Contra a cristianização do Socialismo Científico — um chamado para o retorno ao Materialismo Histórico e Dialético
Uma crítica fraterna à cristianização do marxismo-leninismo emulados pelos artigos do historiador José Levino, entre eles a historieta “Jesus de Nazaré, o Filho do Carpinteiro”, presente no jornal A Verdade, edição 234, dezembro de 2021.
Introdução
Publicada em
dezembro de 2021 no jornal A Verdade, a matéria intitulada “Jesus de Nazaré, o
Filho do Carpinteiro”, assinada pelo historiador José Levino, propõe-se a
dialogar com os setores cristãos populares em torno de uma figura central da
religiosidade ocidental: Jesus Cristo. O intento de buscar pontes com o povo
religioso não é, em si, condenável — ao contrário, é necessário que o Partido
compreenda a totalidade da vida espiritual e cultural das massas para melhor
orientá-las em direção à emancipação econômica e social. No entanto, é
justamente por essa responsabilidade política e teórica que devemos tomar
cuidado com os limites e perigos desse diálogo quando conduzido fora dos marcos
do materialismo histórico e dialético.
Não nos enganemos: a
necessidade tática de dialogar com o povo religioso não pode — em hipótese
alguma — corromper a base teórica e estratégica do marxismo-leninismo. É
correto que o Partido se aproxime das massas crentes, compreendendo sua
cultura, sua linguagem e seus valores — inclusive religiosos — pois não
partimos de abstrações, mas da realidade concreta viva do povo. Assim como os
bolcheviques dialogavam com camponeses ortodoxos russos sem fazer concessões ao
idealismo religioso, também devemos nós saber nos dirigir ao povo cristão com
firmeza teórica e sensibilidade tática.
Mas aqui reside o
fio da navalha: flexibilidade tática não pode significar capitulação
ideológica. A tentativa de revestir a figura de Jesus com traços
revolucionários ou atribuir ao cristianismo um conteúdo comunista não é uma
ponte para o socialismo, mas uma ponte para o ecletismo e o revisionismo.
Rebaixar o marxismo ao nível da fé é renunciar ao seu papel histórico como
ciência da revolução proletária. O Partido pode — e deve — dialogar com
crentes, mas nunca deve pensar como crente, agir como crente, nem justificar a
fé como se fosse ciência.
A história nos
mostrou tragicamente onde leva o abandono dos princípios. O eurocomunismo, o
reformismo latino-americano e até setores da esquerda católica terminaram
servindo de colchão amortecedor entre o povo e a revolução, convertendo-se em
instrumentos de domesticação das massas. Se queremos libertar o povo,
precisamos fazê-lo não alimentando suas ilusões, mas ajudando-o a superá-las. A
consciência de classe não floresce no altar, mas na luta. Por isso,
reafirmamos: o Partido não deve negar o direito individual de cada pessoa de
professar a sua religião a nível de Estado, nem ofender os crentes
individualmente — mas deve, sempre, superar a religião pela ciência, pela
organização e pela ação revolucionária consciente.
O artigo de Levino,
embora movido por intenções solidárias, incorre em diversos erros teóricos e
históricos de grave monta, que precisam ser corrigidos com franqueza camarada.
Ao substituir a análise concreta da história do cristianismo por um elogio à suposta
radicalidade social do “Nazareno”, o texto abandona os fundamentos do
marxismo-leninismo, substituindo-os por uma espécie de “teologia cristã de
esquerda”, que, embora se oponha à Teologia da Prosperidade e à extrema-direita,
termina por desarmar ideologicamente o proletariado ao mistificar a realidade e
moralizar a luta de classes.
Este tipo de
interpretação — que glorifica as práticas das comunidades primitivas cristãs
como exemplos de “comunismo” e tenta transformar Jesus numa figura
revolucionária — não apenas falseia a história, como também reconcilia os
oprimidos com a ideologia religiosa dominante, mesmo que numa versão
progressista. Isso é contrário à tarefa estratégica do Partido Comunista:
elevar a consciência das massas do terreno da fé para o terreno da ciência, da
passividade moral para a ação revolucionária.
Por isso, escrevemos
esta crítica com espírito de combate, mas também com profundo respeito ao
esforço teórico daqueles que compõem as fileiras do nosso campo político. Nosso
objetivo não é desqualificar pessoas, mas fortalecer o papel da imprensa comunista
como instrumento de esclarecimento e formação ideológica, à altura dos combates
do nosso tempo.
É preciso, portanto,
fazer um chamado: um retorno ao materialismo histórico e dialético! Retorno à
análise científica da religião como fenômeno social, às origens reais do
cristianismo, à crítica das formas ideológicas que enfeitiçam as massas e
obscurecem a luta de classes. Retorno à clareza estratégica de Marx, Engels,
Lênin, Stálin e Enver Hoxha, que jamais confundiram as necessidades táticas da
época com conciliação ideológica.
Nos parágrafos
seguintes, faremos uma crítica ponto a ponto do artigo de José Levino, com base
na teoria científica do marxismo-leninismo, para que o jornal A Verdade possa
se fortalecer, depurar-se de formulações idealistas e reafirmar sua posição
enquanto veículo da luta ideológica do proletariado. Nossa crítica não é para
destruir, mas para nos fazer superar nossas debilidades teóricas e reforçar a
necessidade do olhar filosófico rigoroso dos processos históricos, inclusive
aqueles sacralizados pela religião e pela teologia.
A falsificação das origens
Logo no início de seu artigo, José Levino abre mão do rigor científico ao
se apoiar em uma narrativa biblicamente estruturada, tratando-a como se fosse
história real. Ele escreve: “Os hebreus eram, em sua origem, um povo asiático
nômade, que exercia a atividade pastoril, e se dividia em comunidades tribais.
Nelas, não havia propriedade privada, os bens produzidos pertenciam a todos,
num regime de comunismo primitivo”.
Essa afirmação, à primeira vista inofensiva ou até progressista, está
assentada em um grave equívoco teórico: confundir mito com história, e moral
religiosa com estrutura socioeconômica real. É um exemplo clássico do que
Engels chamava de “anacronismo ideológico”, onde se projetam categorias
modernas (como “comunismo”) sobre períodos históricos arcaicos a partir de
fontes não críticas.
A arqueologia e a história crítica modernas, especialmente a obra de
Mario Liverani, “Para
Além da Bíblia: História Antiga de Israel” (2008), demonstram que a
narrativa bíblica da origem do povo hebreu — pastores nômades que migraram para
o Egito, sofreram opressão e depois retornaram sob a liderança de Moisés — não
possui qualquer respaldo arqueológico ou documental. Não há registro egípcio,
hebraico ou cananeu que comprove a existência de Moisés, nem da travessia do
deserto por centenas de milhares de pessoas, nem da chamada “conquista de Canaã”.
O Êxodo é um mito fundador, não um fato histórico. E como todo mito
fundador, sua função é construir uma identidade religiosa e nacional, não
relatar a realidade dos acontecimentos. Esse mito foi escrito séculos depois
dos supostos acontecimentos, num contexto de centralização monolátrica do culto
em Jerusalém e disputa contra outras práticas religiosas politeístas locais. Ao
reproduzir esse mito como “história dos hebreus”, o artigo de Levino incorre
num grave erro metodológico, típico do idealismo histórico, que o marxismo
combate desde suas origens.
Além de ser um erro metodológico grave confundir mito fundador com fato
histórico, é ainda mais danoso projetar sobre o Antigo Testamento a ideia de um
comunismo primitivo, como se aquelas comunidades hebraicas tivessem vivido sob
relações de igualdade, coletividade e ausência de propriedade. Isso não apenas
distorce a teoria marxista, como também branqueia o conteúdo opressor e
escravista da própria Bíblia.
Desde os primeiros livros da Bíblia — especialmente o Êxodo, o Levítico e o Deuteronômio — encontramos
instruções explícitas sobre como manter, explorar e punir escravos. O Antigo
Testamento é uma legitimação jurídica da sociedade patriarcal e escravista. A
título de exemplo:
“Quanto aos escravos e escravas que
vierdes a ter, serão das nações que estão ao redor de vós; deles comprareis
escravos e escravas. Também os tomareis dentre os filhos dos forasteiros que
peregrinam entre vós; deles, e das suas famílias que estiverem convosco, que
nascerem na vossa terra; e vos serão por possessão. E os deixareis por herança
para vossos filhos depois de vós, para herdarem como possessão.” (Levítico 25:44-46)
“Se alguém ferir a seu escravo ou a
sua escrava com uma vara, e este morrer debaixo da sua mão, será punido; porém,
se sobreviver por um ou dois dias, não será punido, porque é propriedade sua.”
(Êxodo 21:20-21)
O livro de Êxodo 21:2-6 detalha como um
hebreu pode manter um compatriota como escravo por seis anos, e perpetuar sua
servidão caso ele “ame” seu senhor e sua mulher e aceite ser marcado com uma
ferramenta de metal aquecida na orelha — uma verdadeira domesticação ideológica
da escravidão.
Esses trechos — e há muitos outros — não são exceções isoladas, mas
normas legais inseridas num código religioso e civil. Isso evidencia que as
sociedades hebraicas bíblicas eram profundamente estruturadas em torno da
escravidão, da hierarquia patriarcal, da guerra e da exclusão étnica. Elas não
conheciam o comunismo primitivo há muito tempo, mas sim uma forma primitiva de
Estado teocrático escravista, onde os homens livres possuíam escravos, mulheres,
animais e filhos como propriedades.
Portanto, ao afirmar que “os hebreus viviam num regime de comunismo
primitivo”, o artigo de Levino rebaixa o marxismo a um misticismo romântico,
onde o comunismo deixa de ser uma estrutura material concreta e passa a ser uma
espécie de moral da partilha — como se bastasse não ser ganancioso para se ser
comunista. Isso é um desserviço à ciência revolucionária e alimenta a confusão
ideológica que impede a verdadeira consciência emancipadora de classe.
Como bem disse Engels em “A
Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado” (1884), o comunismo
primitivo se deu antes da formação do Estado e da religião organizada, e sua
superação deu origem às primeiras formas de dominação de classe. A religião
bíblica, por sua vez, é a ideologia que legitima essa transição — não a sua
superação.
Por isso, não podemos admitir que uma publicação revolucionária trate os
textos bíblicos como fonte de práticas comunistas. Isso equivale a sugerir que
os “Códigos de
Hamurabi” ou as “Leis das Doze
Tábuas” também poderiam servir de inspiração ao socialismo, desde que se
tirem deles lições morais isoladas. A crítica marxista da religião não é uma
crítica a “maus padres” ou “falsos cristãos”, mas uma crítica ao papel social
da religião como ideologia da classe dominante, mesmo quando esta fala de
partilha ou compaixão.
Além disso, os hebreus não eram um povo à parte, como sugere a tradição
bíblica. A arqueologia demonstra que os chamados “israelitas” eram parte
integrante da população cananeia, com culturas interligadas, deuses semelhantes
e práticas comuns. Não há evidência de uma migração externa em massa. O que
houve foi uma diferenciação interna dentro de Canaã entre centros urbanos e
aldeias agrícolas das montanhas, o que levou ao surgimento de elites locais e
posterior unificação política. Em outras palavras: os “hebreus” não vieram do
Egito — eles eram e sempre foram cananeus, tal qual os atuais palestinos. O
relato do Êxodo é uma ficção política criada tardiamente para justificar a
superioridade de uma linhagem sacerdotal e construir coesão ideológica.
Ao utilizar essas narrativas como base para defender uma suposta “radicalidade
original” do cristianismo, o autor não apenas reproduz a lógica interna da
teologia religiosa, como rebaixa o marxismo a uma teologia de sinal trocado. Ao
invés de utilizar a crítica da religião como ferramenta de emancipação social,
ele a utiliza como escada para reinterpretar religiosamente a revolução,
invertendo a hierarquia entre ciência e fé. O método marxista, como ensinou Marx
e Engels em “A
Ideologia Alemã” (1846):
“Totalmente ao contrário da filosofia
alemã, que desce do céu à terra, aqui se eleva da terra ao céu. Quer dizer, não
se parte daquilo que os homens dizem, imaginam ou representam, tampouco dos
homens pensados, imaginados e representados para, a partir daí, chegar aos
homens de carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos e, a partir de seu
processo de vida real, expõe-se também o desenvolvimento dos reflexos
ideológicos e dos ecos desse processo de vida. Também as formações nebulosas na
cabeça dos homens são sublimações necessárias de seu processo de vida material,
processo empiricamente constatável e ligado a pressupostos materiais. A moral,
a religião, a metafísica e qualquer outra ideologia, bem como as formas de
consciência a elas correspondentes, são privados, aqui, da aparência de
autonomia que até então possuíam. Não têm história, nem desenvolvimento; mas os
homens, ao desenvolverem sua produção e seu intercâmbio materiais, transformam
também, com esta sua realidade, seu pensar e os produtos de seu pensar. Não é a
consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. No
primeiro modo de considerar as coisas, parte-se da consciência como do
indivíduo vivo; no segundo, que corresponde à vida real, parte-se dos próprios
indivíduos reais, vivos, e se considera a consciência apenas como sua
consciência.”
A fé no Êxodo não é ponto de partida para a análise histórica, e sim
objeto de crítica e demolição teórica. Quem quiser dialogar com os cristãos
deve fazê-lo com franqueza, demonstrando que a libertação não virá do deserto
simbólico prometido por mitos, mas da organização consciente da classe operária,
com estratégia e táticas definidos cientificamente de acordo com as
necessidades historicamente determinadas pela vida, não pela fé.
Essa é a nossa tarefa concreta: conquistar as massas para os ideais do socialismo
científico. Isso implica um estilo de trabalho árduo, como aquele que sempre
caracterizou os bolcheviques nos períodos do czarismo, da Revolução de Outubro,
da Guerra Civil, a NEP e da difícil, porém heroica, etapa dos planos
quinquenais de industrialização e coletivização. É uma medida imperativa para
enraizar o Partido, mais uma vez, de maneira orgânica entre as massas
populares. Stálin insistia constantemente que os comunistas deviam ser
trabalhadores dedicados, cultos, disciplinados, e capazes de contribuir
positivamente para a produção material e para a construção da sociedade
comunista.
Segundo o historiador Yuri Zhukov, na obra “Um
Stálin Diferente: Reformas Políticas da URSS em 1933-1937” (2003), Stálin
deixa bem claro que os comunistas devem conquistar as massas para as posições
do marxismo-leninismo sem rebaixar ou ressignificar nossos princípios e que,
caso não fossemos capazes de conquistar as massas sob esses critérios, isso
seria uma derrota de responsabilidade nossa: “Se tens medo dos lobos, não
entres na floresta [...] Se o povo, em algum momento, se deixa seduzir por
essas forças hostis, isso apenas revelará que o nosso trabalho de agitação e
propaganda está mal organizado — e, nesse caso, merecemos a derrota”.
O mito dos essênios e a falsificação da
resistência ao império
Diz o artigo: “Existiam, ainda nas aldeias, os essênios, movimento de camponeses
pobres que nunca abandonaram a vida comunitária. Eles moravam nas aldeias, não
utilizavam a terra para fins comerciais, tirando dela apenas o necessário para
a subsistência. Viviam como irmãos. Seu princípio maior era o amor ao próximo”.
A idealização dos essênios como “camponeses pobres vivendo em comunhão”
revela mais uma vez uma abordagem moralizante, superficial e, sobretudo,
anticientífica da história social judaica no período romano. Aqui, a narrativa
ignora o que os estudos históricos já demonstraram há décadas: os essênios não
eram um “movimento de base popular”, mas uma seita aristocrática, ascética e
profundamente mística, que se afastava da sociedade para aguardar o fim dos
tempos e a restauração messiânica.
Sua comunidade mais conhecida, em Qumran, às margens do Mar Morto,
revelada com a descoberta dos Manuscritos nos anos 1940-1950, não era uma “comunidade
de partilha igualitária” no sentido social e político marxista. Era uma ordem
monástica pré-cristã, com rígidas hierarquias internas, práticas de exclusão,
rituais de purificação constantes e culto apocalíptico. Suas regras de
comunidade e textos encontrados (como o “Regra da Comunidade” e o “Rolo da
Guerra”) mostram uma mentalidade profundamente religiosa e doutrinária — nada para
nos inspirar enquanto revolucionários de têmpera bolchevique, com uma visão que
Emmanuil Kazakevich descreveu como “uma visão de mundo sóbria, científica,
desprovida de misticismo, porém não isenta de entusiasmo”.
A tentativa de associar Jesus aos essênios, embora recorrente em
narrativas romanescas e pseudo-históricas sobre a “vida secreta do Nazareno”,
não tem fundamento sólido nem mesmo entre os historiadores acadêmicos sérios. É
apenas uma especulação sem nenhum fundamento histórico. O Novo Testamento não
faz referência direta a eles, e os paralelos entre suas práticas e as de Jesus
são circunstanciais e conjecturais — utilizados, quase sempre, por autores que
buscam “purificar” a imagem de Cristo e vinculá-la a ideais progressistas
modernos. Isso é um exercício de projeção ideológica e não de análise
histórica.
Ao lado disso, o artigo faz outra grave distorção: “Surge a exploração do
homem pelo homem [...] com a dominação assíria, babilônica, macedônica e romana”.
Essa formulação encobre um fato histórico fundamental: a exploração do
homem pelo homem já estava presente entre os hebreus muito antes da chegada de
qualquer império estrangeiro. As sociedades israelitas e judaicas — desde seus
primeiros registros bíblicos — eram comunidades profundamente escravistas,
misóginas, patriarcais e violentas. É uma falsificação ideológica retratá-los
como um povo pacífico, que vivia sob o comunismo primitivo, vítima dos grandes
impérios.
A Bíblia está repleta de passagens que exaltam a guerra, o massacre e a
dominação violenta sobre outros povos, sempre legitimados em nome de Yahewh. Um
exemplo brutal encontramos em Oseias 13:16: “Samaria
levará sua culpa, porque se rebelou contra o seu Deus. Eles cairão à espada;
seus filhos serão despedaçados, e suas mulheres grávidas serão abertas ao meio”.
Mais ainda, em 1 Samuel 15:2-3 a violência
das “ordens divinas” (isto é, dos sacerdotes) é explícita: “Assim diz o Senhor
dos Exércitos: Eu me recordei do que fez Amaleque a Israel; como se lhe opôs no
caminho, quando subia do Egito. Vai, pois, agora e fere a Amaleque; e destrói
totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem
até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até às ovelhas,
e desde os camelos até aos jumentos”.
Estas passagens — assim como dezenas de outras — mostra que a violência
não é um acidente nas escrituras, mas um elemento central da sua ideologia de
dominação teocrática. O povo hebreu, longe de ser uma sociedade igualitária e
de partilha, desenvolveu estruturas de propriedade privada, escravidão
legalizada, centralização do culto e opressão sobre minorias internas e povos
vizinhos. Já no período da monarquia unificada, com Davi e Salomão, havia uma
elite urbana proprietária, trabalhadores escravos e uma casta sacerdotal que
controlava o aparato religioso do templo.
Portanto, a exploração não “surgiu com os impérios estrangeiros”, mas foi
desenvolvida internamente, com plena participação das elites locais e sob a
legitimação da religião. Os romanos não trouxeram o jugo da exploração do homem
pelo homem — apenas se integraram a uma estrutura social de exploração
pré-existente, da qual fariseus e saduceus eram beneficiários, sim, mas que já
vinha sendo construída por séculos.
Ignorar isso é inverter a realidade: transformar opressores locais em
vítimas e apresentar estruturas teocráticas opressoras como proto-comunidades
de justiça. O marxismo-leninismo nos ensina a procurar a estrutura de classe
sob os véus da ideologia religiosa. Não nos cabe repetir essas narrativas
piedosas — mas sim desvendá-las, criticá-las e superá-las.
As três fontes do cristianismo?
Escreve José Levino: “Morando numa aldeia, Nazaré, conheceu os essênios,
com quem aprendeu o desapego às riquezas, partilha dos bens, amor ao próximo,
vida coletiva. Com os estoicos, identificou-se com o apego à verdade [...] e a
serenidade em qualquer circunstância. [...] Assim, as três fontes constitutivas
do cristianismo foram: a prática dos essênios, a filosofia dos estoicos e a
religião dos profetas hebreus. A isso, Jesus acrescentou uma espiritualidade
mais profunda que a de todos eles”.
Essa construção, além de especulativa, não possui qualquer base
documental séria. Não existe nenhuma evidência arqueológica ou textual que
afirme que Jesus teve contato direto com os essênios, muito menos com a
filosofia estoica, nem mesmo na própria Bíblia. O autor, aqui, mistura versos
do Novo Testamento — descontextualizados e interpretados teologicamente — com
projeções modernas, criando uma figura de Jesus como um “intelectual do povo”
que sintetiza correntes filosóficas e práticas religiosas como se fosse um “Lênin
da Galileia”. Isso não é história: é historieta ficcional doutrinária de
esquerda cristã.
A frase “a verdade vos libertará”, retirada de João 8:32, é aqui
arrancada de seu contexto místico e religioso — onde “a verdade” é a própria
revelação de Cristo como o Messias enviado por Deus — e transformada em uma
divisa racionalista. Esse tipo de uso ideológico de citações bíblicas é uma
tática apologética: manipular versículos isolados para construir uma narrativa
coerente com as ideias modernas do autor. Mas o que há, de fato, nos evangelhos
é um discurso centrado na fé, no reino dos céus, na submissão a Deus e no juízo
final — e não na ação transformadora revolucionária consciente da realidade
social.
Além disso, essa tentativa de construir uma tríade “essênios–estoicos–profetas”
como “as fontes constitutivas do cristianismo” é uma apropriação completamente
distorcida da tese clássica de Lênin em “As três
fontes e as três partes constitutivas do marxismo” (1913). No texto de
Lênin, as fontes do marxismo são raízes históricas reais, verificáveis e
materiais: a filosofia clássica alemã, a economia política inglesa e o
socialismo francês — todas fundamentadas em desenvolvimento histórico objetivo,
não em fé ou moral. É necessário, ainda, destacar que Lênin faz uma crítica
demolidora à religião neste artigo: “Por isso, os inimigos da democracia
tentavam com todas as suas forças ‘refutar’, desacreditar e caluniar o
materialismo e defendiam as diversas formas do idealismo filosófico, que se
reduz sempre, de um modo ou de outro, à defesa ou ao apoio da religião. Marx e
Engels defenderam resolutamente o materialismo filosófico, e explicaram
repetidas vezes quão profundamente errado era tudo quanto fosse desviar-se
dele. Onde as suas opiniões aparecem expostas com maior clareza e pormenor é
nas obras de Engels ‘Ludwig
Feuerbach’ e ‘Anti-Dühring’,
as quais — da mesma forma que o ‘Manifesto
do Partido Comunista’ — são os livros de cabeceira de todo o operário
consciente”.
Comparar isso com a alegada “espiritualidade superior” de Jesus é uma
ofensa teórica à lógica do materialismo dialético. Aqui, Levino substitui o
rigor da análise científica por uma tentativa de dar respeitabilidade teórica a
um mito religioso. Jesus nunca estruturou o cristianismo. Jesus era (e não há
prova nenhuma de sua existência verídica) um judeu apocalíptico marginal,
inserido no judaísmo do Segundo Templo. O cristianismo enquanto doutrina
organizada nasce após sua morte, anos depois, com o trabalho ideológico de
Paulo de Tarso, que sistematiza a nova religião para alcançar os gentios (não
judeus) e romper com as práticas judaicas tradicionais, estabelecendo:
- A obediência
cega às autoridades como vontade divina (Romanos 13);
- O reforço da
escravidão como relação legítima e necessária (Efésios 6:5, Colossenses 3:22);
- O silenciamento
das mulheres nas assembleias (1 Coríntios 14:34);
- O apelo à resignação, à fé cega e à espera da segunda vinda do Messias.
Ou seja, Paulo não é um apóstolo da libertação — é o arquiteto da
disciplina social cristã. Sua teologia reforça a submissão, o patriarcado, a
espiritualidade desmobilizadora e o poder sacerdotal. Toda tentativa de “ressignificá-lo”
como progressista é uma violência contra a verdade histórica.
Ademais, essa construção de Jesus como alguém que “mudou de estratégia”,
que “desistiu da luta política para evangelizar os corações” é também uma historieta,
uma narrativa de fantasia: não há qualquer evidência histórica concreta de que
Jesus tivesse um plano político estruturado, nem uma mudança consciente de
tática. Isso é imposição de sentido a um personagem mal documentado, com o
objetivo de apresentá-lo como uma “consciência superior”, um “gênio estratégico”,
moldada aos gostos de um socialismo cristianizado.
É preciso dizer com todas as letras: Jesus não fundou o cristianismo. Ele
pregou dentro do judaísmo, esperava a vinda imediata do Reino de Deus, e todas
as ideias estruturadas do cristianismo moderno — salvação pela fé, redenção
pelo sangue, segunda vinda, hierarquia eclesiástica — são invenções paulinas e
patrísticas. E são essas ideias que, posteriormente, serão incorporadas pelo
Império Romano, transformadas em doutrina de Estado e utilizadas por séculos
para justificar opressão, guerra e dominação colonial.
Logo, a tentativa de reinventar o cristianismo como doutrina
revolucionária a partir de uma analogia forçada com o marxismo é não apenas
inútil, mas profundamente perigosa. Ela desvia o proletariado do caminho da
ciência para o caminho da fé. E pior: desarma ideologicamente a classe
trabalhadora, confunde ideologicamente nossos quadros entre o que é história,
ciência e fé ao substituir a luta contra as estruturas por um apelo moral
individual através da apologética e da teologia.
A romantização das comunidades cristãs:
o pauperismo como doutrina
Escreve Levino: “Estas comunidades praticavam o comunismo primitivo dos
essênios: ‘Vendiam tudo o que tinham, colocavam em comum, e não havia
necessitados entre eles’. Eram comunidades autônomas, não havia centralização”.
Mais uma vez, o autor escorrega da história para a historieta teológica, mascarada
de análise social. A idealização das chamadas “comunidades cristãs primitivas”
como experiências de comunismo é uma distorção teórica inadmissível para um
marxista-leninista. Essas comunidades não foram organizações de classe, nem
prefiguração de um poder popular — foram, desde sua origem, estruturas
religiosas de submissão, guiadas por apóstolos, presbíteros e evangelistas que
centralizavam o conteúdo da fé, o controle dos costumes e a obediência moral ao
divino.
Não havia centralização? Claro que havia — a centralização da fé como
critério absoluto de conduta, e a autoridade doutrinária que estabelecia o que
era “pecado” e o que era “salvação”. A partilha entre pobres, nesses grupos,
não era produto da crítica ao sistema de exploração — era o resultado da espera
apocalíptica do fim do mundo. Como mostram estudiosos como Bart Ehrman, John
Dominic Crossan e Gerd Lüdemann, as primeiras comunidades cristãs acreditavam
que Jesus retornaria “em breve”, dentro da própria geração dos apóstolos,
porque ele mesmo tinha prometido isso em Mateus 16:28 — algo que
nunca aconteceu, exatamente porque se trata de um mito religioso. A renúncia
aos bens não era projeto revolucionário: era sacrifício escatológico.
A moral cristã da pobreza — que Levino elogia ao citar as supostas
comunidades de partilha dos Atos dos Apóstolos — não é uma moral de libertação,
mas de contenção. Ao invés de mobilizar os pobres para destruir o mundo que os
oprime, ela os ensina a aceitar sua miséria como um “dote espiritual”, uma
preparação para o Reino dos Céus vindo ali no horizonte. Isso não é por acaso,
Jesus teria mentido dizendo que voltaria ainda naquela geração de apóstolos.
Como bem destacou Friedrich Engels em sua obra “Contribuição para a História
do Cristianismo Primitivo“ (1895):
“A lenda do cristianismo nascido
integralmente do judaísmo, partindo da Palestina para conquistar o mundo com
uma dogmática e uma ética traçadas nas suas grandes linhas, tornou-se
impossível depois de Bruno Bauer [...] O cristianismo, tal como foi elevado à
categoria de religião de Estado por Constantino, é o mais autêntico produto do
mundo greco-romano.”
Ou seja, o cristianismo não surgiu como religião de libertação, mas como
produto ideológico adaptado às necessidades do Império. Suas raízes estão na
fusão entre elementos judaicos apocalípticos e a moral da resignação e do
dever. A glorificação da pobreza é uma operação ideológica: o mundo
greco-romano em crise precisava que os pobres se resignassem. E a nova religião
fez isso com perfeição.
Engels ainda nos alerta sobre o limite da crítica teológica progressista
(como a da escola de Tübingen), que se esforça para “salvar o que pode ser
salvo” da tradição cristã. O que estamos assistindo no artigo de Levino é
justamente isso: um esforço para preservar o cristianismo como símbolo de
bondade popular, mesmo que às custas da verdade histórica e da ciência. Mas,
como diz Engels, isso só pode “vegetar nas faculdades teológicas e no espírito
de quem quer conservar a religião para o povo — mesmo à custa da ciência”.
O marxismo não tem por objetivo “purificar” a religião ou recuperar seu
suposto conteúdo humanista. O objetivo do marxismo é superar a religião — não
no campo da repressão, mas no campo da consciência, substituindo a fé pela
ciência, a caridade pela justiça social, a salvação pela revolução. Por isso,
não há espaço para sentimentalismo teológico no seio do Partido Comunista. Como
dizia
Marx: “A crítica da religião é a premissa de toda crítica”.
Esta é a essência da crítica de Marx quando afirma
que a religião é “o suspiro da criatura oprimida”: ela consola ao invés de
libertar. A verdadeira libertação começa quando a humanidade rejeita a fome
como destino e afirma: “De cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo
suas necessidades” — uma fórmula material, concreta, revolucionária, e não um
apelo à renúncia ou ao sacrifício. A luta pelo comunismo não é a sacralização
da miséria, mas a negação objetiva da miséria.
Por isso, precisamos denunciar a moral cristã da pobreza, propagada por
Levino, como instrumento de controle social. Não é coincidência que, desde as
origens, as lideranças dessas comunidades formassem núcleos doutrinários que
regulavam comportamentos, impunham castidade, silêncio às mulheres, obediência
aos senhores e submissão aos poderes terrenos — como defendia Paulo. Era a
construção de uma nova forma de dominação simbólica e disciplinar, não de
emancipação popular.
E quanto à suposta perseguição aos cristãos, outra mitificação se
apresenta. Levino afirma: “Os cristãos, antes perseguidos e massacrados pelos
imperadores romanos”.
Mas os estudos históricos modernos mostram que as “perseguições” aos
cristãos foram localizadas, episódicas e muitas vezes motivadas por razões
políticas, não religiosas. A imagem de cristãos indefesos sendo jogados aos
leões é uma construção posterior, magnificada por escritores cristãos do século
03 e 04 como Eusébio de Cesareia, que visavam construir o martírio como
elemento legitimador do poder eclesiástico.
Há, inclusive, hipóteses acadêmicas — como a do historiador Joseph
Atwill, autor de “O
Messias de César” (2011) — que questionam se o próprio cristianismo não
teria sido uma construção deliberada por elites romanas para criar uma religião
obediente, pacifista, avessa à insurreição, que contivesse o fermento rebelde
das massas judaicas. Embora essa hipótese ainda gere debates, ela lança luz
sobre um ponto essencial: o cristianismo primitivo não foi um movimento
espontâneo das massas, mas uma doutrina de contenção espiritual e disciplina
moral.
Assim, precisamos rejeitar com firmeza essa tentativa de transformar o
cristianismo em “comunismo espiritual”. O marxismo não é uma ética de doação, é
uma ciência da emancipação. Não queremos esmolas, nem resignação piedosa —
queremos a abolição de todas as classes, de toda exploração e de toda
dominação, para que o ser humano possa desenvolver todas as suas capacidades.
Por isso, não há conciliação possível entre a moral cristã da pobreza e a
política comunista da abundância. Quem tentar fundi-las só conseguirá sabotar
ambas.
Contra o retorno ao misticismo utópico
No fechamento de seu artigo, Levino dirige corretamente sua indignação
contra a Teologia da Prosperidade e as igrejas neopentecostais, afirmando: “O
que diria o Nazareno [...] diante das suntuosas igrejas [...] estimulando o
enriquecimento individual [...] colocando suas igrejas a serviço de
candidaturas que adotam a violência contra os pobres?”.
Entretanto, ao fazer essa crítica, o autor cai em uma ilusão nociva: a de
que o problema está na “forma degenerada” da fé, e não na fé em si. Ele opõe
uma “religião verdadeira” (altruísta, popular, libertadora) à “religião falsa”
(burguesa, exploradora, hipócrita). Ora, isso é exatamente o que faz a própria
Igreja há séculos: renovar sua roupagem, mudar sua moral e seus ritos para
manter sua função histórica intacta — a de instrumento de dominação ideológica.
O problema não é somente a Teologia da Prosperidade, nem a ortodoxia
romana, nem o evangelicalismo conservador — o problema é a religião como forma
de alienação, como já demonstrou Marx ao afirmar
que a religião é “a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria
real” — mas não sua superação. Mesmo a Teologia da Libertação, com toda sua
retórica progressista, não ultrapassa os limites da fé, da resignação, da
espera, da humildade cristã diante da injustiça do mundo.
Ao dizer que “a essência da mensagem transformadora de Jesus sempre
ressurgiu”, Levino incorre no mais perigoso dos misticismos: a crença em uma “essência
redentora” no interior da religião. As Comunidades Eclesiais de Base, o Cimi, a
Teologia da Enxada, as pastorais — tudo isso pode ter, em alguns momentos,
servido de suporte tático para lutas populares, mas jamais devem ser
confundidos com alavancas revolucionárias. Mesmo a teologia mais progressista
não resiste ao materialismo dialético, como bem mostrou a experiência soviética
com a construção da União dos Militantes Ateus. Na prática, no máximo, essas
teologias desejam um capitalismo mais justo, um Estado mais sensível, um patrão
mais caridoso. Essa é a essência do cristianismo social: reformar o sistema,
não o destruir. Exatamente porque o socialismo real é a sua mais profunda
negação.
Levino comete aqui em mais um erro histórico profundo: romantiza o
misticismo das massas, exatamente aquilo que Marx, Engels, Lênin e Stálin
combateram com vigor durante todas as suas vidas. Em vez de elevar a
consciência das massas ao nível da ciência, do planejamento, da organização
política e da revolução, ele propõe um “retorno à tribo”, à vida comunitária
idealizada, às seitas heréticas e às figuras santificadas da Igreja. Isso é
regressão ideológica. Isso é, na prática, pregar o retorno ao misticismo utópico
que nunca levou o proletariado a lugar algum na história.
A função do Partido é exatamente o oposto: tirar o povo do reino da fé e
trazê-lo ao reino da razão histórica, da ciência social, da consciência de
classe. Não queremos mais padres com cajado e chapéu de palha; queremos quadros
revolucionários com método, disciplina, estratégia e programa. Não queremos
mais comunidades de partilha simbólica; queremos a socialização total dos meios
de produção e a ditadura do proletariado. Não queremos mais promessas de vida
eterna; queremos a vida plena aqui e agora, com abundância de bens materiais,
liberdade intelectual, comida e cultura para todos.
Ao invés de se posicionar ao lado do socialismo científico, Levino
escolhe o caminho do sentimentalismo moralizante cristão. Sua mensagem não é
revolucionária, é reformista, nostálgica, conciliadora — e, portanto, inútil à
classe trabalhadora em sua luta contra o capital.
O ópio do povo rebatizado de “energia
libertadora”
O artigo de José Levino se encerra com a seguinte afirmação triste e
desnecessária, um ataque ao marxismo: “Desse modo, a Religião verdadeiramente
cristã, está longe de ser ‘ópio do povo’, sendo, ao contrário, energia
libertadora de toda forma de opressão”.
Essa frase não deveria — em hipótese alguma — constar nas páginas de um
jornal marxista-leninista. Ela viola abertamente os princípios do materialismo
histórico e dialético, desonra o legado de Marx, Engels, Lênin e Stálin, e
introduz na teoria revolucionária um veneno adocicado: o idealismo mascarado de
energia libertadora (ironicamente, que nunca libertou ninguém).
Não se trata aqui de um debate interpretativo. Trata-se de uma negação
objetiva da concepção marxista da religião. Marx não chamou
a religião de “ópio do povo” como uma metáfora poética ou uma provocação
anticlerical. Ele o fez porque a religião é uma forma de consciência alienada,
um produto histórico da opressão real, cuja função é justificar, amortecer e
eternizar essa opressão. Como explicou
Lênin: “um marxista deve ser um inimigo da religião, mas deve ser um
materialista dialético, aquele que combate a religião com base na luta de
classes”.
Ou seja, a crítica à religião não é um capricho antirreligioso, mas uma
necessidade estratégica. Toda forma de idealismo — seja ele o “espírito
absoluto” hegeliano ou o “amor ao próximo” cristão — atua como narcótico
ideológico, como freio à luta consciente, como adaptação emocional às piores
condições materiais. A função social da religião é clara: reconciliar o
oprimido com sua opressão.
Como disse
Ilyenkov, refletindo sobre a posição de Lênin: “Idealismo em qualquer de suas
formas — desde a teológica até a ‘científica positivista’ – sempre foi colocado
por Lênin no mesmo nível que o resto das criações mais repugnantes do arranjo
societal fundado na exploração de humanos por humanos”.
Ao afirmar que a religião cristã pode ser “energia libertadora de toda
forma de opressão”, Levino reabilita o que há de mais reacionário na ideologia:
a ideia de que a fé, e não a ação consciente e organizada da classe
trabalhadora, pode libertar a humanidade. Ele substitui o socialismo científico
pelo misticismo utópico, pela boa vontade espiritual, pela moral da compaixão.
Em vez de levar as massas para fora da caverna teológica, ele convida os
militantes a sentar-se com os padres à sombra da cruz.
Mas não há neutralidade possível entre ciência e fé — ou somos
materialistas históricos, ou somos ecumênicos da derrota. Não há “religião
verdadeiramente cristã” que seja libertadora, porque toda religião parte do
mesmo fundamento: a separação entre o mundo real e um além idealizado. Mesmo os
setores progressistas da Igreja — Dom Pedro Casaldáliga, Dom Helder, etc. —
jamais romperam com a ideologia cristã da submissão, da humildade e da espera.
Lutaram, sim, mas lutaram com armas cegas, sempre dentro dos limites morais do
perdão, do sofrimento e da mediação divina.
A missão do Partido Comunista não é adaptar-se ao sentimento religioso
das massas, mas superá-lo. Não é louvar os mitos do passado, mas criar a
consciência do futuro. O Partido é inimigo do idealismo em todas as suas formas
— ainda mais quando este se disfarça de aliado, se mascara de povo, se cobre
com a batina dos pobres. O idealismo é o inimigo mais perigoso quando mais
cuidadosamente se apresenta como aliado.
José Levino pode ter escrito com boa intenção. Mas a boa intenção, quando
serve à ideologia dominante, torna-se cumplicidade. E a tarefa dos comunistas é
dizer isso com clareza, coragem e fidelidade à teoria revolucionária.
Pelo retorno ao materialismo histórico
e dialético
A crítica que aqui expusemos não é motivada por hostilidade pessoal, nem
por intolerância doutrinária. É guiada por um princípio que nos é sagrado: a
fidelidade ao marxismo-leninismo como ciência da revolução. Quando a ideologia
dominante — mesmo sob roupagem progressista, humanista ou espiritual —
infiltra-se em nossas trincheiras teóricas, é dever do Partido desmascará-la,
combatê-la e substituí-la por orientação científica clara, firme e estratégica.
O artigo de José Levino, publicado no jornal A Verdade, incorre em erros
graves: recorre ao idealismo histórico, romantiza formas religiosas de
dominação, confunde moral cristã com consciência de classe, e reabilita o
cristianismo como força “libertadora” — tudo isso em nome da luta popular. Mas
o marxismo nos ensina que não basta querer o bem do povo — é preciso
conhecê-lo, organizá-lo e armá-lo com a verdade. E a verdade é: não há salvação
fora da luta revolucionária consciente. Não há libertação na fé. Não há
comunismo na cruz.
Infelizmente, esse artigo não é o primeiro nem será o último do jornal A
Verdade que faz apologia à religião ao invés de combate-la com os princípios e
categorias do materialismo histórico e dialético — nossa crítica, porém, é o
reforço da nossa integral dedicação a ele, para que esse órgão imprescindível ao
proletariado brasileiro melhore e cresça.
O Partido não pode permitir que a crítica à opressão seja sequestrada
pela moral do sacrifício. O papel do jornal A Verdade, enquanto órgão de
formação política, é educar as massas com base no materialismo histórico,
formar quadros que não sejam padres de esquerda, mas militantes
revolucionários, e preparar a vanguarda para a tomada do poder.
Não queremos mais piedade — queremos organização revolucionária. Não
queremos mais messias — queremos bolcheviques. Não queremos mais apóstolos —
queremos educadores do povo, forjadores da consciência de classe, mestres da
tática e da estratégia. Não nos move a esperança no céu, mas a certeza
histórica de que o socialismo é o futuro necessário da humanidade.
Por isso, o órgão Luta Ideológica escreve esta crítica com espírito
fraterno e bolchevique. Para que o jornal se eleve. Para que os camaradas se
fortaleçam. Para que a teoria não se corrompa. Para que a revolução não se
atrase.
Viva o socialismo científico! Viva a revolução proletária!
FICHA BIBLIOGRÁFICA
CLÁSSICOS
DO MARXISMO-LENINISMO
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ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade
privada e do Estado. 3. ed. São Paulo: Boitempo, 2019.
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LÊNIN, Vladimir Ilich. Materialismo e empiriocriticismo:
notas críticas a uma filosofia reacionária. 2. ed. São Paulo: Editorial Calvino LTDA., Rio, 1946.
·
LÊNIN, Vladimir Ilich. Sobre a atitude do Partido Operário
em relação à religião. In: Obras escolhidas em três tomos. Tomo 1.
São Paulo: Alfa-Ômega, 1982.
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LÊNIN, Vladimir Ilich. As três fontes e as três partes
constitutivas do marxismo. In: Obras escolhidas em três tomos. Tomo
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MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel:
introdução. São Paulo: Boitempo, 2010.
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MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido
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HISTORIOGRAFIA
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LIVERANI, Mario. Para além da Bíblia: história antiga de
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interrupted: revealing the hidden contradictions in the Bible. New York: HarperOne,
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LÜDEMANN, Gerd. The
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ATWILL, Joseph. Caesar’s
messiah: the Roman conspiracy to invent Jesus. Berkeley: Ulysses
Press, 2005.
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BAUER, Bruno. Christ
and the Caesars: The Origin of Christianity from Graeco-Roman Civilization.
Charleston:
Book Surge Publishing, 2005.
OUTROS
AUTORES E TEXTOS MENCIONADOS
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ZHUKOV, Yuri N. Um Stálin diferente: reformas políticas da
URSS em 1933-1937. Moscou: Algoritmo, 2003.
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RENAN, Ernest. A vida de Jesus. São Paulo: Martin
Claret, 2002.
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STRAUSS, David Friedrich. A vida de Jesus. São Paulo:
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BÍBLIA. Antigo e Novo Testamento. Tradução Almeida
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KAZAKEVICH, Emmanuil. Estrela. Moscou: Editorial
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· FLÚGEL, Gerd. Die Erfindung des Christentums. Munique: C.H. Beck, 2011. (Referência indireta de crítica historiográfica contemporânea.)

A defesa do marxismo-leninismo no âmbito filosófico contra tais desvios direitistas é essencial dentro dessa conjuntura onde, infelizmente, alguns camaradas ainda não compreendem a forma como a teoria materialista e o método dialético se contrapõem a toda e qualquer religião. Sigamos firmes na defesa de nossa doutrina!
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