Pensando na propaganda e na comunicação revolucionárias

“Como a razão de ser do nosso Partido não é apenas criticar e denunciar a realidade existente, nossa propaganda e a comunicação devem unir esses elementos com a perspectiva de transformação revolucionária.”

                    

Alejandro Ríos

Partido Comunista Marxista-Leninista do Equador (PCMLE)

A comunicação e a política têm uma relação dialética de interdependência: o trabalho político é essencialmente uma ação comunicativa, e essa comunicação existe por causa dos conteúdos que a política oferece. A política é inseparável de uma prática discursiva. Ambas as atividades, comunicação e política, são inerentes ao ser humano e surgem com o processo de socialização, acompanhando-o ao longo da vida.

O que diferencia o ser humano dos animais irracionais é o desenvolvimento da consciência, o que lhe permite trabalhar e produzir bens materiais necessários para a reprodução e existência da espécie. Nesse processo, a linguagem desempenhou um papel fundamental, pois possibilitou a comunicação entre os membros do grupo social. Friedrich Engels, em “O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem”, explica que o trabalho e a fala articulada foram os principais estímulos que transformaram gradualmente o cérebro do macaco no cérebro humano. Ele também destaca que o desenvolvimento da linguagem foi acompanhado pelo aperfeiçoamento dos órgãos dos sentidos. O avanço do cérebro e dos sentidos, a clareza crescente da consciência e a capacidade de abstração e discernimento reagiram sobre o trabalho e a fala, estimulando ainda mais seu desenvolvimento.

Os seres humanos habitam o mundo respondendo aos diferentes fenômenos do ambiente, buscando explicações para sua existência ou tentando fazê-lo. Antes de responder aos estímulos do ambiente, somos seres racionais e emocionais. Razão e emoção estão interligadas, operando em conjunto e se complementando.

Diante de uma situação inesperada, a primeira reação é emocional (medo, alegria, incerteza, tristeza...), o que pode nos levar a chorar, rir, correr ou reagir de forma impulsiva. Essas reações são rápidas e automáticas, exigindo pouco ou nenhum esforço consciente. No entanto, logo em seguida, o cérebro ativa sua “parte racional”, que pode retardar ou inibir esses impulsos.

As emoções são compostas por um estado fisiológico e uma experiência mental; são sinais do nosso corpo ligados a motivações e estímulos que nos impactam. Apesar de intensas, as emoções são geralmente breves. Já os sentimentos, que derivam das emoções, representam estados emocionais de longo prazo, com experiências mais complexas e duradouras. O ser humano, com sua inteligência, se interessa por tudo que o motiva, ou seja, aquilo que está direta ou indiretamente relacionado à sua sobrevivência ou bem-estar. Tudo que nos impacta provoca impressões, sensações e inclinações que podem se transformar em crenças, atitudes e intenções. Quanto mais fortes as emoções, mais profundamente a experiência se enraíza em nossa mente.

Esse fenômeno é evidente nos jovens que se engajam na atividade política revolucionária. Inicialmente, o “contágio” tem um grande impacto, seja pela admiração por alguém do grupo ou pela inspiração de uma ação ou luta que desperta o desejo de transformar suas vidas. A porta de entrada para as abstrações, especialmente as políticas, são as emoções. Por isso, o discurso político, a propaganda e a agitação devem considerar os elementos emocionais para criar a empatia necessária para estabelecer e manter uma conexão com as massas. No entanto, é importante que a mensagem emocional esteja sempre sustentada por argumentos, pois ela precisa ter conteúdo.

As pessoas reagem de maneiras diferentes a estímulos semelhantes, influenciadas por fatores culturais, geracionais e sociais. A resposta a uma mensagem pode variar conforme a interpretação que cada indivíduo faz dela. Por exemplo, o significado da terra pode ser diferente para povos indígenas e mestiços. Da mesma forma, uma canção de ninar pode despertar emoções distintas entre os negros de Esmeraldas em comparação aos mestiços ou indígenas.

Diversos códigos culturais geram diferentes interpretações e significados para as mensagens recebidas, e essas respostas costumam ser inconscientes. Apenas aqueles que conhecem e compreendem esses códigos conseguem criar mensagens realmente eficazes, capazes de superar barreiras de comunicação que, em certas situações, dificultam ou impedem a interação político-social.

Existem também circunstâncias específicas que funcionam como “válvulas”, abrindo ou fechando a disposição das pessoas para receber certos tipos de mensagens e até influenciando suas respostas. Essas circunstâncias resultam das condições político-sociais, mas também podem ser influenciadas por outros discursos poderosos que criam um clima favorável ou desfavorável. Por exemplo, um período de ascensão na luta das massas será sempre mais propício para a disseminação e aceitação de ideias revolucionárias do que momentos de relativa paz social, em que o controle político-ideológico da burguesia é mais forte.

Além dessas particularidades, há um elemento comum que atravessa todos os setores populares: o desejo de viver melhor. Embora esse conceito seja fácil de entender, ele assume significados diferentes em cada setor, determinado pelas condições materiais de vida e pelas percepções e aspirações individuais e coletivas, que nem sempre são óbvias. Em uma família camponesa pobre, por exemplo, pode-se supor que a melhoria de vida esteja ligada à produção e venda de seus produtos, mas em certos momentos, o que mais os preocupa é que seus filhos consigam ingressar na universidade. Para eles, a melhoria da vida familiar está na possibilidade de que essa criança obtenha um diploma e uma profissão. Esse fenômeno foi observado recentemente em nosso país, onde centenas de milhares de jovens ficaram fora das universidades.

Essa “descoberta” é possível apenas quando há uma relação próxima com as massas, participando de um verdadeiro processo comunicacional. Isso envolve não apenas transmitir, mas também receber informações, trocar pontos de vista e experiências com as pessoas, ouvir suas opiniões, processá-las e apresentar nossas concepções político-ideológicas. Esses aspectos são fundamentais para a elaboração e definição de políticas e para a estruturação do nosso discurso.

Consequentemente, devemos partir do princípio de que, para tocar os sentimentos das pessoas, é fundamental uma abordagem direta, conhecendo e compreendendo o que elas vivenciam, pensam e desejam. É obrigatório considerar o mundo material em que vivem, a realidade do país e do mundo, e as questões mais urgentes que as afetam, já que resolver essas questões significa resolver seus próprios problemas.

Nosso discurso deve relacionar de forma dialética a sensibilidade com a razão (precisamos ser sensíveis à sensibilidade), fortalecendo ambos os aspectos, seja em processos de persuasão de curto ou longo prazo, conforme a conjuntura específica em que atuamos, sempre vinculando esses processos a objetivos estratégicos. Devemos, primeiramente, considerar as necessidades materiais das pessoas que lhes permitem viver dignamente: emprego, salário justo, educação, saúde, água, moradia, território e reconhecimento como povos, além de outros elementos essenciais que nem todos compreendem como indispensáveis, como democracia, direitos políticos e a defesa da soberania nacional, que muitas vezes parecem abstratos.

Como a missão do nosso Partido não é apenas criticar e denunciar a realidade existente, nossa propaganda e comunicação devem sempre unir esses elementos à perspectiva da transformação revolucionária, destacando a necessidade de pôr fim à dominação da grande burguesia e do imperialismo, como fazer isso e quem deve assumir essa responsabilidade histórica. Nosso discurso nunca deve perder de vista os objetivos estratégicos.

Política, Técnica e Tecnologia

Identificados esses elementos, abordamos um tema recorrente na área da propaganda: a relação entre política, tecnologia e mídias. No início deste material, destacamos que “o exercício da política sem uma prática discursiva é impensável”, ou seja, o trabalho político não existe sem propaganda e comunicação. Transmitimos ideias, pontos de vista, interpretações da realidade em que vivemos, comportamentos e propostas de ação para transformar a sociedade e o mundo. Fazemos isso utilizando canais tecnológicos e mídias que veiculam a mensagem.

A comunicação e a propaganda revolucionárias têm como objetivo desenvolver a luta de classes no campo ideológico, buscando não apenas transmitir uma mensagem com conteúdo específico, mas também provocar, em quem a recebe, uma resposta favorável à intenção dessa mensagem. Isso só é possível com um trabalho sistemático, constante e eficaz. Contudo, uma política adequada que não encontre o canal de comunicação mais eficiente corre o risco de ser prejudicada.

Toda atividade humana se baseia no uso de técnicas e tecnologias, e o partido revolucionário do proletariado deve promover seu uso, colocando-as a serviço dos objetivos políticos, tanto na conjuntura quanto na estratégia. Uma postura revolucionária implica em aproveitar os avanços tecnológicos e científicos em todas as áreas, sem cair na adoração da tecnologia e sem perder de vista que ela é fruto do trabalho humano. Observamos que pontos de vista baseados em um determinismo tecnológico, que colocam a tecnologia como principal motor da mudança social, têm ganhado força. No campo da comunicação, por exemplo, priorizam-se os canais em detrimento do conteúdo. Jacques Ellul, há algumas décadas, já afirmava que a tecnologia possui leis e dinâmicas próprias, além da vontade humana.

As novas tecnologias de comunicação evoluíram rapidamente nos últimos anos. O avanço acelerado da internet e da telemática provocou mudanças nas forças produtivas, no comportamento das pessoas, em suas percepções da realidade e nos próprios paradigmas da vida social, resultando em novas formas de consciência social, conforme estabelecido pelo marxismo. As novas tecnologias colocaram os canais tradicionais em segundo plano, mas não os eliminaram, nem diminuíram seu peso político na sociedade. Durante o primeiro turno das eleições presidenciais de 2021 no Equador, uma pesquisa revelou que mais de 60% dos entrevistados conheceram seu candidato presidencial pela televisão, enquanto a porcentagem daqueles que o fizeram pelas redes sociais foi baixa. No contexto do nosso país, as redes sociais não impõem questões na agenda política, mas servem como plataformas onde se expressa a reação aos problemas político-sociais que as pessoas descobrem, principalmente, através da grande mídia. Ainda assim, há exemplos de países onde as redes sociais permitiram a disseminação imediata de conteúdo, resultando em mobilizações massivas que levaram a crises políticas agudas.

Novos Paradigmas

O confinamento forçado pela pandemia de Covid-19 obrigou as pessoas a mudarem seus hábitos em diversos aspectos, como na forma de se comunicar, na distribuição e no uso do tempo. Houve mudanças significativas nos hábitos de trabalho, estudo e vida doméstica. 

Em países como o nosso, onde o atraso tecnológico e os altos níveis de pobreza são predominantes, os avanços tecnológicos sempre pareceram distantes para milhões de pessoas. Contudo, a pandemia forçou um salto no uso dessas tecnologias. Telefones e computadores tornaram-se indispensáveis para praticamente tudo, e aqueles que não os possuíam se sentiram excluídos do convívio social. O conhecimento e a troca de informações por meio de mídias digitais e redes sociais cresceram de forma acentuada, provocando uma mudança qualitativa nas relações sociais.

Nosso Partido compreendeu esse fenômeno e adotou medidas para melhorar o trabalho por meio desses canais. Foram criados programas de debate e análise sobre diversos temas, a agitação nas redes sociais ganhou força, e as organizações de massa e nossas frentes políticas dedicaram mais tempo e atenção à organização e divulgação de suas políticas por esses meios. Também foram criadas oficinas de formação política, tornando esses canais instrumentos eficazes para a atividade política revolucionária. Há muito tempo defendemos que, no mundo atual, a política não pode ser feita sem o uso das novas tecnologias de comunicação. No entanto, também acreditamos que nem tudo o que o Partido e suas forças fazem deve ser condicionado pelas limitações desses meios; a relação direta e pessoal com as massas é fundamental e insubstituível, especialmente no trabalho de debate, discussão e argumentação de nossas propostas políticas, bem como na organização de nossas forças.

Trabalhar nas redes sociais apresenta dilemas e desafios. Se as pessoas se acostumaram a ler textos curtos, o que devemos comunicar? Nossas mensagens devem apelar apenas para elementos de impacto visual e emocional? São válidas apenas para trabalhos de agitação? O domínio das linguagens específicas dos diferentes canais de comunicação, assim como a técnica de utilização das redes e meios digitais em geral, nos ajudam a encontrar respostas para essas questões e, além disso, são fundamentais para o trabalho político. Uma política adequada requer o canal de comunicação e a linguagem mais apropriados para sua divulgação, dependendo do público-alvo, a fim de produzir o efeito político-ideológico desejado. Se esses canais e linguagens falharem, o processo de comunicação será interrompido ou nem sequer será estabelecido.

Quando atuamos nas redes sociais, há uma sensação de estar dominando o espaço virtual com nossas opiniões, perdendo de vista que fazemos isso em um círculo (uma rede) formado principalmente por pessoas que compartilham opiniões, pontos de vista e interesses políticos ou sindicais semelhantes. Contudo, o mundo real é muito maior. Vamos tentar explicar esse fenômeno por meio de nossa própria experiência prática. Em uma fábrica, em um bairro popular ou em uma comunidade onde realizamos nossa atividade política, nem todos os membros fazem parte de nossas redes sociais. Se quisermos “alcançar a todos”, é possível fazê-lo por meio de assembleias, reuniões, panfletos, jornais impressos e propagandas elaboradas e direcionadas ao público específico. Portanto, é essencial agir simultaneamente de ambas as formas.

O que fizemos até agora nas redes sociais e por meio dos meios digitais é importante, mas insuficiente; precisamos elevar nossa presença nos meios digitais a novos patamares e nos aventurar na utilização de ferramentas como o YouTube e podcasts, que se mostraram eficazes. Durante os primeiros meses da pandemia, as redes sociais de várias organizações de massa e políticas em que atuamos cresceram em número de seguidores, não só porque as pessoas buscavam informações, mas também porque encontravam respostas em nossas mídias – ou seja, em nossa política. Sentiam que suas vozes e pensamentos estavam sendo representados. Realizamos uma importante ação de agitação nas redes sociais e obtivemos uma resposta; agora, precisamos aprofundar e desenvolver ainda mais essa atividade.

Politizar as Massas

A pedra angular do movimento revolucionário de massas é a consciência política, que se constrói através da experiência das massas na luta contra seus inimigos de classe, juntamente com o trabalho de politização desenvolvido sistematicamente pelo partido do proletariado por meio de agitação e propaganda permanentes. A célebre frase de Lênin, “sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário”, ilustra bem essa ideia.

Baseando-se na experiência acumulada pelo Partido no campo da propaganda e visando melhorar sua relação com as massas, bem como incorporá-las à atividade e luta política revolucionária, é essencial promover uma ofensiva pela politização dos trabalhadores, da juventude, das mulheres e dos povos, além de disseminar nossas concepções político-ideológicas e nossos objetivos estratégicos.

O desenvolvimento e os efeitos da crise econômica do capitalismo, somados à pandemia de Covid-19, impactaram profundamente as condições de vida dos trabalhadores e dos povos. As medidas econômicas adotadas pela burguesia para proteger os interesses do grande capital levaram milhões de trabalhadores a questionar o atual sistema de exploração. O descontentamento das massas com o que ocorre no mundo cresce, assim como o desejo de mudança.

“O cenário aberto pela crise atual”, afirma o CIPOML, “cria condições mais favoráveis para avançar na conscientização, politização e organização da classe trabalhadora, da juventude e dos povos. Nós, partidos e organizações marxista-leninistas, temos uma grande oportunidade de desenvolver nosso trabalho nessa direção, de fortalecer nossas forças em cada um de nossos países e de ampliar a influência e a organização da Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxista-leninistas (CIPOML) entre os trabalhadores e povos do mundo. Essa oportunidade representa para os revolucionários proletários um grande desafio, que assumimos com convicção e coragem para mostrar a necessidade da revolução, fortalecer e desenvolver nossos partidos e avançar no processo de acumulação de forças revolucionárias.”

No entanto, a configuração de um cenário político e social que cria melhores condições para nossa atividade política não implica, por si só, um caminho fácil. Precisamos trabalhar arduamente para elevar essa situação a níveis mais altos. Estamos cientes de que, tanto local quanto internacionalmente, a esquerda revolucionária ainda é fraca, e sua principal fraqueza reside no alcance limitado de suas concepções, pontos de vista e propostas conjunturais e estratégicas entre as massas. Além disso, a maioria das pessoas tem uma visão distorcida do que é a esquerda revolucionária. O que os marxista-leninistas pensam e querem fazer para transformar o mundo é muitas vezes visto através dos olhos da burguesia, e não pela perspectiva do trabalhador consciente.

Para superar essa situação e alcançar saltos no crescimento do nosso Partido e de suas forças, propomos um trabalho intensivo de politização das massas, impulsionando uma ofensiva ideológica em que todos os militantes e suas forças sejam atores ativos. Esse trabalho deve ser realizado com o apoio de todas as capacidades e recursos políticos e técnicos à nossa disposição.

Referências Bibliográficas

1. ENGELS, Friedrich. O papel do trabalho na transformação do macaco em homem. 1. Ed. Global, São Paulo, 1986.

2. CIPOML. Os trabalhadores e o povo arcam com o peso da pior crise das últimas décadas. Julho de 2020.

3. KAHNEMAN, Daniel. Pensando rápido, pensando devagar. 1. Ed. Random House Grupo Editorial, Colômbia, 2017.

4. RÍOS, Alejandro. O papel da consciência na luta política das massas. 1. Ed. Disponível na revista “Política”, Ediciones ERE, Quito, 2017.

5. STÁLIN, Josef. Sobre o Marxismo na Linguística. 1. Ed. Disponível na revista “Problemas”, Edições Vitória, Rio de Janeiro, 1952.