Pablo Miranda: “Trabalhamos para aproximar as batalhas finais da vitória”
O Partido é um grupo que está lutando, avançando. Às vezes com mais força e intensidade, às vezes um pouco mais devagar, porque é isso que as condições e circunstâncias nos impõem, mas também às vezes porque erramos o alvo, cometemos um erro em nosso julgamento. É disso que se trata a ação revolucionária.
QUITO (EQUADOR) — Em agosto de 1998, o jornal En Marcha publicou um artigo intitulado No Início Éramos 18, referindo-se ao número de participantes do Congresso Constituinte do PCMLE. Entre esses pioneiros estava Pablo Miranda, então com 21 anos, dirigente da Juventude Comunista em Loja, sua província natal. Hoje, Pablo é um dos principais dirigentes do partido, reconhecido por sua vasta experiência política e sólida formação teórica marxista-leninista.
Recentemente, tivemos uma conversa extensa com Pablo, onde discutimos os primórdios do Partido e alguns dos momentos mais significativos enfrentados ao longo das seis décadas de sua existência. Conversamos também sobre suas perspectivas a respeito do cenário político nacional e internacional, além de questões teóricas relevantes. Hoje, compartilhamos com vocês uma pequena parte desse diálogo.
Pablo, vamos começar a entrevista com uma pergunta que poderia ser a última: como você avalia o partido agora, 60 anos após sua fundação? O PCMLE, hoje, é um partido mais experiente, mais firme em suas concepções e em sua adesão ao marxismo-leninismo. Ele está mais profundamente envolvido na vida da classe trabalhadora e dos povos do Equador, intensamente integrado ao processo de luta dos trabalhadores e das massas populares. Atualmente, o partido tem um presente marcado pela luta e uma perspectiva clara de vitória, que dependerá tanto das nossas ações, enquanto comunistas, quanto da capacidade que tivermos de fazer com que a classe trabalhadora e os povos adotem nossos ideais e bandeiras de luta.
Esse desenvolvimento é um processo contínuo, não linear, mas que avança por meio de ziguezagues, reviravoltas e desafios. No entanto, o essencial é que estamos sempre avançando.
Há dez anos, o senhor escreveu um texto intitulado De Olho na Vitória, no qual aborda a relatividade do tempo em suas dimensões qualitativa e quantitativa. Com esses parâmetros, como o senhor avalia os anos vividos pelo partido? Esses anos têm sido extremamente intensos para o partido e para a vida de seus militantes. A intensidade dos anos vividos reflete a vitalidade do partido e sua profunda inserção no contexto da sociedade equatoriana. Nosso partido conquistou um nome e, para um setor significativo dos trabalhadores e dos povos, é um ponto de referência em suas lutas e ações. Ao mesmo tempo, é alvo constante da direita, da reação e de todos os governos.
Acredito que essa relatividade do tempo, no caso específico do partido e de sua luta, é uma expressão do desenvolvimento e do desdobramento contínuo de sua vida e de suas ações.
Quando o partido foi fundado, qual era sua expectativa sobre o que o partido seria 50 ou 60 anos depois? Na época da fundação, a situação internacional oferecia perspectivas promissoras, não apenas para os revolucionários do Equador, mas para os de todo o mundo, especialmente na Ásia, África e América Latina. Eu, em particular, via a revolução como uma tarefa que deveria se concretizar a médio prazo, e não como uma meta distante.
Internamente, enfrentávamos um cenário complicado. Estávamos sob uma das mais severas ditaduras anticomunistas que o Equador já conhecera, imposta pelo imperialismo norte-americano. O primeiro decreto dessa ditadura baniu o Partido Comunista, obrigando-nos à mais absoluta clandestinidade. Lutávamos também contra a direção do antigo PCE, que advogava pela preservação do partido em vez de engajar-se na luta.
Nós, no entanto, tínhamos a firme convicção de que havíamos nascido para lutar, para avançar e para alcançar a vitória.
Quais foram os principais pontos que abriram os campos entre as posições dos revisionistas e dos marxista-leninistas no antigo partido? Um dos principais pontos de discordância foi a tese sobre o caminho da revolução equatoriana. A grande discussão girou em torno de duas abordagens divergentes: a proposta de seguir o caminho da violência revolucionária das massas, defendida pelos marxista-leninistas, ou a ideia de buscar uma luta democrática e sindical como sugerido pela direção revisionista do partido.
Além disso, o debate também envolveu questões específicas do contexto nacional e interno do partido. Naquela época, as declarações e opiniões dos partidos comunistas engajados na luta revolucionária mundial não eram amplamente conhecidas pelas bases. O conhecimento disponível era limitado ao que era divulgado, como a revolução cubana e o impacto dessa revolução. A influência dessas questões internacionais se refletia na vida cotidiana das pessoas e na visão dos comunistas mais antigos do PCMLE daquela época.
Como foi esse processo de luta ideológica? Foi um processo longo e complexo. Na época, eu residia em Loja, uma província distante da capital, e, portanto, não tinha acesso direto às informações sobre o que estava ocorrendo em nível central. No entanto, dentro do movimento estudantil e, especialmente, no movimento dos trabalhadores liderado pelo CTE, havia um intenso debate sobre a melhor forma de enfrentar a ditadura militar.
No primeiro dia da ditadura militar, quase metade do Comitê Central do antigo partido foi presa, deixando-nos sem direção efetiva. Nesse contexto, na Juventude Comunista, assumimos a responsabilidade que era de nossos antigos dirigentes, e procuramos manter a continuidade da luta e a coesão organizacional, apesar das dificuldades.
Quando foi tomada a decisão de constituir um novo partido e quais foram as medidas tomadas para chegar a essa constituição? A decisão de constituir um novo partido foi tomada após um intenso debate dentro do Comitê Central do antigo PCE, que estava dividido entre as posições revolucionárias marxista-leninistas e as posições pacifistas e revisionistas. A crise no partido se agravou quando o Comitê Central decidiu expulsar três de seus membros que defendiam as teses revolucionárias.
O 7º Congresso do Partido, realizado em março de 1963, antes da instauração da ditadura militar, expressou um entusiasmo extraordinário. Durante o congresso, foi aclamada a posição de que a revolução equatoriana deveria seguir um caminho não pacífico. Naquele momento, a decisão foi interpretada como uma opção estratégica para a luta revolucionária, ainda que não fosse explicitamente sobre a guerra revolucionária. O congresso revelou a determinação da imensa maioria dos delegados em se engajar na luta revolucionária.
No entanto, a verdadeira natureza das contradições internas não era amplamente conhecida por todo o partido. Poucos meses após o congresso, em julho de 1963, a ditadura foi instaurada e começou a repressão. O enfrentamento foi direto: os membros do partido que resistiram foram perseguidos, alguns fugiram e outros foram presos. A justificativa de alguns era que não podiam fazer a revolução enquanto estavam na prisão. Questionamos por que estavam em suas casas quando foram presos e por que não estavam vivendo na clandestinidade, como haviam afirmado anteriormente, já que o partido estava organizado para enfrentar a ditadura por meio da luta revolucionária.
Quais são os elementos que você mais se lembra sobre o congresso? Lembro-me que entramos no local do congresso à noite e as deliberações começaram por volta das 18 ou 19 horas, continuando até o amanhecer. Participaram do congresso três ou quatro camaradas delegados da juventude, enquanto o restante eram militantes veteranos do movimento sindical e do partido.
O debate foi intensamente focado na luta contra o revisionismo e na estratégia para a revolução no Equador. Os jovens delegados formaram um bloco que apresentou propostas claras, como a necessidade de organizar a revolução efetivamente e deixar as palavras para trás, focando em ações concretas. Também propusemos que o congresso não se dedicasse a reivindicar a direção do antigo partido, mas sim à construção de um novo partido, uma vez que a proposta inicial era assumir a direção do partido antigo.
As lembranças mais marcantes são o otimismo que sentimos ao final do congresso. Estávamos satisfeitos com as resoluções que foram tomadas, com a formação do novo partido, a eleição de um Comitê Central e o estabelecimento de uma orientação clara para começar a trabalhar pela revolução a partir do dia seguinte.
Em 60 anos, o partido passou por momentos difíceis e conquistou vitórias importantes. Quais foram os momentos mais difíceis que ele enfrentou? O partido enfrentou dois momentos particularmente difíceis ao longo de sua história. O primeiro foi nos dois primeiros anos de sua existência, quando a repressão foi intensa. Muitos dos principais camaradas do Comitê Central estavam fora do país, em exílio, ou presos. Nesse período, o imperialismo norte-americano e a CIA conseguiram infiltrar agentes na direção do partido, como Cárdenas e Vargas, que acabaram sendo expulsos posteriormente.
Outro período difícil ocorreu durante o governo de Rafael Correa, quando o correísmo se opôs fortemente ao partido. Embora não tivéssemos prisões, as teses e políticas promovidas por Correa impactaram os setores de massas com os quais trabalhávamos e resultaram na deserção de alguns militantes. Enquanto alguns se alinhavam ao correísmo, a maioria permaneceu leal, com alguns até se tornando nossos amigos. Esse período causou um desgaste orgânico no partido, que havia experimentado um crescimento significativo antes desse ponto de inflexão.
Atualmente, estamos trabalhando para recuperar posições. Em algumas frentes, conseguimos avançar e retomar nossa influência, mas em outras ainda não recuperamos totalmente nossa força. A perspectiva é que, em breve, conseguiremos restabelecer nossa força e avançar, sempre com o objetivo de recuperar, desenvolver e nos aproximar das batalhas finais rumo à vitória.
E os momentos em que houve o maior progresso? Podemos analisar o progresso do partido em duas áreas principais. A primeira é o estabelecimento e o crescimento do Partido, que se expandiu para todas as 24 províncias do Equador. Quando formamos o partido, inicialmente tínhamos representantes em apenas sete províncias. Esse crescimento foi um processo significativo e estruturante.
Outro marco importante foi a criação da União de Camponeses do Equador (UCAE), a primeira organização social de caráter nacional fundada pelo partido. Seguindo essa linha, também destaco a constituição da União Geral dos Trabalhadores do Equador (UGTE), que se tornou uma força muito importante. A classe trabalhadora conseguiu, por meio dessa organização sindical independente, de caráter nacional e com base na classe, lutar pelos seus objetivos imediatos e de médio prazo. Esses foram momentos chave no fortalecimento do partido.
Um outro momento decisivo foi quando o partido decidiu participar positivamente das eleições da democracia representativa. Foi então que organizamos um instrumento político, o Movimento Popular Democrático (MPD), um partido de esquerda que integrou comunistas, pessoas de esquerda, trabalhadores, jovens e professores com posições democráticas e progressistas. A criação do MPD foi um ponto alto no processo de construção do nosso partido.
O trabalho do MPD, especialmente a eleição de Jaime Hurtado como deputado nacional, foi um testemunho da importância desse instrumento político. Jaime Hurtado, um revolucionário proletário, entrou para o partido com sua constituição e, poucos meses antes de 1º de agosto de 1964, já militava nas fileiras do partido na Universidade de Guayaquil. Levar um militante do Partido Comunista Marxista-Leninista ao Congresso Nacional foi outro momento crucial e um marco no progresso do partido.
O que foi feito tem um significado histórico importante, pode ser uma fonte de satisfação ter defendido as posições marxista-leninistas, ter um partido e ter feito crescer uma vanguarda como o PCMLE? Acredito que o que alcançamos tem, sim, um significado histórico importante e é, sem dúvida, uma fonte de satisfação. Conseguimos defender o partido contra o cerco anticomunista, manter firmes suas posições marxista-leninistas fundamentais e envolvê-lo profundamente na vida social e política do país. Isso é uma conquista significativa, mas é importante lembrar que a luta revolucionária não se resume a uma única vitória; ela precisa ser uma cadeia contínua de conquistas.
Quando conseguimos um sucesso parcial, naturalmente sentimos uma felicidade, um otimismo, acreditamos que estamos no caminho certo e que devemos continuar nessa direção. Essas conquistas são parte da experiência acumulada e servem como referência para futuras ações. No entanto, é crucial lembrar que não podemos simplesmente esperar que o que funcionou ontem seja igualmente eficaz hoje ou amanhã. As condições mudam, o movimento se desenvolve, e a revolução não é uma repetição mecânica de eventos, mas sim uma expressão contínua de inovação, desenvolvimento e impulso na luta.
Uma das grandes virtudes do PCMLE é estar sempre envolvido na luta. Por estarmos constantemente buscando novas direções, acertando em algumas e errando em outras, somos um partido que está vivo, que luta. Não há espaço para complacência. O partido está sempre avançando, às vezes com mais força e intensidade, outras vezes de maneira mais lenta, conforme as condições e circunstâncias exigem. Isso também ocorre porque, em alguns momentos, cometemos erros em nossos julgamentos. Mas essa é a natureza da ação revolucionária: é um processo dinâmico e em constante evolução.
