A Construção do Realismo Socialista no Brasil

REALISMO — Candido Portinari foi um pintor de vanguarda e que retratou as lutas do povo brasileiro e as contradições do mundo. (Pintura: “O Lavrador de Café”/Candido Portinari) 

O Realismo Socialista é a ferramenta e o princípio artístico revolucionário para retratar a luta de classes no Brasil, resgatando a cultura popular (samba, rap, grafite, Cinema Novo) e combatendo o individualismo burguês. A arte proletária, como na URSS e na Albânia socialista, deve ser arma na construção do homem novo brasileiro, unindo tradição cultural popular e revolução.

1. A definição histórica do Realismo Socialista

O camarada Stálin, em sua contribuição à teoria marxista-leninista, definiu o Realismo Socialista como uma arte que deve ser “nacional em forma e socialista em conteúdo”. Essa formulação dialética sintetiza a necessidade de que a arte revolucionária não apenas reflita a luta de classes e a construção do socialismo, mas também se enraíze nas tradições culturais concretas de cada povo. O Realismo Socialista não é um dogma estético imposto de cima para baixo, mas uma ferramenta de luta ideológica que deve ser adaptada à realidade material de cada nação, sem jamais perder de vista seu objetivo final: a emancipação do proletariado e a edificação da sociedade comunista.

A luta de Lênin contra o “Prolekult”

A construção do Realismo Socialista não foi um processo pacífico, mas uma batalha ideológica travada desde os primeiros anos da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917. Lênin, em sua luta contra as tendências pequeno-burguesas do Prolekult (movimento que pretendia criar uma “cultura proletária pura”, rejeitando toda herança artística do passado), afirmou com clareza: “O marxismo conquistou seu significado histórico universal como ideologia do proletariado revolucionário porque não rejeitou as conquistas mais valiosas da época burguesa, mas, pelo contrário, assimilou e reelaborou tudo que houve de valioso no desenvolvimento do pensamento humano”.

Essa posição materialista-dialética demonstra que o proletariado não pode construir sua cultura a partir do nada, mas deve apropriar-se criticamente das conquistas artísticas e filosóficas da humanidade, submetendo-as à análise de classe e transformando-as em instrumentos de conscientização revolucionária. Como destacou Máxim Gorky, “a cultura proletária não é uma invenção de laboratório, mas o desenvolvimento orgânico de todas as melhores tradições culturais da humanidade, expurgadas de suas deformações reacionárias”.

A “independência da arte” trotskista

A posição trotskista da “independência da arte”, que nega o papel dirigente do Partido na cultura e defende uma suposta neutralidade da arte, é uma expressão da fragilidade pequeno-burguesa e do idealismo subjetivista. Leon Trotsky e André Breton, em seu “Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente” (1938) negam o papel da vanguarda no caráter de classe da produção artística. Essa concepção, profundamente antimaterialista, ignora que, em uma sociedade dividida em classes, toda arte serve a interesses de classe, conscientemente ou não.

Andrey Zhdanov, em seu discurso no “Primeiro Congresso dos Escritores Soviéticos” (1934), e em seu artigo sobre “As Tarefas da Literatura na Sociedade Soviética” rebateu essa tese com firmeza mostrando que não existe arte pela arte, não existe criação independente livre de influências sociais. Em uma época de aguda luta de classes, o escritor que se declara neutro está, na prática, servindo à burguesia. A arte, longe de ser um refúgio da “liberdade individual”, é um campo de batalha ideológica, e o Realismo Socialista surge como o único princípio político capaz de expressar os interesses históricos do proletariado neste terreno.

O abstracionismo burguês atual

A burguesia, em sua fase decadente, promove deliberadamente formas artísticas abstratas, herméticas e desconectadas da realidade material — o expressionismo abstrato, o surrealismo reacionário e o conceitualismo vazio — como forma de afastar as massas trabalhadoras da compreensão crítica do mundo. Essa tendência, importada dos Estados Unidos e da Europa, difundida pela sua indústria cultural, não é um acidente estético, mas uma estratégia consciente de dominação ideológica, fazer as classes trabalhadoras assimilarem sua cosmovisão de mundo. A arte burguesa moderna, ao abandonar o concreto em favor de um formalismo abstrato, nega a própria possibilidade de representação dialética da realidade.

O abstracionismo não é “liberdade criativa”, mas sim a expressão da completa falta de criatividade dos artistas burgueses, da crise terminal da cultura burguesa, que, incapaz de oferecer uma visão progressista do futuro para os trabalhadores, refugia-se no niilismo, na apatia, no imobilismo e no individualismo mais estéril. Enquanto o Realismo Socialista eleva o povo à condição de sujeito histórico, a arte burguesa contemporânea reduz o espectador a mero consumidor passivo de sensações desconexas e conceitos vazios.

A capitulação e traição dos revisionistas no campo artístico

Alguns partidos e intelectuais que se autodenominam comunistas abandonaram o Realismo Socialista, qualificando-o pejorativamente como “panfletário, engessado ou censurador” ou como se fosse uma “particularidade soviética”, como se não fosse possível esse princípio artístico no mundo. Essa posição, que ecoa as teses trotskistas e pós-modernas, nada mais é do que uma reconciliação velada com a burguesia e sua ideologia. Ao defenderem uma suposta “arte livre” — desprovida de conteúdo revolucionário e submetida aos caprichos do mercado —, esses revisionistas traem os princípios marxista-leninistas e desarmam ideologicamente o proletariado de sua possibilidade de dominar as artes e a cultura.

Andrey Zhdanov já advertia sobre esse perigo, mostrando que numa sociedade dividida em classes, aqueles que pregam a neutralidade da arte estão, na prática, servindo ao inimigo de classe inconscientemente. A arte ou serve ao proletariado em sua luta pelo socialismo, ou serve à burguesia em sua opressão contra os trabalhadores. A história demonstrou que, onde o Realismo Socialista foi abandonado, como na União Soviética sob Khrushchev e seus sucessores, a arte degenerou em seu “degelo”, em instrumento de propaganda anticomunista e decadência social.

A poesia revolucionária de Pablo Neruda e o papel do artista

Pablo Neruda, o grande poeta comunista chileno, mostrou em sua obra como a arte pode ser ao mesmo tempo profundamente lírica e intransigentemente revolucionária. Em “Canto Geral” (1950), ele elevou a história da América Latina à condição de epopeia da resistência popular, unindo a força estética da poesia à clareza política do marxismo-leninismo. Como Neruda defendia, o poeta não pode fechar os olhos diante da luta de seu povo, pois sua voz é a voz dos que não têm voz.

No Brasil, os artistas ligados ao Partido Comunista e outros coletivos revolucionários têm a tarefa histórica de resgatar figuras como Patativa do Assaré, Solano Trindade e João Cabral de Melo Neto — que souberam unir a riqueza da linguagem popular ao engajamento político. A cultura nordestina, o samba de raiz, a poesia marginal das periferias e o teatro engajado são terrenos férteis para uma arte que seja realista e socialista.

A arte forja o homem novo

A experiência soviética e albanesa demonstrou o poder transformador do Realismo Socialista. Na URSS, obras como “A Mãe” (1907) de Máxim Gorky e “E o Silêncio Flui no Don” (1934) de Mikhail Sholokhov não apenas retrataram a luta do povo, mas tornaram-se armas na formação da consciência revolucionária. Ismail Kadaré, grande escritor albanês que se tornou a maior expressão do Realismo Socialista na Albânia, destacou em 1974 que “nossa arte do realismo socialista herdou essa conexão como seu tesouro mais precioso, enriquecendo-a e elevando-a a um nível mais alto por meio das ideias da revolução e do comunismo. O partidarismo proletário de nossa arte, do realismo socialista, mostra melhor como ela está conectada, mais plenamente do que nunca, com o destino do povo”.

Na Albânia, com o camarada Enver Hoxha à frente, o Realismo Socialista assumiu um caráter profundamente popular, incorporando as tradições épicas do folclore albanês e transformando-as em narrativas de resistência e construção socialista, munindo os interesses nacionais do Renascimento albanês à construção do socialismo. Essa síntese entre o nacional e o socialista em seu conteúdo é a prova viva da tese marxista-leninista: a arte revolucionária deve falar a língua do povo, sem jamais abandonar seu conteúdo classista. Assim, a arte, a cultura e o Realismo Socialista têm um papel ativo, de vanguarda e consciente na construção da moral do “homem novo soviético”, dotá-lo do caráter indomável do proletariado na luta pela edificação de uma nova sociedade e declarar uma luta intransigente ao individualismo e à ideologia burguesa.

O Estado proletário albanês incentivou a produção artística que combatia os costumes retrógrados — como o obscurantismo religioso e o patriarcado — enquanto celebrava a luta histórica do povo pela libertação nacional e social. Isso não deixa pedra sobre pedra à calúnia burguesa de que o Realismo Socialista é “engessado” — a verdade é o completo oposto, ele liberta a arte das amarras do individualismo e a coloca a serviço da transformação social.

2. O Realismo Socialista no Brasil — a cultura popular como campo de batalha ideológica

Aplicar essas lições históricas ao Brasil exige uma análise materialista da realidade concreta. A cultura brasileira, forjada na luta contra o colonialismo, o imperialismo e a exploração de todas as formas, possui ricas tradições populares — do cordel à música sertaneja tradicional, do teatro de arena às manifestações indígenas e negras —, o Realismo Socialista no Brasil não deve copiar mecanicamente os modelos desenvolvidos pelos soviéticos ou albaneses, mas sim assimilar o universal na forma particular brasileira, como diria Hegel em sua dialética do universal e do particular.

A arte revolucionária brasileira deve resgatar figuras como Lima Barreto, Graciliano Ramos e Patativa do Assaré, que, mesmo sob as limitações de sua época, souberam denunciar a opressão de classe. Ao mesmo tempo, deve superar o pessimismo pequeno-burguês e abraçar o otimismo histórico do proletariado, mostrando não apenas a exploração, mas também a força organizada das massas em luta, mostrando a dialética da luta dos contrários em pleno desenvolvimento.

É importante compreender que os escritores e artistas, como um ser social e forjado pela sociedade brasileira, tem um dever ativo para com ela, um papel social. Como ensinava permanentemente o camarada Stálin, a arte deve ser otimista, porque o proletariado é a única classe ascendente, cuja vitória é inevitável. A construção do Realismo Socialista no Brasil é, portanto, uma tarefa urgente — não apenas para os artistas, mas para todo o Partido Comunista que luta pelo poder político e pela verdadeira emancipação cultural.

A burguesia, em seu esforço desesperado para manter sua hegemonia cultural, busca constantemente cooptar e descaracterizar as expressões artísticas do povo, transformando-as em mercadorias vazias ou veículos de ideologia burguesa-reacionária. O individualismo burguês, o abstracionismo e o culto à ostentação são armas da classe dominante para alienar as massas e ocultar a realidade da exploração e toda sorte de opressões existentes na sociedade, seja de classe, gênero, racial etc. Contra essa ofensiva, o proletariado e todas as camadas progressistas da sociedade devem reivindicar as verdadeiras raízes revolucionárias da cultura popular brasileira, munindo-a com o conteúdo socialista e transformando-a em instrumento de afirmação de classe, instrumento de conscientização e luta.

A arte que buscamos não é aquela que foge da realidade, mas aquela que a revela em sua totalidade dialética, mostrando não apenas o que é, mas o que pode e deve ser, como livrar o ser humano da apatia, do conformismo, do imobilismo e levando-o a se tornar um agente da transformação histórica. A arte brasileira, em suas diversas manifestações, possui um potencial revolucionário latente, que deve ser despertado e direcionado pela vanguarda marxista-leninista.

Literatura proletária: raízes populares ao conteúdo revolucionário

A literatura brasileira já produziu obras que, mesmo sob as condições adversas do domínio burguês, conseguiram expressar a luta do povo contra toda sorte de opressão de classe e racial. Jorge Amado, em seu período marxista-leninista, na trilogia “Subterrâneos da Liberdade” (1954), retratou a resistência dos comunistas durante o Estado Novo com profundidade e espírito militante, enquanto “Seara Vermelha” (1946) denunciou a exploração dos camponeses no Nordeste. Graciliano Ramos, que viveu e morreu plenamente como comunista, em “Vidas Secas” (1938), expôs a brutalidade do latifúndio; Lima Barreto, em seu “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (1915), desmascarou as contradições da República oligárquica. Essas obras não teriam sido possíveis sem uma consciência ativamente progressista em suas épocas que ia chegando ao marxismo-leninismo com o passar dos anos.

Máxim Gorky, ensinava, particularmente em “O Realismo Socialista — Estilo Revolucionário da Literatura e das Artes” (1934) que não basta apenas denunciar, é necessário mostrar o caminho da luta revolucionária de classes. A literatura proletária do futuro deve ir além do realismo crítico, ou da expressão naturalista da realidade, mas deve incorporar o otimismo revolucionário da classe operária e a perspectiva da vitória do socialismo. O cordel, gênero profundamente popular, é um exemplo de forma artística que pode ser elevado a um novo patamar, como fizeram os poetas soviéticos com a tradição oral camponesa da Rússia czarista.

Artes plásticas: o legado de Portinari e o grafite como expressão da arte proletária

O camarada Cândido Portinari, fiel marxista-leninista e o maior representante de vanguarda da pintura brasileira, soube como poucos cumprir seu papel histórico: transformar o pincel em uma arma da luta de classes, elevando a consciência das massas através de uma arte verdadeiramente nacional em forma e socialista em conteúdo. Como definiu o camarada Stálin, o Realismo Socialista não é um formalismo estéril, mas a expressão mais avançada da cultura proletária, que funde a tradição popular com a luta pelo socialismo. Portinari, com maestria dialética, assimilou essa linha à realidade brasileira, desmascarando a falsa acusação burguesa e revisionista de que a arte engajada é “panfletária” ou “arcaica”. Pelo contrário, sua obra prova que só a arte comprometida com o povo é verdadeiramente revolucionária e eterna.

Em “Os Retirantes” (1944), Portinari expõe a brutalidade do capitalismo semicolonial, que condena milhões à fome e ao êxodo desesperado. Seus traços vigorosos e cores terrosas não são mero esteticismo, mas denúncia materialista da exploração latifundiária. Já em “O Lavrador de Café” (1934), ele glorifica o trabalhador rural não como vítima passiva, mas como sujeito histórico, antecipando a aliança operário-camponesa essencial à revolução. Em “Guerra e Paz” (1956), monumental presente aos povos de todo o mundo, Portinari sintetiza a luta dialética entre a barbárie imperialista e a construção heroica da paz socialista, mostrando que a arte mural é trincheira ideológica.

Os ideólogos da reação dizem que o Realismo Socialista é “dogmático”, mas é justamente a arte burguesa — individualista e alienante — que trai a missão social do artista. Portinari, ao contrário, seguiu os ensinamentos de Lênin e Stálin: sua arte fala diretamente às massas, porque nasce da terra, do sangue e do suor do povo brasileiro. Seus murais, como “Tiradentes” (1949), não são nostalgia do passado, mas chamado à ação, provando que a tradição nacional só vive se for armada com o conteúdo de classe.

Em 1947, na cidade de Buenos Aires, o camarada Candido Portinari, comprometido com a causa do proletariado e da elevação da consciência revolucionária das massas, participou da conferência Sentido Social del Arte. Em sua intervenção, denunciou a alienação imposta pelas elites reacionárias e defendeu ardorosamente a necessidade de uma arte verdadeiramente comprometida com os interesses do povo trabalhador. Reconhecendo o papel das vanguardas europeias na renovação das formas expressivas, Portinari reafirmou que a função suprema da pintura social é servir como arma na luta pela emancipação das massas oprimidas. Enaltecendo o muralismo como meio educativo e mobilizador, declarou que “o pintor-social é intérprete do povo, o mensageiro dos seus sentimentos”, aquele que assimila suas dores e esperanças, um militante da “paz, da justiça e da liberdade”. Em 1949, Portinari presenteia o camarada Stálin com um retrato por ocasião do seu 70º aniversário.

Aos artistas plásticos, grafiteiros e muralistas brasileiros cabe hoje resgatar o legado de Cândido Portinari. Unir, como ele fez, as técnicas artísticas (óleo, afresco) às novas linguagens (grafite, arte digital), sem jamais perder de vista o objetivo: servir à revolução. A estética revolucionária não rejeita a inovação, mas a subordina à luta pela construção de uma nova sociedade. Que as cores de Portinari incendeiem os muros das cidades, que seus camponeses e operários inspirem uma nova geração de artistas de vanguarda! Como ensinou Marx, a arte não deve apenas interpretar o mundo, mas ajudar a transformá-lo.

O grafite, originário das periferias urbanas, é uma das expressões mais autênticas da arte proletária contemporânea no Brasil. Na América Latina não faltam exemplos de sua capacidade mobilizadora, movimentos como o muralismo mexicano demonstraram como a arte pública pode ser um instrumento de formação e emancipação política. No Brasil, os grafiteiros das favelas e bairros populares retratam a realidade da exclusão social, mas também a resistência organizada — como visto nas obras que homenageiam os mártires da luta brasileira, a resistência nas favelas ou denunciam profundamente a violência policial.

Ao contrário do que dizem os revisionistas, que taxam o Realismo Socialista apenas como uma arte “formalista, neoclássica e elitista” em sua forma, que “não dialoga com as massas”, o Realismo Socialista está, desde suas formulações e prática concreta nacional, muito à frente dessas críticas vazias de conteúdo revolucionário, mostrando que todo conteúdo historicamente nacional pode ser munido de uma consciência revolucionária socialista.

A burguesia tenta domesticar o grafite, transformando-a em mero adorno de galerias ou ferramenta de marketing de suas mercadorias, diminuindo seu caráter de luta contra toda forma de opressão social. Contra isso, é necessário resgatar seu caráter militante e muni-lo de um caráter de vanguarda científica, como sempre propôs Zhdanov, a arte deve ser uma arma na luta pelo socialismo, não um enfeite para as galerias dos exploradores.

Música popular: vozes do povo, canções da revolução

A música brasileira é um campo fértil para a construção do Realismo Socialista. O samba, nascido nas comunidades negras e marginalizadas, carrega em sua história a resistência contra a escravidão e o racismo. Escolas de samba como a Mangueira, que em 2019 homenageou Marielle Franco e Luiz Carlos Prestes, mostram como a cultura popular pode ser um veículo de memória e luta política. Essa é a expressão direta do povo contando sua própria história de luta.

O rap, representado por grupos como Racionais MC's, expõe a realidade das periferias com uma crueza que a burguesia prefere marginalizar como “música de bandido”. A realidade é que músicas como “Negro Drama” “Capítulo 4, Versículo 3” (1997) é um manifesto sobre a violência estrutural do capitalismo — a realidade é que toda a discografia deste grupo é a maior expressão da música revolucionária brasileira vindo direto das bases do povo brasileiro, sempre com uma mensagem positiva para o nosso povo, principalmente para a juventude.

O funk, frequentemente demonizado pela elite e, ao mesmo tempo apropriado por sua ideologia, também possui vertentes conscientes, como as músicas que denunciam a militarização das favelas e encontra, na juventude, um estímulo para continuar vivendo. A música de matriz africana, como o maracatu e o jongo, preserva a memória da resistência negra e deve ser valorizada como parte de toda a cultura revolucionária brasileira. Como ensinava Amílcar Cabral, a cultura é a arma mais poderosa na luta pela libertação.

Teatro e Cinema: a dramaturgia revolucionária

O grande Lênin afirmava que “de todas as artes, para nós a mais importante é o cinema” — o Cinema Novo brasileiro, dirigido por Glauber Rocha, buscou criar uma estética verdadeiramente brasileira e comprometida com as lutas sociais históricas do nosso país. “Terra em Transe” (1967) é uma crítica dialética ao reformismo e à traição da pequena-burguesia, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) mostra uma grande epopeia histórica da luta pela terra e a contradição vigente contra os latifundiários, mostrando com crueza a realidade dos camponeses pobres do Brasil. No teatro, obras como “Eles Não Usam Black-Tie” (1958) de Gianfrancesco Guarnieri, mais tarde eternizado no filme de Leon Hirszman (1981), retratam a organização sindical proletária e as consequências da traição de classe, enquanto o Teatro do Oprimido de Augusto Boal propõe uma arte participativa e transformadora no teatro.

No entanto, como alertava Ismail Kadaré, a arte revolucionária não pode se limitar a retratar a miséria; deve apontar para a superação revolucionária pelas próprias mãos da classe trabalhadora. “O realismo socialista tem tanta força interna que é capaz de desenvolver todos os temas em seu âmbito, começando com a revolução proletária e terminando com as lendas mais profundas dos séculos. Ele está em condições de reexaminar e reexplicar artisticamente o mundo inteiro, desde o cerco de Troia até o cerco imperialista-revisionista. Essa nova capacidade de esclarecer lhe é dada pela própria revolução; é exatamente aí que reside a essência de seu grande potencial de inovação”. O cinema e o teatro do futuro devem inspirar-se nos heróis do povo, desde Zumbi dos Palmares até Manoel Lisboa de Moura, mostrando não apenas a opressão, mas também a força organizada das massas, suas figuras e seus heróis nacionais, os melhores filhos do povo brasileiro.

3. A frente cultural como trincheira da luta de classes

A tarefa dos comunistas revolucionários não é apenas celebrar a cultura popular brasileira, mas transformá-la, atribuir caráter revolucionário consciente, com um programa político vivo e militante. Da forma como ensinava Lênin, a arte pertence ao povo, e deve ser compreendida e amada por ele. Isso exige um combate ativo à apropriação burguesa, ou seja, denunciar o esvaziamento político de todas as artes do povo (samba, do funk e do grafite) pela indústria cultural burguesa e de caráter pró-imperialista ianque; Síntese entre tradição e revolução, dessa forma, incorporar as formas artísticas populares ao projeto emancipatório socialista; e a formação de artistas militantes, criando coletivos culturais ligados ao movimento operário, produzindo arte socialmente engajada e acessível ao povo. A arte brasileira, em sua riqueza e diversidade, só alcançará seu pleno potencial sob o socialismo. Como dizia o camarada Stálin, o Realismo Socialista é a arte do futuro, porque é a arte da classe do futuro. Cabe ao proletariado organizado torná-la realidade.

O artista como militante e o contato com o povo

O Realismo Socialista não limita a criação artística; pelo contrário, ele a potencializa, dando-lhe um conteúdo socialmente rico e um propósito histórico. Máxim Gorky ensinava que o artista revolucionário não é um observador passivo da realidade, mas um combatente ativo no processo de transformação do mundo. Isso exige que os artistas revolucionários vivam entre o povo, isto é, conheçam suas lutas, suas dores e suas aspirações, devem aprender com ele, estuda-lo para repesentá-lo, como fez Glauber Rocha ao filmar “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) no sertão nordestino; para isso, é não menos importante que o artista militante revolucionário combata o elitismo artístico, que rejeitem a arte hermeticamente burguesa e produzam obras para as massas e mobilizadoras; tudo isso não é possível se o artista não esteja organicamente ligados ao Partido e às frentes de luta de massas, pois, como disse o grande Lênin, “sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário” e isso inclui a arte.

Por uma arte que sirva ao povo e à revolução!

A burguesia teme o Realismo Socialista porque ele desmascara suas mentiras e demagogia reacionária e inspira o povo a lutar por seus direitos e pelo socialismo, e os revisionistas o difamam como “letras cirílicas e uma mandíbula russa forte”, porque não entendem a grandeza do Realismo Socialista e porque, no fundo, temem seu potencial real revolucionário. Mas a história já provou — na URSS de Lênin e Stálin, na Albânia do camarada Enver Hoxha e nos demais países de democracias populares, nas canções de Neruda e nos versos de Carlos Drummond de Andrade — que a arte revolucionária é aquela que nasce do povo e volta ao povo armada com o fuzil e com a consciência de classe.

Aos artistas comunistas do Brasil cabe a missão de herdar as maiores qualidades da nossa cultura popular, enriquecê-la com o conteúdo do socialismo científico e transformá-la em arma na luta pelo poder proletário. Como escreveu Vladimir Mayakovsky, “a arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para moldá-lo”. Que nossos artistas empunhem esse martelo com firmeza, forjando a cultura da nova sociedade que há de vir.

O papel dirigente do Partido na frente cultural

A construção de uma frente cultural revolucionária exige a aplicação consciente dos princípios marxista-leninistas de organização. Como ensinou Lênin em sua obra “O Que Fazer?” todo trabalho de massas, também os artísticos e culturais, devem estar indissoluvelmente ligado ao trabalho político do Partido, pois sem direção revolucionária, a espontaneidade, principalmente falando no terreno cultural, leva inevitavelmente à uma consciência meramente sindicalista e a uma forma de ativismo espontaneísta muito baseado no voluntarismo dos próprios artistas.

Por isso, é imperativo que o Partido passe a criar um birô de cultura e células de trabalho cultural entre seus militantes e, assim, estabelecer um núcleo dirigente que esteja em permanente contato com núcleos de artistas revolucionários em todas as regiões, vinculados organicamente às estruturas partidárias e participando ativamente de coletivos de artistas de massas dos mais variados ramos, que podem ter potencial de produzir e difundir arte e cultura engajada; para isso, é necessário formar quadros artístico-políticos, desenvolver em sua Escola Nacional cursos de formação ideológica sobre a história do Realismo Socialista nos regimes socialistas para artistas proletários, ensinando tanto a técnica artística quanto o marxismo-leninismo, e quando for possível, cursos que desenvolvam as técnicas artísticas de nossos quadros da forma mais ampla possível; e uma publicação diretamente ligada aos artistas pode inspirar o desenvolvimento cultural e artístico dos nossos quadros, publicações devem ser retomadas, divulgando literatura, poesia, crítica de arte e análises materialistas da cultura brasileira.

Os eixos de atuação artística dos comunistas revolucionários

A frente cultural revolucionária deve operar em três eixos principais, seguindo o método dialético de análise concreta da realidade concreta:

a) Preservação e evolução das tradições populares

Como demonstrou a experiência albanesa, o Realismo Socialista não nega o folclore, mas o expurga de elementos reacionários e o enriquece com conteúdo socialista. No Brasil, isso significa, objetivamente, transformar o cordel e outras manifestações em veículo de agitação revolucionária, como fez o poeta alagoano Jorge Calheiros com seus “ABCs da Libertação”; isso também indica reinterpretar o bumba-meu-boi e o maracatu para celebrar heróis populares como Zumbi dos Palmares, Dandara, Carlos Marighella, Manoel Lisboa de Moura e Manoel Aleixo; e, por último, utilizar as escolas de samba como espaços de pedagogia revolucionária, contando a história das lutas operárias e camponesas, como a luta contra a Ditadura Militar Fascista de 1964.

b) Criação de arte proletária contemporânea

A vanguarda artística marxista-leninista deve produzir obras que falem a linguagem das massas trabalhadoras hoje, isso indica o estabelecimento de coletivos de rap revolucionário, a presença massiva dos comunistas e da juventude em batalhas de rimas, estabelecendo contato direto com a juventude, seguindo o exemplo dos Racionais MC's; emular os grafiteiros e artistas militantes que transformem os muros das periferias em murais da luta proletária; organizar grupos de teatro de agitação e propaganda e de cinema independente que encenem peças brechtianas nas ocupações, sindicatos, ocupações do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e assentamentos do Movimento dos Sem-Terra (MST).

c) Combate cultural contra a hegemonia burguesa

Como sempre ensinou Antônio Gramsci, a batalha pela hegemonia na luta de classes é pré-condição para a revolução proletária. Isso implica no Partido ser capaz de ocupar espaços midiáticos alternativos (rádios comunitárias, canais de TVs, redes sociais de massas) para difundir a consciência revolucionária; na mesma medida, organizar festivais culturais nas periferias que rivalizem com o entretenimento alienante da indústria cultural; e, por último, estabelecer prêmios literários e artísticos socialistas que incentivem a criação militante, estabelecer a emulação socialista entre os artistas proletários.

Descobrindo e formando artistas do povo

O Partido deve seguir o exemplo da URSS com o camarada Stálin à frente, que descobriu e formou dezenas de escritores e artistas proletários, como o operário Fyodor Gladkov, autor de “Cimento” (1925). No Brasil, isso significa realizar concursos de poesia e músicas nas fábricas, ocupações e assentamentos, revelando novos “Patativas do Assaré e Cartolas”; significa, na mesma medida, criar oficinas de grafite, desenho e pintura nas ocupações e favelas, transformando a nossa juventude e trabalhadores com potencial em artistas da revolução; devemos, por último, organizar círculos de literatura marxista nos saraus das periferias, como fazia o poeta Sergio Vaz — a experiência histórica mostra que o talento está em toda parte entre todo o povo trabalhador. Cabe a nós encontrá-lo e cultivá-lo. Para concluir, citamos o grande poeta Vladimir Mayakovsky, que em seu “Poeta-Operário” (1918) escreveu:

Gritam ao poeta:

"Queria ver-te num torno, ao labor!

E esses teus versos? Que coisa vã!

Aposto que és fraco, que foges da dor!"

Talvez, para nós,

o trabalho seja mais do que ofício,

é vida, raiz.

Também sou fábrica,

e se não tenho chaminés,

talvez sem elas eu sofra ainda mais.

Sei —

não suportais frases vazias.

Cortais o carvalho — é duro o labor.

Mas nós,

não somos, acaso, lenhadores?

Lidamos com troncos humanos de dor.

É nobre lançar as redes ao mar,

erguer os fios,

que venham os esturjões!

Mas há maior nobreza em nosso lutar —

pescamos almas,

não peixes, mas corações.

Imenso é o fardo de forjar o ferro,

dentro da forja a brasa estalar.

Mas quem se atreve a chamar-nos de ociosos?

Lapidamos mentes na lima da língua, sem hesitar.

Quem vale mais — o poeta ou o técnico,

aquele que leva o povo ao progresso e ao pão?

Ambos.

Os corações são motores que movem,

as almas, engenhos de precisão.

Somos iguais,

companheiros na marcha,

proletários do corpo e do ser.

Só juntos

o mundo encheremos de cores

e ao som de marchas o faremos viver.

Cerremos fileiras contra os vendavais,

com aço e fogo, sem hesitação!

Aos feitos!

Que o trabalho brilhe, pulsante e novo!

E os tagarelas —

à mó do moinho!

Que suas falas virem farelo na roda do vão!

Que esta seja a tarefa dos artistas comunistas no Brasil: forjar canções, poemas, quadros e filmes que sejam martelos para esmagar o velho mundo e cinzéis para esculpir o novo. Como disse Che Guevara, “o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor” — e é esse amor ao povo que deve mover nossa arte. A frente cultural que construiremos não será um apêndice do Partido, mas uma de suas armas mais belas e afiadas. Pois, como indicou a experiencia soviética com Stálin à frente, quando as massas trabalhadoras abraçam a cultura socialista, nenhuma força no mundo pode detê-las.

Viva a revolução socialista! Viva o Realismo Socialista! Viva o Marxismo-Leninismo!