudo, que cada célula e comitê tenha metas concretas de leitura, venda e difusão — sejam elas feitas por cotas individuais ou brigadas coletivas — e que haja prestação de contas rigorosa dos números, tanto em termos de circulação quanto de impacto. Mas não basta distribuir: é preciso produzir conteúdo, relatar lutas locais, elaborar denúncias bem fundamentadas, escrever crônicas políticas, entrevistar operários e estudantes, refletir o mundo real com a linguagem das massas. Cada célula deve ser uma redação viva, e o Secretário de AgitProp o seu editor político.

Essa responsabilidade se estende às Edições Manoel Lisboa, patrimônio político e ideológico do Partido. O acompanhamento do catálogo, a prestação de contas, a ampliação da distribuição, a popularização dos títulos entre a juventude, a organização de lançamentos, debates e círculos de leitura — tudo isso deve ser parte do planejamento político do AgitProp. Afinal, como dizia Antonio Gramsci em seus “Cadernos do Cárcere” (1926-1937), “a indiferença é o peso morto da história”, e cabe aos comunistas agitar, mover e iluminar consciências. O livro é um instrumento revolucionário, desde que estejam nas mãos certas, com a mediação certa.

Além disso, o Secretário deve organizar as ações de rua, pois é no espaço público que se trava grande parte da disputa ideológica. Tribunas populares, panfletagens, pichações, escrachos, colagem de cartazes, banquinhas com livros e jornais — tudo isso deve ser sistemático, planejado e acompanhado. A comunicação de massas não pode ser esporádica, e tampouco “espontânea”. O Partido precisa voltar a criar imagem pública, marcar presença estética e simbólica nas ruas, voltar a ser temido pelos inimigos e amado pelos operários. Isso só se faz com ousadia tática e disciplina organizativa.

A palavra “propaganda”, tão demonizada pelos liberais, vem do latim propagare — espalhar, semear, multiplicar. E é isso que o Secretário de AgitProp faz: espalha ideias revolucionárias, semeia esperança comunista, multiplica a força do Partido na consciência social. Seu trabalho é tanto pedagógico quanto político, tanto artístico quanto estratégico. Ele deve dominar o marxismo-leninismo, mas também a história, a linguagem, a psicologia, o design, o audiovisual, as ferramentas online e as redes digitais — não como moda ou fetiche, mas como instrumentos táticos da revolução.

Nesse sentido, é urgente que o Partido construa sua própria gráfica revolucionária, como fizeram os bolcheviques, os vietnamitas, os cubanos. Somente com o domínio do processo produtivo — desde a escrita, a edição, a impressão e a distribuição — o Partido pode garantir independência ideológica e eficiência organizativa. Os materiais de propaganda devem ser tratados como armas: bem planejadas, bem afiladas, bem distribuídas. E o Secretário de Agitação e Propaganda deve ser, com orgulho, o armeiro ideológico do proletariado.

Fazendo eco às palavras de Epicuro — o filósofo materialista que ensinava que o conhecimento liberta do medo —, podemos dizer que a função do agitador comunista é romper o medo e a ignorância que mantêm o povo acorrentado. Ele é o construtor do novo senso comum, o portador da palavra que não apenas denuncia, mas organiza. Como escreveu Karl Marx em sua décima primeira tese sobre Feuerbach: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diversas maneiras; o que importa é transformá-lo” (“Teses sobre Feuerbach, 1845). A propaganda comunista é esse salto: da interpretação à transformação, da palavra à luta, do jornal à ação.

Portanto, o Secretário de AgitProp não é um dogmático de púlpito, nem um “marqueteiro” moderno. Ele é um militante revolucionário com espírito de artista e disciplina de operário, que transforma ideias em força material, que comunica o Partido com o povo e prepara as condições subjetivas para o assalto ao céu. Seu trabalho é vital, sua tarefa é estratégica, sua formação deve ser constante. E sua audácia, inabalável.

O Secretário de Finanças: a sustentação material da revolução

Entre todas as funções que estruturam a máquina viva do Partido Comunista, talvez nenhuma seja tão vilipendiada, deturpada e cercada de calúnias pela burguesia quanto a do Secretário de Finanças. Os meios de comunicação dos capitalistas e os seus cães de guarda ideológicos não hesitam em acusar essa figura de ser uma espécie de “caixa clandestina”, um “ladrão de cotas”, um “recolhedor de tributos para o terrorismo” ou, nas palavras mais grotescamente anticomunistas, um “chantagista de operários ingênuos”. Mas por trás dessa campanha de difamação, esconde-se o pavor da burguesia diante de um fato elementar da luta de classes: um Partido Comunista que se sustenta com recursos próprios é um Partido que não se ajoelha.

Desde os primórdios do movimento operário, ficou claro que a independência política do Partido exige sua independência financeira. Isso não é uma opção moral, mas uma exigência material da luta revolucionária. Karl Marx, já na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), defendia com firmeza a necessidade de contribuições regulares dos membros para garantir o funcionamento da organização. “A emancipação da classe trabalhadora deve ser obra da própria classe trabalhadora”, escrevia no “Estatuto da AIT” (1864), e isso implicava também a responsabilidade coletiva pela sustentação dos meios de luta. Um Partido que depende de doações de ONGs, de verbas estatais ou de financiamentos indiretos está, na prática, manietado — ainda que grite “revolução” em seus discursos. O marxismo-leninismo exige coerência entre os meios e os fins. E o Secretário de Finanças é o guardião dessa coerência.

As cotas mensais, recolhidas entre os militantes e simpatizantes do Partido, não são um imposto, mas um ato consciente de compromisso político. Cada contribuição é uma afirmação prática de que a luta de classes precisa de estrutura, de papel, de tinta, de tijolos, de transporte, de livros, de segurança, de impressão. Um militante que paga suas cotas não está “doando dinheiro”, está participando diretamente da construção da infraestrutura revolucionária. E o Secretário de Finanças é o camarada que organiza, acompanha, orienta e dá transparência a esse processo. Seu trabalho não é “contábil”, mas profundamente político e ideológico: ele cultiva o espírito de responsabilidade coletiva e a consciência de que a revolução exige sacrifício, planejamento e rigor com os recursos do povo.

A história do movimento comunista internacional está repleta de exemplos heroicos nesse sentido. Lênin, durante os anos de clandestinidade, defendia com unhas e dentes a centralização dos recursos partidários para garantir a sobrevivência dos jornais, das tipografias, dos comitês e das células. Já o camarada Stálin, antes mesmo de ser um dirigente nacional, destacou-se pela sua capacidade de obter recursos para o Partido sob as condições mais difíceis. Atuando na Geórgia e no Cáucaso, Stálin organizava expropriações de fundos das oligarquias czaristas, interceptava carregamentos de ouro, tomava carroças de banqueiros para financiar panfletagens, apoiar greves, construir casas seguras e manter os bolcheviques em atividade. Esse trabalho era arriscado, clandestino e absolutamente necessário. “Koba” caucasiano era conhecido pela eficiência militar com que reunia fundos e os colocava a serviço da causa revolucionária.

É evidente que hoje, nas condições específicas da luta de classes no Brasil, sob o regime democrático-burguês e com vigilância total do Estado, esse tipo de ação não está na ordem do dia. Seria suicídio político promover expropriações armadas em um contexto onde o Partido ainda constrói sua influência entre as massas. Mas a lição que devemos extrair da história não é a forma tática, mas o espírito estratégico: a luta revolucionária exige que a questão financeira seja tratada com a mesma seriedade que qualquer batalha de ideias ou de armas.

Portanto, cabe ao Secretário de Finanças, em cada núcleo, célula e comitê do Partido, planejar e executar uma política financeira organizada, criativa e constante, com metas claras, calendário de arrecadações e profunda ligação com o povo. Nenhuma atividade deve ser espontânea. Festas, rifas, jantares, campanhas de contribuição, venda de camisetas, chaveiros, bandeiras, canecas, livros, assinaturas do jornal e cotas de solidariedade devem ser pensados com profissionalismo, propaganda ativa e senso de beleza e unidade estética. Um Partido que trata mal seus próprios materiais de venda está dizendo ao povo que não acredita na sua própria bandeira.

Mais ainda, é preciso profissionalizar a arrecadação. Isso significa capacitar camaradas para lidar com logística, atendimento, finanças digitais, plataformas de contribuição online (como vaquinhas, PIX organizados, QR Codes nos materiais do Partido), gerenciamento de estoques de produtos, prestação de contas clara e periódica. O Partido deve se adaptar às ferramentas do século 21 — não para se vender, mas para resgatar, com meios modernos, o princípio leninista de autossuficiência revolucionária.

Também é papel do Secretário de Finanças articular redes de apoio fora do Partido. Os “amigos do Partido” — militantes de movimentos sociais, artistas, sindicalistas, intelectuais e trabalhadores simpatizantes do socialismo — devem ser convidados a contribuir regularmente com a construção da nova sociedade. Não como “doadores”, mas como companheiros de caminho, como sujeitos conscientes de que a luta de um Partido Comunista não é só do Partido, mas da classe trabalhadora em sua totalidade. O apoio material dos amigos é uma forma de compromisso político, e deve ser valorizado, incentivado e cultivado com atenção e camaradagem.

É aqui que entra uma verdade filosófica profunda, que atravessa toda a tradição revolucionária, de Epicuro a Hegel, de Marx a Lênin: a liberdade concreta só se realiza quando está enraizada na matéria. Não basta querer transformar o mundo — é preciso garantir os meios concretos para tal transformação. A política sem base material degenera em retórica. A retórica sem estrutura se desfaz no ar. Como dizia Goethe, “o que não produz, se corrompe”. O Partido que não cuida de sua economia interna, de sua base de sustentação, de sua autonomia financeira, se transforma, mais cedo ou mais tarde, em um satélite de interesses alheios ou em um monumento à impotência.

Portanto, o Secretário de Finanças não é um “tesoureiro”, nem um “funcionário arrecadador”. Ele é um dirigente político da sustentação revolucionária. Seu trabalho não é menos nobre que o de um agitador de rua ou de um organizador de massas. Pelo contrário: sem ele, não há panfleto, não há cartaz, não há reunião, não há segurança, não há propaganda, não há Partido. Ele é a expressão prática da máxima de que a revolução precisa de pão e aço. E seu trabalho deve ser valorizado, politizado, acompanhado e fortalecido com todas as nossas forças.

Assim como os bolcheviques ergueram tipografias no subterrâneo, nós devemos construir os alicerces materiais do novo mundo nas entranhas da velha ordem. E isso começa com disciplina, planejamento, espírito coletivo e confiança política em nossos camaradas responsáveis pelas finanças do Partido.

Modernização, continuidade e centralização

Se o Partido é, como nos ensinou Lênin em “Um Passo à Frente, Dois Passos Atrás” (1904), a “forma superior de organização da classe operária”, então sua estrutura precisa evoluir com a luta de classes, com o avanço da técnica e com a complexificação das tarefas históricas que se impõem. Um Partido Comunista que pretende dirigir a transformação radical da sociedade não pode contentar-se com formas organizativas rudimentares ou estruturas improvisadas. O crescimento da militância, o acúmulo de experiências e o avanço das contradições objetivas exigem uma renovação permanente dos métodos, das formas e dos instrumentos do secretariado revolucionário.

Não se trata de “inovar” por fetiche tecnológico ou adaptação liberal ao mundo burguês, mas de aplicar, com rigor marxista-leninista, a máxima da análise concreta da situação concreta. O século 21 apresenta novas condições de luta: um capitalismo cada vez mais informatizado, uma vigilância digital sem precedentes, uma juventude fragmentada por múltiplas ideologias de despolitização, um proletariado precarizado e, ao mesmo tempo, uma abundância de ferramentas de comunicação, organização e mobilização que, se bem utilizadas, podem dar à vanguarda um poder multiplicador jamais visto.

Isso significa que os secretários do Partido devem aprofundar-se em suas tarefas com método, dedicação e abertura ao aprendizado permanente. É preciso superar qualquer resquício de voluntarismo, improvisação ou rotinas mecânicas herdadas de períodos anteriores. O trabalho de organização, propaganda e finanças deve ser elevado a um novo patamar, que combine a profundidade ideológica com a eficiência técnica, a tradição com a criatividade, o centralismo com a flexibilidade tática. A direção revolucionária não pode ser refém da repetição, mas também não pode dissolver sua coerência política em nome do “novo”. A chave está na síntese: aquilo que Hegel chamava de Aufhebung — a superação que conserva o essencial e nega o inútil.

À medida que o Partido cresce, e especialmente quando assume caráter de organização de massas, torna-se imprescindível automatizar, sistematizar e descentralizar tarefas sem abrir mão da centralização política e ideológica. A criação de bancos de dados organizados de militantes, o uso de ferramentas seguras de comunicação interna, a construção de calendários unificados, o acompanhamento sistemático de cotas, vendas, textos produzidos, atividades realizadas — tudo isso deve ser feito com instrumentos técnicos adequados, com acompanhamento constante e prestando contas não como uma obrigação burocrática, mas como expressão de maturidade política e confiança coletiva. Como dizia Friedrich Engels em 1875, “a liberdade não consiste na ausência de organização, mas na organização consciente”.

As experiências do século 20 nos oferecem lições valiosas. Na União Soviética, sob a direção de Stálin, o Partido desenvolveu um sistema organizativo que combinava a formação política contínua com a avaliação sistemática dos quadros, permitindo que os secretários nos sovietes, nas fábricas, nos kolkhozes e nas cidades mantivessem o vínculo orgânico entre a base e o Comitê Central. A Albânia socialista, sob a direção de Enver Hoxha, mesmo em meio à escassez material e ao cerco imperialista, construiu uma estrutura partidária sólida que colocava os secretários como pedagogos políticos permanentes. No Vietnã, o Partido Comunista utilizou formas de descentralização organizativa em zonas guerrilheiras e áreas urbanas ocupadas, mas sempre com um sistema centralizado de diretrizes e formação contínua, inclusive em plena guerra. E em Cuba, sob a direção de Fidel Castro, os Comitês de Defesa da Revolução (CNR) operam até hoje como instrumentos de vigilância, solidariedade e mobilização política, onde os responsáveis pela agitação e organização atuam como extensões vivas do Partido em cada bairro, quadra, vila ou fazenda.

No Brasil, também há exemplos heroicos e discretos. O trabalho do Partido Comunista, há décadas, tem sido exemplo de perseverança clandestina, de disciplina organizativa, e de formação de quadros comprometidos. Em diversas regiões, secretários de núcleo, de coordenação, de células e comitês têm desenvolvido formas criativas de manter a chama revolucionária acesa mesmo diante da repressão, da escassez de recursos e da dispersão ideológica. Há núcleos que construíram metodologias de acompanhamento pessoal dos militantes, coordenações que sistematizaram atividades regulares de panfletagem, escolas políticas que mantêm calendário e materiais próprios, experiências de bancas e festas que geram renda com dignidade e consciência. Essas experiências devem ser compartilhadas, sistematizadas, estudadas e replicadas com as devidas adaptações locais, como parte de um esforço coletivo de construção do poder revolucionário.

Mas para isso, é indispensável investir de modo permanente na formação dos quadros partidários, e em especial dos secretários. É urgente construir — e fortalecer — a Escola do Partido, como espaço político, teórico, organizativo e prático. Essa escola não deve ser apenas um curso introdutório, mas um processo contínuo de educação política, que forme, atualize e renove nossos quadros. A formação deve incluir teoria marxista-leninista, história das revoluções, análise política da conjuntura, métodos organizativos, propaganda e agitação, segurança partidária, economia política, ciência e tecnologia, cultura popular e arte revolucionária. A cada nova leva de secretários formados, o Partido se fortalece. A cada camarada que aprofunda sua consciência e capacidade organizativa, a revolução se aproxima. Como disse José Martí, “ser culto é a única forma de ser livre”.

Essa formação precisa ser combinada com instrumentos regulares de avaliação política, crítica e autocrítica. Os secretários devem prestar contas, sim, mas não apenas num sentido técnico. Devem relatar como desenvolveram a consciência dos militantes, quais avanços houve na coesão interna, quais desafios surgiram, quais erros foram cometidos e como foram corrigidos. A crítica e a autocrítica não são castigos — são formas superiores de aprendizado coletivo, o método leninista por excelência de correção dos rumos. “A única maneira de não errar é nada fazer”, dizia Stálin. E como nossa tarefa é histórica, e não escolástica, errar faz parte da caminhada. Mas errar da mesma forma duas vezes — isso sim é imperdoável.

O Partido no século 21 precisa ser como o aço temperado: flexível, resistente, afiado, centralizado e forjado no calor da luta e do pensamento crítico. Seus secretários são os operários dessa fundição. E como operários conscientes, devem dominar tanto as ferramentas antigas quanto as novas; devem conhecer a filosofia dialética e a prática operária, o panfleto e a criptografia, o mimeógrafo e a rede digital, o microfone da tribuna e o microfone do podcast, a tribuna popular e o código de conduta organizativa. Devem ser, enfim, sínteses vivas da tradição e da inovação, do exemplo e da ciência, da humildade e da direção.

Por isso, modernizar a estrutura partidária não é abrir mão de princípios — é aplicá-los com inteligência histórica. É reforçar o Partido como sujeito coletivo da revolução e preparar-se para o momento em que, como um raio, a insurreição e a organização coincidam. Até lá, cada passo de formação, cada nova ferramenta, cada calendário de tarefas e cada militante bem formado é uma peça a mais na engrenagem que há de mover a história. E quando isso acontecer, que os secretários do Partido possam olhar nos olhos da classe operária e dizer, com orgulho: estivemos aqui o tempo todo, preparando o chão por onde passará a revolução.

Segunda Parte: Saltos qualitativos necessários

Plano Nacional de Organização — pela construção dos Birôs do Partido

Para que um Partido Comunista seja de fato a vanguarda da classe operária e não apenas um aglomerado de boas intenções revolucionárias, ele precisa se dotar de uma estrutura nacional coordenada, com mecanismos centralizados de direção, acompanhamento, formação e mobilização. Com o crescimento da militância, o aumento das responsabilidades políticas e a intensificação das tarefas de agitação e organização, torna-se indispensável a construção de um Plano Nacional de Organização do Partido Comunista, com metas operacionais, políticas e ideológicas definidas nos níveis nacional, estadual, regional, municipal e local, sob controle direto do Secretariado do Comitê Central.

Essa tarefa exige a criação e desenvolvimento de três instâncias orgânicas fundamentais: o Birô Nacional de Organização, o Birô Nacional de Agitação e Propaganda, e o Birô Nacional de Finanças. Esses Birôs, compostos por quadros de confiança e alta formação política, devem funcionar como centros dirigentes e operacionais para planejar, executar, acompanhar e nacionalizar as principais iniciativas do Partido, dotando-o de coesão estratégica e operacional.

O Birô Nacional de Organização deve coordenar a implementação dos Calendários Nacionais de Tarefas, garantindo que os núcleos, células e comitês em todo o país estejam atuando em sintonia política e temporal. Deve organizar a Escola Nacional de Formação, responsável por cursos regulares, estágios, produção de materiais didáticos, e formação contínua de novos quadros e secretários em todas as regiões. Também cabe a este Birô realizar sensos internos regulares sobre a composição da militância, o estado dos núcleos e as demandas organizativas, transformando esses dados em orientações práticas. A nacionalização das iniciativas — por exemplo, campanhas de massas, campanhas de recrutamento, mutirões de estudos e ações de denúncia — também deve ser coordenada por este Birô, garantindo impacto político simultâneo e visível do Partido em nível nacional.

Já o Birô Nacional de Agitação e Propaganda deve ser o cérebro criador da presença pública do Partido. Ele é responsável pela produção do jornal nacional (A Verdade), coordenando pautas, impressões, tiragens, distribuição, formação de redatores e gráficos, e integração com as lutas locais. Também deve organizar a revista teórica do Partido, espaço de formação aprofundada, polêmica revolucionária e sistematização da linha política em alto nível. A coordenação da editora nacional (Edições Manoel Lisboa) também recai sobre este Birô, promovendo lançamentos, reedições, traduções e publicações de interesse do proletariado. Deve ainda fundar e manter uma Fundação Social-Científica, centro de pesquisas e estudos voltado para o desenvolvimento de uma visão científica da realidade brasileira, da classe trabalhadora, da juventude, da tecnologia e da cultura, a serviço da revolução socialista. Essa fundação poderá oferecer cursos, produzir relatórios, promover seminários e formar intelectuais orgânicos do Partido, enraizados nas massas.

O Birô Nacional de Finanças, por sua vez, é o guardião da autonomia material do Partido. Deve coordenar uma Loja nacional e suas operações locais produtivas subordinadas, que produza, venda e entregue livros, camisetas, bandeiras, posters, cadernos, bottons etc. e produtos partidários com segurança, organização e regularidade, garantindo arrecadação permanente e divulgação. Também deve estruturar estamparias nacionais e locais, que centralizem a produção de materiais, barateiem os custos e profissionalizem a aparência e distribuição dos produtos do Partido e dos movimentos de massas aliados. Além disso, este Birô deve sistematizar campanhas de doações, financiamento coletivo e relações com os “Amigos do Partido”, organizando formas criativas e militantes de contribuição — incluindo eventos online e presenciais, planos de contribuição recorrente, campanhas temáticas e relatórios transparentes de arrecadação e gastos.

Cada um desses Birôs deve operar com funcionários e militantes destacados exclusivamente para essa tarefa, acompanhando metas, processando dados, garantindo segurança, corrigindo erros e mobilizando quadros em tempo integral para tarefas operacionais prioritárias. Para isso, o Secretariado do Comitê Central deve possuir uma base de dados atualizada sobre quadros disponíveis, com seus perfis, formações, regiões e áreas de atuação, permitindo que sejam mobilizados rapidamente conforme a necessidade da luta de classes. A agilidade na mobilização — como demonstraram os bolcheviques — é um critério essencial da capacidade dirigente de um Partido.

Todos os Birôs devem manter relatórios regulares de produtividade, avaliando metas atingidas, revisando métodos, corrigindo desvios e propondo novas diretrizes ao Secretariado. Essa dinâmica reforça a disciplina consciente, o planejamento estratégico e o espírito coletivo, valores que devem ser a alma da organização partidária.

Tais estruturas não são “luxos organizativos” — são condições técnicas e políticas para a construção do Partido revolucionário que a classe trabalhadora brasileira precisa e merece. Sem uma direção nacional sistemática, os esforços regionais dispersam-se, as experiências não se somam, os acúmulos se perdem e o Partido enfraquece. Com os Birôs, a luta de um núcleo no interior do Maranhão pode se conectar com a formação teórica em Porto Alegre, a agitação na periferia de Recife pode ser potencializada por uma campanha nacional em São Paulo, e a venda de livros em Belém pode sustentar uma brigada de propaganda no ABC paulista. A revolução socialista exige escala, exige sistema, exige centralismo dinâmico.

Uma organização revolucionária não se improvisa. E essa organização só será revolucionária se construir, desde já, as bases materiais e operacionais do poder socialista, com uma direção nacional operando como cérebro coletivo da classe trabalhadora. Os Birôs, portanto, não são estruturas administrativas: são expressões práticas do Partido Comunista enquanto sujeito histórico da transformação radical da sociedade.

Se queremos de fato preparar o assalto ao céu, não basta indignação, nem mesmo disciplina isolada. É preciso organização planificada, técnica, política e revolucionária — e os Birôs Centrais devem ser os centros nervosos dessa nova etapa da luta comunista em nosso país.

Por um salto qualitativo na organização partidária

Ao longo da história do movimento comunista — e em especial na trajetória de construção dos partidos revolucionários sob condições de semiclandestinidade, perseguição ou crescimento orgânico gradual — as direções nacionais muitas vezes recorreram a formas organizativas provisórias e flexíveis para dar conta das tarefas mais imediatas da luta de classes. Assim, surgiram e seguem existindo estruturas como Comissões Nacionais, Coordenações Nacionais e Comitês Nacionais — órgãos geralmente compostos por camaradas experientes, designados para planejar, executar ou acompanhar tarefas em campos específicos da ação partidária.

Essas estruturas têm cumprido, historicamente, um papel importante para dar resposta a situações emergenciais, campanhas específicas, ou lacunas de atuação em áreas diversas, como comunicação, finanças, formação ou mobilização de base. No entanto, à medida que o Partido se amplia, que os desafios se tornam mais complexos e contínuos, e que o acúmulo organizativo exige maior regularidade, profissionalismo e estabilidade, torna-se evidente a limitação estrutural e política das Comissões e Coordenações como formas organizativas permanentes.

O principal limite dessas estruturas está em seu caráter transitório, não permanente, muitas vezes difuso quanto à linha de comando, composição e rotina operacional. Coordenações podem ser descontinuadas por esgotamento conjuntural; Comissões podem carecer de autoridade prática; Comitês Nacionais podem ser sobrecarregados por tarefas demais e clareza política de menos. Em muitos casos, essas estruturas funcionam quase como “extensões voluntaristas” do Comitê Central, e não como instâncias operacionais plenamente integradas à estrutura estável do Partido, com metas, relatórios e mecanismos de controle sistemático.

Por isso, propomos que, a partir do amadurecimento político e organizativo do Partido Comunista, avancemos na criação e consolidação dos Birôs Centrais como órgãos superiores, permanentes, especializados e estrategicamente subordinados ao Secretariado do Comitê Central, e não mais apenas estruturas consultivas ou de apoio. Os Birôs Nacional de Organização, Agitação e Propaganda, e Finanças devem funcionar como núcleos dirigentes operacionais, com corpo próprio, metas definidas, estrutura logística, quadros mobilizáveis e capacidade técnica permanente.

A diferença essencial entre os Birôs e as comissões ou coordenações reside em três aspectos principais: permanência, estrutura e função dirigente.

Primeiro, os Birôs não são criados para uma tarefa específica ou uma conjuntura determinada, mas para garantir a continuidade organizativa do Partido no tempo — são, portanto, órgãos permanentes, que acumulam experiência, profissionalizam tarefas, criam métodos e garantem que o Partido não recomece do zero a cada nova campanha.

Segundo, os Birôs não operam de forma informal ou dispersa: possuem estrutura orgânica interna, com funcionamento sistemático, quadros destacados, cronogramas, métodos próprios de planejamento, mecanismos de avaliação e capacidade de mobilização direta. O Birô não apenas orienta — ele executa, acompanha, distribui, avalia e responde ao Secretariado do Comitê Central com eficácia e responsabilidade política.

Terceiro, sua função não é apenas auxiliar, mas dirigir diretamente uma dimensão estratégica do Partido: a organização, a propaganda e as finanças não são áreas “laterais” ou “logísticas” — são trincheiras centrais da guerra de classes. Por isso, os Birôs devem gozar de autoridade orgânica para mobilizar quadros, propor diretrizes, descentralizar tarefas e assegurar a integração das diversas frentes sob um mesmo plano nacional.

Ao institucionalizar os Birôs como órgãos superiores do Partido, avançamos na construção de um Partido Comunista centralizado, cientificamente planejado e com capacidade de ação em todos os níveis do território nacional. Abandonamos o improviso e abraçamos a profissionalização revolucionária. Damos um passo além da tática, rumo à estrutura estratégica necessária para preparar, dirigir e vencer a luta socialista.

Uma pequena máquina, mas bem lubrificada, bem afinada e sabiamente dirigida, pode operar maravilhas. Os Birôs devem ser essa máquina: afinada, dirigente e disciplinada, a serviço do futuro da classe operária.

É hora do salto qualitativo nas finanças do Partido Comunista

Para um Partido Comunista que se pretende nacional, dirigente e profissionalizado, não basta proclamar a independência política — é preciso construí-la materialmente, inclusive naquilo que os oportunistas consideram “secundário”: a produção, comercialização e distribuição de seus próprios materiais. A edificação de uma Loja Nacional (Física e Online), dirigida pelo Birô Nacional de Finanças, é uma dessas tarefas estratégicas, e não pode ser improvisada como um bazar episódico, nem tratada como um negócio paralelo. Ela deve operar como um braço logístico, simbólico e econômico da revolução em marcha, sustentado por quadros, ciência e método.

Sua função, antes de tudo, é produzir recursos materiais para o Partido — mas não só isso. A Loja deve também cumprir um papel de agitação, propaganda, formação estética e disciplinamento político, oferecendo produtos que expressem os valores do socialismo científico, fortaleçam a identidade partidária, divulguem a teoria revolucionária e conectem militantes e simpatizantes a uma cultura política coerente com o futuro que queremos construir. Uma camiseta com a imagem de Manoel Lisboa, um pôster com uma citação de Stálin, uma caneca com o logotipo do Partido, um livreto de introdução ao marxismo — tudo isso é forma de luta e forma de organização.

A estrutura dessa Loja precisa operar com rigor organizativo, fluxo estável, acompanhamento técnico e divisão planejada do trabalho, como uma engrenagem firme — uma verdadeira engrenagem com sincronismo revolucionário, onde cada peça cumpre sua função com disciplina e eficiência.

Para isso, devemos construir quatro núcleos interdependentes, todos sob o controle político do Birô Nacional de Finanças:

1. Núcleos de Produção: responsável por organizar a fabricação direta dos materiais — camisetas, livros, jornais, adesivos, faixas, cartazes, chaveiros, bandeiras etc. Isso exige mobilização de estamparias próprias (locais e nacional), relação com gráficas confiáveis, controle de insumos, formação técnica de quadros e padronização de qualidade. Devem ser estabelecidos ciclos de produção trimestrais ou mensais, com metas quantitativas e qualitativas. Cada núcleo estadual deve estar ligado a esse centro, com autonomia operacional, mas obediência à linha política e visual nacional.

2. Núcleos de Logística e Distribuição: encarregado de armazenar, embalar, despachar e rastrear os produtos vendidos. É preciso organizar estoques regionais (minicentros logísticos), definir formas de entrega (parceiros, correios, entrega solidária entre militantes) e criar um sistema de rastreamento interno. A logística deve ter um calendário rotativo de envios, controle de perdas, reembalagens e uma base de dados de compradores — conectando a Loja à militância e ao público simpatizante.

3. Núcleos de Tecnologia e Dados: o cérebro técnico da operação. Esse núcleo deve desenvolver e manter o sistema online da Loja — site, catálogo, meios de pagamento (PIX, boleto, crédito etc.), canal de atendimento, área de apoio, banco de dados de clientes e relatórios automáticos de vendas. Aqui, devemos investir em engenharia de dados e automação política, utilizando linguagens como Python, SQL e R para organizar campanhas regionais, cruzar dados de vendas por estado, criar perfis de compradores recorrentes, prever estoques, planejar lançamentos e integrar o sistema a outras plataformas do Partido (jornal, editora, Escola Nacional de Formação). É possível, por exemplo, gerar relatórios automáticos que cruzem o número de leitores do jornal com os compradores da Loja, e então orientar campanhas específicas para fortalecer a fidelização política desses camaradas.

4. Núcleos de Comunicação e Mobilização: responsável por dar vida política à Loja. Não basta vender produtos — é preciso politizá-los. Cada lançamento deve ser acompanhado de campanhas organizadas nas redes sociais, com vídeos, textos, arte gráfica, depoimentos de militantes, conexões com datas históricas e ações simultâneas em diversas regiões. A Loja não é uma empresa — é uma máquina de difusão da cultura revolucionária, e seu conteúdo precisa ser tratado com estética, pedagogia e força simbólica. Esse núcleo também será responsável por mobilizar os “Amigos do Partido” para compra recorrente, patrocínio de ações específicas e cofinanciamento de produções (como edições especiais de livros, faixas para manifestações etc.).

Além desses núcleos operacionais, a Loja deve funcionar sob uma estrutura de controle mínimo padronizado, utilizando planilhas de custos, cálculo de ponto de equilíbrio, análises de margem, levantamento de necessidades de reposição e controle semanal de fluxo de caixa e relatórios mensais. Todos os dados devem estar acessíveis ao Birô Nacional de Finanças que se comunica diretamente ao Comitê Central que, por sua vez, direciona, manobra e centraliza localmente os Comitês Estaduais com base nesses informes, para garantir a transparência e a confiança entre os camaradas. A direção deve acompanhar e exigir prestação de contas, metas de produtividade e propostas de aprimoramento contínuo.

Mais do que um canal de vendas, a loja nacional deve funcionar como um laboratório de inteligência coletiva revolucionária. Ao reunir dados, talentos, ferramentas, quadros técnicos e militantes criadores, ela pode se tornar uma escola prática de administração comunista da produção, distribuição e cultura, um microcosmo do que será o futuro socialista. Cada campanha, cada faixa vendida, cada pacote enviado é uma lição de organização proletária. Devemos estimular, dentro dela, o espírito de inovação, de sistematização, de compartilhamento de experiências exitosas — por meio de encontros regulares entre os responsáveis regionais, tutorias, comissões técnicas e redes de apoio interno.

A Loja deve também integrar-se aos sistemas de campanhas locais, permitindo que núcleos estaduais e municipais proponham coleções próprias (com camisetas, adesivos ou cadernos de luta locais), desde que dentro da linha estética e política geral do Partido. Isso cria sentimento de pertencimento, descentraliza a ação e fortalece a identidade comunista em cada canto do país. É a aplicação prática da tese leninista: centralismo no plano político, iniciativa no plano tático.

Com tudo isso, superaremos definitivamente a lógica de improviso, a militância artesanal e a dependência de eventos pontuais para financiar a ação comunista. A Loja será uma usina revolucionária de produção ideológica, econômica e pedagógica. Como disse Marx no “18 de Brumário de Luís Bonaparte” (1852), “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem, nem nas circunstâncias que escolheram”. Cabe a nós, portanto, criar as condições para fazê-la com mais consciência, mais método e mais poder popular.

O salto qualitativo da Agitação e Propaganda — da gráfica à hegemonia revolucionária

O Partido que deseja dirigir a revolução não pode se contentar em ser um eco débil no ruído da sociedade burguesa. Ele precisa ser, no sentido leninista-stalinista mais pleno, um construtor de hegemonia. Isso significa mais do que disputar ideias — significa construir meios materiais permanentes e centralizados de difusão da linha política do proletariado, que atuem de forma organizada, disciplinada e articulada com a conjuntura. A agitação e propaganda, portanto, não é uma tarefa de apoio — é o coração político da ligação do Partido com as massas, o ponto de fusão entre teoria e prática, entre direção e base, entre vanguarda e povo.

A história dos grandes partidos comunistas ensina que não há revolução sem imprensa, gráfica, jornalismo e cultura sob controle do Partido. A experiência dos bolcheviques com o Iskra (A Centelha), das gráficas clandestinas de Stálin, dos albaneses com o Zëri i Popullit (A Voz do Povo), dos vietnamitas com as impressoras portáteis na selva, e hoje de partidos como o Emek Partisi (Partido do Trabalho) da Turquia, com seu jornal diário Evrensel Gazetesi (Universal), são provas concretas de que a comunicação não é um apêndice da política: é uma de suas formas mais superiores.

Dentro do Partido Comunista, há um debate cada vez mais maduro sobre a centralização e o controle integral de todo o processo produtivo da Agitação e Propaganda: desde o conteúdo, as imagens, a diagramação, até a impressão, a logística e a entrega do jornal A Verdade, da futura revista teórica e dos materiais gráficos do Partido. Esse debate precisa dar um salto — e o salto exige infraestrutura centralizada, gestão operativa e direção política clara. É chegada a hora de construir uma gráfica nacional do Partido.

Essa gráfica, dirigida pelo Birô Nacional de Agitação e Propaganda, subordinado ao Comitê Central, deve ser capaz de produzir em escala nacional o jornal A Verdade, com regularidade e qualidade. O objetivo deve ser a superação da periodicidade quinzenal e o avanço rumo à publicação diária, de segunda a sexta, com distribuição impressa e digital. Para isso, será necessário mobilizar quadros gráficos, redatores, revisores, diagramadores e operadores de máquinas — todos organizados segundo critérios de disciplina, produtividade e comprometimento político com a linha partidária. O jornal deve se tornar o órgão central da revolução, lido em todas as periferias, fábricas, universidades, feiras e escolas.

Além da edição principal, deve-se organizar suplementos internos, como:

– Um caderno quinzenal da juventude, produzido com e para a juventude popular e revolucionária, com linguagem própria, estética combativa e foco formativo.

– Um suplemento mensal das mulheres, que aprofunde as lutas femininas sob perspectiva marxista-leninista, divulgue as iniciativas das camaradas, resgate as heroínas da história proletária e contribua para a construção de uma verdadeira vanguarda do movimento de mulheres.

Mas o salto qualitativo exige mais. Precisamos lançar, enfim, uma revista teórica, científica, política e cultural do Partido, de publicação mensal, que seja rígida, disciplinada, formadora e orientadora, uma revista que oriente a ação nacional do Partido, registre sua intervenção na conjuntura, aprofunde as elaborações teóricas, combata desvios, atualize o marxismo-leninismo às condições brasileiras e internacionalistas. Essa revista será a voz pública da vida teórica do Partido e deve expressar a elevação política do Comitê Central e sua capacidade de centralização política e ideológica. Cada artigo, cada citação, cada editorial deve ser uma arma — e cada edição, um reflexo das contradições em movimento no país.

A gráfica nacional deve funcionar em interdependência dialética com a loja nacional, alimentando seu estoque com materiais próprios: cadernos, livros, cartazes, faixas, folhetos, calendários, pôsteres, panfletos, adesivos. Essa integração garante custo reduzido, qualidade uniforme, padronização política e circulação ampla. O que hoje é feito de maneira artesanal — dependendo de boas vontades isoladas, orçamentos improvisados e tiragens irregulares — deve ser convertido em um fluxo permanente de produção ideológica e material, controlado centralmente, mas articulado com as bases do Partido em cada canto do país.

A gráfica também deve servir como espaço de formação técnica e política, com camaradas aprendendo a operar máquinas, diagramar, editar, compor materiais — transformando o processo de produção gráfica em uma escola de organização revolucionária. Não apenas “produzir”, mas organizar a produção como forma de disciplinamento coletivo e formação de quadros técnicos comprometidos com o poder popular.

Ao lado da gráfica nacional, precisamos construir um estúdio nacional de agitação e propaganda audiovisual. Um centro técnico de produção de conteúdos visuais, sonoros e formativos: vídeos, podcasts, aulas da Escola Nacional de Formação, documentários populares, programas semanais, materiais de denúncia e agitação. Desse estúdio sairão também as campanhas eleitorais da Unidade Popular (UP), as imagens dos nossos candidatos, as entrevistas com os trabalhadores, os vídeos de formação tática e política. O estúdio deve abrigar equipamentos de qualidade, iluminação, microfones, câmeras, computadores, softwares e uma equipe permanente e profissional, capaz de transformar a linguagem audiovisual numa ferramenta de agitação política contínua e massiva.

Esse estúdio se articulará com uma rede nacional de fotógrafos, videomakers e agitadores visuais, distribuídos entre núcleos regionais, que atuarão com orientação direta do Birô, enviando imagens, cobrindo lutas, registrando eventos, produzindo conteúdos locais e alimentando um banco de imagens revolucionário — um acervo sistemático da luta do Partido e das massas trabalhadoras, com rigor, beleza e historicidade. Cada imagem será parte da nossa memória e da nossa ofensiva ideológica.

Toda grande transformação revolucionária nasce de contradições concretas. No Brasil, a crescente efervescência política, o refluxo das organizações tradicionais e o impulso espontâneo de criação cultural e ideológica entre setores combativos da juventude e da classe trabalhadora produziram, nos últimos anos, experiências valiosas na esfera da comunicação socialista. Estas iniciativas, embora dispersas, expressam a necessidade objetiva de um salto organizativo e ideológico: de um lado, revelam que há quadros e talentos disponíveis para a construção de um sistema de comunicação popular e revolucionário; de outro, demonstram que sem direção partidária, essas experiências tendem a se esgotar de alguma forma.

Dentro da vida concreta da militância comunista brasileira, algumas iniciativas já indicam caminhos para esse salto. A “Redes JAV”, surgida em São Paulo, é um exemplo notável de organização disciplinada de produtores locais — jornalistas, fotógrafos, redatores e designers — que passaram a colaborar com a Redação Nacional do jornal A Verdade, oferecendo formação técnica a militantes de base e canalizando a produção de conteúdo regional de forma alinhada com a linha nacional. Cursos de edição de vídeo, redação jornalística e diagramação têm servido como ferramentas práticas de politização e formação técnica coletiva, mostrando como o jornal pode ser ao mesmo tempo produto, escola e organização.

O Coletivo Soberana, por sua vez, apresenta um modelo de produção permanente de conteúdo revolucionário para a internet, operando em aliança orgânica com a Unidade Popular pelo Socialismo (UP). Sua atuação tem demonstrado a possibilidade técnica, estética e política de produzir vídeos, quadros, campanhas e transmissões ao vivo com regularidade, qualidade e impacto real. A criação de seu estúdio próprio de gravação, subordinado à sua linha política, é a prova de que uma estrutura audiovisual orgânica e disciplinada é possível — e urgente — para a construção partidária.

O Estúdio Reds, que realizou o documentário “O Que Fazer?” (2025), produzido sob uma concepção estética e militante, mostra que é possível conectar a linguagem cinematográfica com o debate revolucionário de maneira pedagógica, provocadora e bem executada, atingindo milhares de pessoas com um material de impacto. Já o Instituto Conhecimento Liberta (ICL), embora de base progressista e não marxista-leninista, demonstra a força de uma estrutura formativa e jornalística de alcance nacional, com múltiplos programas diários, videocasts, séries documentais e cursos. Ele provê a imagem de um jornalismo à esquerda com capacidade de massificação, ainda que careça de centralidade estratégica.

Todas essas experiências são dignas de reconhecimento, respeito e valorização. Elas fazem parte do acúmulo prático e simbólico necessário para a reorganização da esquerda brasileira. Elas demonstram que há sede de formação, vontade de comunicar, criatividade em estado latente. Mas também deixam claro que, enquanto essas experiências permanecerem fragmentadas, limitadas por territorialidade, por espontaneísmo ou pela ausência de direção comunista, elas não serão capazes de responder à exigência estratégica da luta de classes no Brasil atual.

É preciso avançar. E avançar significa ousadia. As experiências devem ser incorporadas, não como apêndices ou parceiros eventuais, mas como expressões embrionárias da tarefa maior do Partido Comunista: construir um sistema nacional de comunicação, propaganda e formação revolucionária sob direção única, disciplinada e estratégica, como parte orgânica do plano nacional do Partido para conquistar o poder.

O Partido deve ser capaz de absorver esses talentos, sistematizar suas experiências, nacionalizar seus métodos e ampliá-los com organização superior. Isso só será possível se houver uma concepção clara de que a comunicação é parte da luta pelo poder de Estado. Não se trata de “fortalecer projetos alternativos de esquerda”, mas de estabelecer a hegemonia ideológica, simbólica e cultural do proletariado brasileiro. Isso exige unidade estratégica, direção ideológica e aparato técnico permanente.

O jornal A Verdade deve deixar de ser apenas um produto editorial quinzenal, para se tornar um centro vivo de organização política e cultural, em torno do qual giram estúdios, gráficas, editoras, redes de militantes da imagem, da palavra, do som e da estética. A revista teórica do Partido deve ser o ponto culminante da reflexão comunista contemporânea, articulando teoria e prática com centralidade, orientação e profundidade.

A criação de uma gráfica nacional, um estúdio audiovisual completo, uma rede nacional de formadores técnicos e culturais e a ampliação disciplinada dos materiais de propaganda são tarefas imediatas. A gráfica deve alimentar a Loja; o estúdio deve alimentar a Escola Nacional de Formação; o jornal deve orientar todas essas instâncias. Cada fio desse tecido deve estar subordinado ao órgão central da agitação e propaganda, que, por sua vez, expressa a linha do Comitê Central do Partido.

Assim, poderemos enfim alcançar o objetivo de Lênin: ligar o Partido às massas por uma cadeia de fios invisíveis — jornais, vídeos, aulas, panfletos, transmissões, músicas, imagens, palavras de ordens, cartazes. Uma rede viva de comunicação proletária, operada por quadros conscientes, dirigida por uma estratégia clara, em função da grande tarefa histórica da nossa época: a superação do capitalismo e a construção do socialismo no Brasil.

A hegemonia não virá por espontaneidade. Ela deve ser organizada. E para organizá-la, é preciso que o Partido tome para si a tarefa de construir, com método, disciplina e convicção, a máquina viva da comunicação comunista.

Mas essa estrutura ainda é o mínimo — no futuro, o Partido deve estar preparado para assumir plenamente a produção de veículos de comunicação de massa: rádios populares, TVs, selos editoriais, canais audiovisuais profissionais, podcast de rede nacional. Essa cadeia de comando garante a coerência política, impede a fragmentação ideológica e constrói a hegemonia cultural da classe operária sobre a sociedade.

Um Partido Comunista sério não “atua na comunicação” — ele é um sistema de comunicação. Ele se conecta com as massas por uma cadeia invisível de fios ideológicos, simbólicos, visuais, afetivos e práticos. Cada jornal distribuído, cada vídeo compartilhado, cada cartaz colado, cada podcast ouvido, cada aula assistida — tudo isso é parte integral e necessária do acúmulo para o poder popular em forma de discurso, imagem e prática pedagógica.

Construir a gráfica e o estúdio é o passo necessário para preparar essa hegemonia através de aparelhos claros do Partido para a Agitação e Propaganda. Não se trata de um luxo — é o mínimo exigido para dirigir uma revolução.

Porque o comunismo não se faz apenas com armas e discursos. Se faz também com máquinas gráficas, microfones, arquivos, servidores, imagens e ideias. E, sobretudo, com uma vanguarda que saiba que toda forma de comunicação é, em última instância, forma de poder.

Terceira Parte: Conclusão política

Quadros adormecidos, potencial desperdiçado

Nenhuma revolução fracassa por falta de talento — ela fracassa, muitas vezes, por desperdício de talento, por má alocação de força viva, por subutilização da inteligência e da capacidade política e técnica de seus próprios quadros. Dentro do Partido Comunista, já existe um exército silencioso de militantes altamente capacitados — camaradas com conhecimento em administração, tecnologia, logística, produção gráfica, pedagogia, economia, programação, estatística, produção audiovisual, engenharia de dados, arte, design, trabalho comunitário, organização do trabalho, cultura popular e ciência. Mas quantos deles estão de fato sendo utilizados em tarefas que correspondam às suas capacidades? Quantos estão sendo desafiados e desenvolvidos? Quantos estão crescendo, e quantos estão sendo sufocados pela rotina?

Essa realidade exige uma crítica profunda e consequente. É necessário reconhecer que ainda persiste dentro do Partido uma tendência artesanal e rotineira, que, em nome da “multifuncionalidade militante”, termina por dissolver as especializações em um mar de tarefas urgentes e improvisadas, muitas vezes desconectadas de qualquer plano estratégico. Camaradas com vasto domínio técnico acabam presos à triagem de materiais, à gestão desordenada de tarefas locais, ao improviso constante — enquanto seus potenciais para a revolução permanecem adormecidos, drenados, subutilizados, quando não desmoralizados. Ao invés de elevar, muitas vezes rebaixamos nossos próprios quadros.

É necessário romper com esse ciclo de improviso, dispersão e mediocridade organizativa. Superar a lógica espontaneísta e desorganizada de “quem estiver disponível faz” e passar, com rigor comunista, à lógica revolucionária de “cada quadro no lugar certo, sob planejamento estratégico, acompanhamento político e formação contínua”. Isso não significa cair na rigidez mecanicista ou sufocar a flexibilidade operativa do Partido — pelo contrário: significa reconhecer que a revolução exige organização lógica (dialética) das forças humanas disponíveis, exige ciência do trabalho político, e exige respeito integral aos talentos que o Partido forma com suor e abnegação. Dar esse passo é realizar um salto qualitativo na vida interior do Partido, na forma como tratamos nossos quadros, como planejamos suas tarefas, como os educamos, desafiamos e desenvolvemos sob a bandeira do socialismo científico.

A subutilização de quadros é, em última instância, um desrespeito à máxima de Stálin: “os quadros decidem tudo”. Se decidem tudo, então devem ser tratados como o patrimônio vivo e insubstituível da revolução — não como engrenagens descartáveis. Um camarada com domínio em programação, redes de dados ou engenharia de software não pode ser tratado como “militante genérico” — ele deve ser integrado aos núcleos técnicos, mobilizado para desenvolver sistemas próprios do Partido, segurança digital, automação de tarefas, plataformas de formação e comunicação. Uma camarada com domínio editorial e sensibilidade literária não pode ser relegada à revisão de panfletos — ela deve ser integrada ao núcleo nacional de publicações, receber formação gráfica, atuar na construção teórica e estética do jornal. Um jovem artista popular, se bem orientado, pode transformar-se num agitador visual da revolução — desde que não se lhe imponha a repetição mecânica de tarefas, mas sim a criação dirigida, politizada e coletivamente organizada.

É aqui que devemos nos lembrar da fórmula mais elevada do comunismo, proclamada por Marx em “Crítica ao Programa de Gotha” (1875): “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”.

Essa máxima não é apenas um ideal para o futuro distante — ela deve começar a tomar forma no interior do Partido Comunista, hoje. Porque o Partido é, já agora, a forma embrionária da nova sociedade, a escola da nova humanidade. Aplicar essa máxima no trabalho organizativo significa que devemos conhecer as capacidades reais de cada militante, e prover, como organização, os meios políticos, técnicos e humanos para que essas capacidades se desenvolvam plenamente — não só no plano material, mas também espiritual, intelectual, emocional e cultural. O Partido deve ser o espaço onde os indivíduos se superam, não onde se consomem.

Por isso, é urgente que o Partido construa um mapeamento sistemático de seus quadros, com uma base de dados que contemple suas formações, aptidões técnicas, experiências profissionais, inclinações políticas, tempo disponível e trajetória militante. Esse levantamento — feito sob responsabilidade do Secretariado do Comitê Central e dos Birôs — deve ser atualizado regularmente, utilizado de forma estratégica e integrado ao Plano Nacional de Organização. Nenhum militante deve ser desperdiçado. Nenhuma habilidade deve ser esquecida. Nenhum talento deve apodrecer por falta de espaço político. Um Partido verdadeiramente revolucionário não tolera a estagnação de seus filhos — ele os eleva, os arma e os transforma em construtores conscientes do mundo novo.

A superação da lógica artesanal não é uma negação da abnegação voluntária — é a sua elevação à altura do nosso tempo. A revolução exige hoje não apenas sacrifício, mas organização científica do sacrifício, uma gestão comunista do tempo, da energia, do conhecimento e da criatividade militante. Isso também é comunismo: a organização dialética e coletiva das forças humanas em função da libertação universal.

Como dizia Aristóteles, “onde a excelência não é organizada, a mediocridade ocupa seu lugar” (Ética a Nicômaco). No Partido Comunista, não podemos permitir que a mediocridade, o improviso ou a rotina consumam o que há de melhor entre nós. Precisamos fazer de cada militante um quadro, e de cada quadro um dirigente em potencial, forjado na luta e reconhecido por sua entrega, mas também por sua capacidade.

Só com essa nova consciência organizativa poderemos passar à fase superior da construção partidária. Só assim deixaremos de ser um agrupamento voluntarista e nos tornaremos uma verdadeira organização nacional de vanguarda, capaz de dirigir, formar e vencer. Os quadros já existem — cabe a nós acordá-los, organizá-los e colocá-los a serviço da revolução socialista.

Ousar sonhar, ousar vencer: pelo espírito conspirador e criador da revolução comunista

Sem ousadia, não há Partido Comunista. Sem conspiração, não há revolução. Sem espírito criador, nenhum projeto histórico resiste à prova do tempo. E sem sonho — sonho concreto, orientado, férreo, disciplinado — não há porvir possível. A história exige de nós, agora, um salto qualitativo que não seja apenas técnico ou estrutural, mas também subjetivo, emocional, simbólico e moral: um salto de ousadia. Ousadia de sonhar com a vitória, de organizar para o impossível, de conspirar para a verdade, de caminhar com os olhos fixos na linha do horizonte, enquanto as mãos mergulham no barro da vida concreta.

Lênin, em “O Que Fazer? (1902), zombava da rigidez dos marxistas do tipo legalista e pragmático, daqueles que, incapazes de sonhar, matavam a política em nome da “ponderação”. Com ironia leninista, lembrava da passagem de Píssarev sobre a função vital do sonho para o trabalho criador, e escrevia:

“Se uma pessoa estivesse absolutamente privada da capacidade de sonhar assim, se não pudesse, de vez em quando, adiantar-se e contemplar em imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça entre suas mãos, eu não poderia de maneira alguma compreender que razão levaria o homem a iniciar e levar a seu termo vastos e penosos empreendimentos nas artes, nas ciências e na vida prática […] Quando existe um contato entre o sonho e a vida, quer dizer que tudo vai bem.”

Esse espírito sonhador e realista — a ousadia de imaginar com método e executar com disciplina — é o que precisamos recuperar nas fileiras do Partido Comunista. Não temos o direito de ser medíocres. Não temos o luxo de sermos cautelosos demais. Devemos pensar como conspiradores — não no sentido vulgar e policialesco da palavra, mas no sentido mais elevado: conspirar contra a ordem vigente, contra o conformismo, contra a ideologia dominante, contra os limites estreitos do possível imediato.

É preciso ousar organizar aparelhos complexos, permanentes, clandestinos e públicos ao mesmo tempo, capazes de minar os pilares da hegemonia burguesa. Ousadia para pensar um sistema nacional de agitação e propaganda interligado a um estúdio de produção, uma gráfica própria, uma rede de formação, um canal de distribuição ideológica, uma malha de colaboradores militantes, um banco de dados revolucionário. Tudo isso não como peças soltas, mas como partes de uma arquitetura conspiradora do novo poder.

Ousadia, ousadia, ousadia. Ousadia de fazer a revolução antes que ela seja tolerada. Ousadia de dizer ao povo que o comunismo não é só possível, mas necessário e urgente. Ousadia de construir um jornal diário, com suplementos para juventude e mulheres, enquanto a burguesia enterra suas próprias redações. Ousadia de fundar um estúdio, uma editora, uma gráfica, uma escola, uma loja, uma rede de agitação nacional. Ousadia de falar à massa como quem sabe para onde está indo — não mendigando atenção, mas assumindo o lugar de direção histórica da classe trabalhadora.

Essa ousadia exige o abandono definitivo da lógica artesanal. Não se constrói hegemonia com esforço isolado, com improviso, com dependência de talentos individuais. É preciso aparato, método, planejamento e audácia. E é aqui que o Partido Comunista deve se diferenciar de todos os agrupamentos de esquerda que permanecem presos às suas próprias limitações. Nosso papel é dirigir o conjunto da luta de classes, captar cada explosão local, cada insatisfação difusa, cada movimento subterrâneo de rebeldia — e subordiná-los à necessidade estratégica da tomada do poder.

As ferramentas para isso existem. Os quadros estão vivos. As ideias estão em fermentação. Mas falta o impulso. Falta o grito. Falta o gesto inaugural. E esse gesto precisa partir de nós. Como dizia Che Guevara, “a revolução é feita pelo homem, mas o homem deve se forjar revolucionariamente a cada dia”.

O Partido precisa assumir que não basta reagir: é preciso iniciar, provocar, dirigir e organizar. Deve ser o primeiro a propor, o primeiro a agir, o primeiro a estar nas ruas, o primeiro a chegar na fábrica, o primeiro a formar um novo quadro, o primeiro a ocupar um bairro, o primeiro a lançar um jornal, o primeiro a colocar sua bandeira em cada escola, em cada telhado de cada cidade.

A luta de classes no Brasil exige um Partido Comunista que não tenha medo de vencer. Que se proponha a governar, a tomar o poder, a destruir o velho Estado e erguer a nova sociedade. E isso começa pela ousadia. Pela conspiração paciente. Pela construção de uma estrutura que seja ao mesmo tempo oculta e visível, firme e flexível, disciplinada e inventiva.

Porque a hegemonia do proletariado não se constrói pedindo licença — ela se constrói invadindo o presente com a força organizada do futuro.

Os secretários do Partido — artífices da vitória

Ao longo deste ensaio, percorremos com método e paixão revolucionária a trilha das tarefas dos secretários do Partido Comunista: o Secretário de Organização, o de Agitação e Propaganda, e o de Finanças. Rechaçamos as calúnias lançadas pela burguesia, revelamos o conteúdo histórico e político de suas funções e apontamos as exigências do presente e do futuro. Estes camaradas, longe de serem “burocratas”, “fanáticos” ou “cofres ambulantes”, são — em cada núcleo, célula, coordenação ou comitê — a encarnação prática da linha política do Partido, os fios vivos que ligam a teoria à ação, a vanguarda ao povo, o programa à sua realização concreta. Além disso, propomos as tarefas necessárias para um verdadeiro salto qualitativo em todo o Partido Comunista.

Não há exagero, tampouco romantização, em afirmar que os secretários são os operários invisíveis da história, os artífices do poder popular que ainda está por vir. Como os bolcheviques que mantinham a disciplina sob a repressão czarista, como os comunistas vietnamitas que organizavam a propaganda no meio dos bombardeios, como os camaradas albaneses que mantiveram a ordem revolucionária mesmo cercados, ou como os companheiros cubanos que alfabetizaram um povo inteiro sob a mira do imperialismo — também hoje, aqui e agora, os secretários do Partido devem agir com a mesma consciência do dever histórico que recai sobre seus ombros.

“Os quadros decidem tudo”, ensinou Josef Stálin em 1935, e nunca essas palavras foram tão verdadeiras quanto no século 21. Mas os quadros não nascem prontos: são formados, acompanhados, temperados na luta e exigidos permanentemente, como o aço que precisa do fogo e da pressão para adquirir resistência. E quem os forja, os disciplina e os fortalece é, muitas vezes, o trabalho paciente e revolucionário do secretariado partidário. Não se trata apenas de cumprir tarefas — trata-se de construir sujeitos históricos.

Neste mundo em decomposição, onde reina o individualismo, a alienação e o niilismo, onde a juventude é empurrada ao desespero e os trabalhadores à servidão moderna, o Partido Comunista precisa ser um farol — e seus secretários, os que mantêm a chama acesa. A tarefa que lhes cabe é monumental: manter coesa a organização, formar quadros, garantir os meios materiais da luta, educar as massas, romper o cerco ideológico da burguesia e preparar a ofensiva socialista. E fazê-lo com humildade, coragem, ousadia, inteligência, com espírito coletivo e sem jamais ceder ao cansaço ou ao sectarismo.

O futuro da revolução será também o fruto da qualidade dos nossos secretários. O Partido que queremos — centralizado, combativo, enraizado, disciplinado e amado pelas massas — não existirá por geração espontânea, mas será o resultado de milhares de reuniões organizadas, jornais distribuídos, cotas pagas, panfletos colados, escolas realizadas, debates animados e tarefas cumpridas. Cada militante forjado, cada célula fortalecida, cada centavo coletado, cada linha escrita — tudo isso é parte da lenta e paciente arte de construir o poder popular.

Este ensaio é, portanto, mais que uma análise: é um chamado. Um chamado à responsabilidade, à elevação do nível político e técnico do trabalho de base, à formação de uma nova geração de secretários revolucionários à altura de seu tempo. Secretários que compreendam que sua tarefa não é pessoal, mas coletiva; não é de um dia, mas de uma época; não é para o ego, mas para a história.

Que a nossa geração de comunistas seja digna do futuro pelo qual luta. Que os secretários do Partido sejam, hoje e sempre, as sentinelas conscientes do novo mundo que brota no seio do velho. E que o nome “secretário” não seja sinônimo de rotina ou papelada, mas de dignidade, audácia e direção revolucionária.

Porque sim, camaradas — os quadros decidem tudo!