Enver Hoxha não foi refutado — Como o Maoísmo distorce a realidade para reafirmar seu esquerdismo e suas mentiras
Análise crítica do artigo de Nagalingam Shanmugathasan, “Enver Hoxha Refutado”, para o Blog Servir ao Povo, as causas do rompimento ideológico e político de Enver Hoxha com Mao Zedong e a vitalidade do marxismo-leninismo e da luta contra o revisionismo moderno.
A relação política entre Mao Zedong e Enver Hoxha constituiu parte da história do Movimento Comunista Internacional (MCI) no abrangente período de luta contra o revisionismo moderno iniciado pelo 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). O período de 1960-1980 representou um momento sui generis na história do MCI, a ruptura sino-albanesa com a Nota do Ministério das Relações Exteriores da China e a resposta da Albânia com a Carta do Comitê Central do Partido do Trabalho da Albânia abriram portas para diversas análises de princípios nos partidos marxista-leninistas de todo o mundo que se viam confusos diante de um rompimento que não se desenhava entre esses dois países. Os marxista-leninistas aderiram fielmente às suas concepções históricas e desenvolveram suas análises particulares de acordo com suas plataformas, mais uma vez o MCI se via com uma fissura causada pelo revisionismo moderno, tão semelhante, mas ao mesmo tempo tão diferente dos acontecimentos com Nikita Khrushchev apenas 18 anos antes. De fato, a Albânia socialista, mesmo pequena, tinha aprendido diversas lições com os amargos acontecimentos de 1960 com a União Soviética e o khrushchevismo, tinha aprendido a identificar os inimigos onde quer que estivessem, a enfrentar verdadeiros impérios sozinha.
Como mostra o camarada Enver Hoxha, ele se pôs por 18 anos inteiros a estudar o que acontecia na China, seus motivos e suas vicissitudes, a fazer reflexões profundas ao mesmo tempo que se mantinha vigilante com os amigos e mais vigilante ainda com os inimigos. Enver, como estadista, precisava tirar conclusões sobre os eventos da história. Dessa forma, em seu período de vida, ninguém estava livre da arma de sua crítica, nem mesmo figuras endeusadas por milhões de homens e mulheres, às vezes retratado como o próprio Sol por Lin Biao: Mao Zedong. Para Enver, homens são apenas homens e não estão acima da crítica e das massas, era necessário então tirar conclusões marxista-leninistas sobre aquela figura.
Nagalingam Shanmugathasan, secretário-geral do Partido Comunista do Ceilão (Sri-Lanka), teve a infelicidade de escrever um artigo fraco sobre as concepções de Enver Hoxha sobre Mao Zedong, mostrando que ele claramente não compreendeu a época e a realidade em que vive – abordaremos profundamente no decorrer desse artigo – ao mesmo tempo que crava suas verdades: “Enver Hoxha foi refutado!” – iremos, pois, questionar essa suposta “verdade” propagada até hoje pelos maoístas (sejam eles gonzalistas ou não) como amostra de que prevalece em vigência, ao contrário, o marxismo-leninismo criador, livre de todo ruído causado pelo mosquito chato e minúsculo do maoísmo em política. Ao mesmo tempo, nos é triste ver que é baixo a política de formação de quadros do Sri-Lanka, pois foram necessários apenas dois militantes da base da Unidade Popular (UP) para desmascarar as mentiras, o sectarismo e o esquerdismo de um secretário-geral maoísta. Verificaremos seu artigo parágrafo por parágrafo.
Nagalingam Shanmugathasan se encontrou diante da difícil tarefa de refutar toda a obra do camarada Enver Hoxha, um escritor prolífico que, em seus textos, faz questão de não deixar pontas soltas, o camarada Enver Hoxha, ao contrário, deixava tudo bem amarrada para ser o mais bem compreendido por todos e todas. Adiantamos, de forma radical, que por conta disso Shanmugathasan não encontrou nada além do que uma rocha de granito na sua frente e, por essas e outras razões, ele foi incapaz de responder uma mísera metade do que o camarada Enver Hoxha aborda em seus escritos, tornando todo o conjunto do artigo de Shanmugathasan em nada além de peso para a porta. Faremos questão de evidenciar isso ao longo de toda a nossa resposta.
É importante que a leitura do artigo de Shanmugathasan seja realizada por todos, seguida de um retorno a esta discussão, onde analisaremos profundamente suas ideias, falhas e as limitações de seus argumentos. O secretário-geral, por várias razões, mostra-se incapaz de entender a profundidade das palavras de Enver Hoxha, estando profundamente enraizado na fraseologia e no senso comum maoísta. Afirmamos que Enver Hoxha desmantelou esse senso comum, estabelecido pela tradição política maoísta, e lhe conferiu uma nova e revigorante perspectiva da tradição marxista-leninista revolucionária. Assim, reiteramos que Shanmugathasan representa apenas a expressão desse senso comum maoísta, que foi desfeito, superado e enterrado por Enver Hoxha e pelo Partido do Trabalho da Albânia. Isso é evidenciado pelo fato de que não existe nenhum argumento apresentado por Shanmugathasan que não tenha sido previamente destruído pelo povo albanês e seu líder durante a luta contra o revisionismo chinês.
Os Motivos para o fim da Comintern
É curioso o início do artigo, mas é fato que Nagalingam Shanmugathasan não compreendeu o que levou ao fim da Comintern. Ele coloca que “certos compromissos que lhe foram impostos por várias razões, principalmente a necessidade de facilitar a entrada de partidos comunistas locais em coligações anti fascistas nacionais que incluiriam até forças não-proletárias levaram à sua dissolução em 1943” – isto simplesmente não é verdade. Na verdade, essa concepção é muito semelhante aos esquerdistas que não compreenderam as táticas revolucionárias da Comintern de combate ao fascismo generalizadas pelo grande trabalho de Georgi Dimitrov em A Unidade Operária Contra o Fascismo, acreditando que em alguma medida tudo fora resultado de “concessões de princípios”, quando na verdade Dimitrov deixa bem claro que os revolucionários jamais devem abaixar a bandeira da revolução socialista e seu programa político em nome da necessidade de combater o fascismo, isso é pura lorota.
Lutando do modo mais resoluto por extirpar e superar os últimos vestígios do sectarismo enfatuado, temos que fortalecer por todos os meios nossa atenção vigilante e nossa luta contra o oportunismo de direita e contra todas as manifestações concretas, não esquecendo que o perigo deste oportunismo crescerá à medida que se for desenvolvendo uma ampla frente única. Já existem tendências para reduzir o papel do Partido Comunista nas fileiras da frente única e reconciliar-se com a ideologia social-democrata. (Não se deve perder de vista que a tática da frente única é um método para persuadir praticamente os operários social-democratas da justeza da política comunista e da falsidade da política reformista, e não uma reconciliação com a ideologia e a prática social-democratas. A luta eficaz por estabelecer a frente única exige de nós iniludivelmente uma luta constante dentro de nossas próprias fileiras contra a tendência para reduzir o papel do Partido, contra as ilusões legalistas, contra a orientação para o espontaneísmo e o automatismo, no que diz respeito à liquidação do fascismo, como no que se refere à consecução da frente única, contra as menores vacilações, chegado o momento da atuação resoluta.
Para entender a dissolução da Comintern não veremos nenhuma “concessão”, mas uma decisão que foi refletida pelo caminhar da Grande Guerra Patriótica. A fonte para entender esse acontecimento são os próprios Diários de Dimitrov:
Fui ver Molotov hoje à noite, junto com Manuilsky. Discutimos o futuro da Comintern. Chegamos à conclusão de que a Comintern como centro de direção dos partidos comunistas nas condições atuais é um impedimento para o desenvolvimento independente dos partidos comunistas e para a realização de suas tarefas específicas. Elaboramos um documento dissolvendo esse centro.
[...] Manuilsky e eu editamos a minuta da Resolução do CEIC Sobre a Dissolução da Internacional Comunista. Enviamos a minuta para Stálin e Molotov.
Esta noite, Manuilsky e eu nos reunimos com Stálin (Molotov estava presente). Stálin aprovou nossa minuta. Discutimos a implementação da resolução. Chegamos a um acordo sobre o seguinte procedimento: 1) considerar a minuta em uma reunião do Presidium e adotá-la como uma proposta para as seções; 2) distribuí-la para as seções e solicitar seu consentimento; 3) após receber o consentimento das seções, publicá-la. Quanto às funções que devem continuar daqui para frente e de que forma — Malenkov e eu fomos encarregados de discutir e elaborar uma proposta concreta.
A esse respeito, Stalin disse: “A experiência demonstrou que não é possível ter um centro de direção internacional para todos os países. Isso ficou evidente durante a vida de Marx, de Lênin e hoje. Talvez deva haver uma transição para associações regionais, por exemplo, da América do Sul, dos Estados Unidos e do Canadá, de alguns países europeus, e assim por diante, mas mesmo isso não deve ser apressado”. (p. 270-271 – Tradução nossa).
Stálin faz uma leitura histórica que não pode passar despercebida e que revela seu real interesse na luta pela concretização da revolução naquele período: “A Internacional foi fundada no tempo de Marx na expectativa da revolução internacional iminente. A Comintern foi criada com Lênin, igualmente num período idêntico. Agora, as questões nacionais passam para primeiro plano em cada país. Porém, a situação dos partidos comunistas enquanto seções de uma organização internacional, subordinadas ao Comitê Executivo da Internacional Comunista (CEIC), constitui um entrave. Não se agarrem ao que existia ontem. Avaliem rigorosamente as novas condições criadas”.
Em nenhum momento foi colocado que a dissolução da Comintern seria uma concessão à social-democracia no combate ao fascismo ou qualquer forma de diálogo com as “coligações anti fascistas nacionais que incluiriam até forças não-proletárias” — isso é pura invenção de Nagalingam Shanmugathasan e dos esquerdistas em geral que são incapazes de compreender a situação criada pela Grande Guerra Patriótica e como se desenvolvia a luta de classes nos países do mundo, é falta de capacitação teórica e estudo profundo da história do MCI. Seguiremos.
O PTA e o Internacionalismo Proletário
A próxima afirmação entra em meandros da necessidade do reconhecimento de novos partidos e organizações marxista-leninistas e quais as táticas adotadas pelo PCCh e pelo PTA em relação ao apoio desses países. Nagalingam Shanmugathasan reconhece que o PTA era o único que adotava a concepção de reconhecer apenas um partido ou organização por país, mas afirma logo em seguida que “mas não tinha normas claras ou de princípios” – uma tremenda falácia sem nenhuma espécie de comprovação histórica; é apenas uma afirmação vazia, uma declaração pura e simples. O PTA sempre reconheceu as organizações que tinha uma plataforma, programa e princípios marxista-leninistas. Não há registro histórico de nenhuma única organização que tenha recebido o apoio do Partido do Trabalho da Albânia (PTA) que não esteja em conformidade nem mesmo com as normas leninistas de organização, isto é, o centralismo democrático, programa e estatutos orientados de acordo com o marxismo-leninismo.
Onde essas organizações não existiam, o PTA se mobilizou para apoiar politicamente sua criação, como no caso do Partido Comunista Revolucionário Voltaico (PCRV) de Burkina Faso, ou o Partido Comunista Português (Reconstruído) (PCP-R), entre diversas outras organizações revolucionárias pelo mundo. Não são poucos os exemplos de como Tirana se tornou um refúgio para diversos revolucionários no mundo que buscavam uma forma de reorganizar a luta em seus países, inclusive para o Brasil, com a 7ª Conferência Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) sendo na capital albanesa. Fica comprovado que Nagalingam Shanmugathasan mente em seu artigo.
Delegações Internacionais
No caso, Nagalingam Shanmugathasan não compreende o motivo do PCCh não enviar ou receber delegados internacionais em seus congressos a partir do 9º Congresso do Partido Comunista da China, que cessou essa atividade internacionalista. Curioso é o fato dele não saber as origens e motivos dessas práticas tão propagadas pelos seus colegas maoístas. Enver Hoxha, em sua obra Reflexões Sobre a China, relata em duas passagens de seu diário um debate que se travava contra o maoísta australiano Edward Hill, Presidente do Partido Comunista da Austrália (Marxista-Leninista) (PCA-ML). Hill deixou bem claro o motivo dessa prática para Enver. Ele afirmava que a participação nos procedimentos do congresso de um partido coloca os outros partidos comunistas convidados em uma posição delicada e complicada, pois ele acredita que “ele deve fazer uma extensa turnê, entrar em contato e manter conversas bilaterais com um grande número de partidos marxista-leninistas e, somente se eles estiverem de acordo sobre este ou aquele assunto, ele deve apresentar este ou aquele problema que deve estar resolvido em seu próprio congresso, ao passo que, se encontrar uma posição contrária, não deve ser apresentado de forma alguma”. O exemplo que Hill dá para essa linha do PCCh é o conhecido vexame e humilhação que Zhou Enlai passou no 22º Congresso do PCUS.
Enver desmascara essa opinião de forma muito inflamatória, mostrando que “isso significa que você deveria realizar seu congresso de uma forma hermética da qual ninguém deve ouvir o que temos a dizer. Esse é o desejo ardente dos revisionistas modernos, dos soviéticos e, ao mesmo tempo, dos imperialistas, que todos eles não sejam importunados, que o nosso lado não fale sobre a atividade que eles desenvolvem contra o comunismo, contra os povos e contra os países socialistas” — Enver mostra que essa prática de evitar o debate, de atenuar as contradições apenas enfraquecia o campo marxista-leninista enquanto deixava os revisionistas livres para continuar propagando seu oportunismo de direita no Movimento Comunista Internacional (MCI). Esse momento mostra como nem mesmo Nagalingam Shanmugathasan, um secretário-geral, estava a par da estratégia e tática do movimento maoísta internacional, apenas deixando se levar pela maré dos acontecimentos.
A Teoria dos Três Mundos e Mao Zedong
Tão atrasado estava Nagalingam Shanmugathasan acerca do próprio movimento, que ele nem mesmo percebeu no parágrafo seguinte que a “teoria dos três mundos” nasceu com o próprio Mao Zedong e existem fartas evidências documentais disso.
Nos anos de 1970, os revisionistas chineses, tendo o Partido Comunista da China (PCCh) à frente, adotaram a chamada “teoria dos três mundos” como fundo ideológico e justificativa teórica para o desenvolvimento de sua política externa pragmática, que não era mais baseada nos princípios do internacionalismo proletário, mas sim no plano social-chauvinista de se tornar uma superpotência social-imperialista. Isto foi possível através de três fatores geopolíticos fundamentais:
Uma aproximação pragmática e oportunista com os Estados Unidos da América, que ficou marcada com a visita de Nixon à China em 1972. Isso era necessário, principalmente, porque a direção chinesa precisava obter capitais e tecnologia dos EUA. Tal política ficou internacionalmente conhecida como “Diplomacia do pingue-pongue”;
Se justificando como oposição à teoria da “soberania limitada” de Brejnev, a China tendenciou para um esfriamento das relações com a União Soviética, e o PCCh taxou a antiga URSS como principal perigo imperialista aos povos (até mais perigoso que os EUA, ao qual o consideravam como um imperialismo em decadência, um “rato tímido”);
A partir da segunda metade da década de 70, a China se aproveitou do deslocamento internacional do setor produtivo da manufatura e de indústrias do norte do planeta para todo o sudeste asiático. Esse deslocamento beneficiou, mais tarde, países como a Índia, em menor escala o Vietnã, e principalmente, a China que dava passos de se tornar a “fábrica do mundo”.
Para permitir um desenvolvimento acentuado de sua economia, a China então precisa estabelecer relações diplomáticas em todas as partes, principalmente no “mundo não-alinhado”. Desta forma, então, o mundo se divide em três. Em 22 de fevereiro de 1974, já há os primeiros registros de Mao Zedong falando da “teoria dos três mundos” com Kenneth Kaunda, então Presidente da Zâmbia. Em abril do mesmo ano, Deng Xiaoping, então Vice Premier, fala à 6ª Sessão Especial das Nações Unidas e formula, de acordo com a linha política estabelecida e a autorização do PCCh, mais profundamente como seria a divisão do mundo em três. Em todos esses momentos, Mao Zedong estava plenamente vivo. Mais: em março de 1974, quando o Birô Político se reuniu para escolher o líder da delegação na ONU, Jiang Qing discordou da escolha de Deng Xiaoping. Em 27 de março, Mao Zedong escreveu para Jiang Qing: “escolher Deng Xiaoping é minha ideia; é melhor que você não se oponha”. O discurso de Deng Xiaoping na sessão especial da ONU foi aprovado pelo Birô Político e revisado por Mao Zedong. Em 4 de abril, Mao Zedong comentou sobre o discurso: “Ótimo. Eu o endosso”.
Em outro artigo de seus diários, o camarada Enver Hoxha também mostra como essa ideia de que a “teoria dos três mundos” como algo que surgiu apenas posteriormente à morte de Mao Zedong não tem sentido. Ele responde:
No que diz respeito ao “terceiro mundo” e à aliança deste “mundo” com os outros dois “mundos”, ou seja, em relação a “teoria dos três mundos”, os dirigentes partidários de alguns países da América Latina julgam, sem dados e detalhes verdadeiramente factuais e suficientes, que não foi Mao Zedong quem pregou esta teoria, mas somente Deng Xiaoping. Dessa forma, esperam dizer que Mao errou ao receber Nixon, mas não se aprofundam nas razões dessa visita, os motivos de Mao aguardar Nixon e, o pior, ignoram os eventos e consequências posteriores a este evento, portanto, apenas dizem que a “teoria dos três mundos” pertence aos outros renegados chineses e não a Mao. Mas, na verdade, esta teoria é de Mao, não apenas porque ele próprio pregou essa aliança, mas a recepção e os acordos com Nixon, finalmente alcançados com os Estados Unidos da América, são as provas de que essa era uma teoria de Mao Zedong.
Fica evidente, dessa forma, que a teoria dos três mundos nasceu diretamente de Mao Zedong e do PCCh sob sua direção. Também fica patente que Nagalingam Shanmugathasan estava completamente alheio ao que acontecia em seu próprio movimento político, vivendo em um mundo de ilusões. Ele é incapaz de entender por que Enver Hoxha e todo o PTA não aproveitaram essa oportunidade de ouro para atacar a teoria dos três mundos e expor a atividade contrarrevolucionária do PCCh sob Deng Xiaoping, unindo todos sob a bandeira do Pensamento Mao Zedong contra essa abominação teórica.
O que é uma incógnita para Shanmugathasan é, para nós, a mais cristalina evidência: se Enver Hoxha quisesse realmente denunciar a prática do PCCh com a teoria dos três mundos, ele teria que denunciar a atividade reacionária e todo o arcabouço teórico que constituía Mao Zedong como a figura central dessa situação. A origem do revisionismo chinês nunca esteve apenas nas mãos de Hua Houfeng e Deng Xiaoping; era uma responsabilidade integral do próprio Mao Zedong e seu pensamento teórico! Infelizmente, essa verdade óbvia é algo que Shanmugathasan, com sua miopia política, jamais foi capaz de enxergar.
O “Pensamento Mao Zedong” como a religião dos Revisionistas
Em seguida, Nagalingam Shanmugathasan comete o que de longe é a maior atrocidade de seu artigo, caindo para a mais pura cafonice teórica ao recitar o louvor religioso: “Hoje, a defesa do Pensamento Mao Zedong tornou-se a tarefa central de todos os marxista-leninistas. Pois a defesa do Pensamento Mao Zedong é nada menos que a defesa do marxismo-leninismo porque o Pensamento Mao Zedong é um desenvolvimento avançado do marxismo-leninismo. Quem rejeita o Pensamento Mao Zedong está rejeitando o marxismo-leninismo. É aqui que reside a importância do debate sobre o Pensamento Mao Zedong” — As coisas são porque são, não precisamos comprovar nada, não precisamos elaborar nenhum pensamento profundo sobre nossas análises teóricas, o que precisamos é apenas afirmar uma mentira como se fosse a mais pura verdade já dita! Não é possível que alguém leve isso a sério.
Muito se fala sobre pobreza teórica e falta de rigor entre os marxista-leninistas, mas não sabíamos que o nível dos ataques ao camarada Enver Hoxha viria sob um verniz teórico tão sujo e empobrecido onde absolutamente nada é comprovado, onde apenas dogmas absolutistas se formam na sua frente. Após afirmações como essa, vemos como Enver Hoxha olha para todos os maoístas de cima para baixo, jamais sob o mesmo nível teórico e político, pois ele era experiente em combater toda sorte de crendice vendida como “teoria política avançada”, Enver era profissional em desmontar esse tipo de miséria ideológica.
Shanmugathasan, após proferir essa porcaria dita como teoria, mente sobre o 7º Congresso do PTA. Ele afirma que Enver mentiu sobre o prefácio do livro Reflexões Sobre a China, dizendo que Enver não atacou Mao Zedong no congresso do partido e que ele era testemunha ocular, pois foi um dos delegados internacionais presentes no congresso. Aqui ele comete um grande erro, basta ler o prefácio do livro para entender.
Em seu 7º Congresso e na 2ª e 3ª Plenárias do seu Comitê Central, o Partido do Trabalho da Albânia (PTA) fez uma análise minuciosa da posição antimarxista e das ações contrarrevolucionárias da direção revisionista chinesa, sem excluir a responsabilidade de Mao pela situação criada. Essas notas podem ajudar os comunistas, os quadros e outros leitores a complementar seus conhecimentos sobre o curso do desenvolvimento do revisionismo chinês e a luta do PTA contra ele. (p. 04 – Grifo nosso e tradução nossa)
Shanmugathasan, por desonestidade ou lerdeza, não compreendeu que Enver estava se referindo ao artigo A Teoria e a Prática da Revolução, onde o PTA define sua política internacional em oposição a posição contrarrevolucionária chinesa, isso sem mencioná-los no 7º Congresso do PTA. Porém, ainda não viu, ou deliberadamente ignorou, que o Comitê Central do PTA se reuniu em sua 2ª e 3ª Plenárias, onde analisou e deliberou sobre a responsabilidade de Mao Zedong na atuação reacionária e social-chauvinista da direção chinesa. Para isso reproduzimos algumas passagens dessas plenárias onde são colocadas o papel de Mao Zedong na degeneração do revisionismo chinês. Essa primeira passagem é da 2ª Plenária do Comitê Central do Partido do Trabalho da Albânia (PTA) que ocorreu em 29 de setembro de 1977:
Se analisarmos atentamente os pensamentos políticos que guiam a China e o titoísmo, veremos que não há grandes diferenças entre eles. É por isso que a China mantém atualmente relações muito amigáveis com a Iugoslávia titoísta. As opiniões dos chineses sobre Tito e o titoísmo têm sido favoráveis há muito tempo. Já em 1956, Mao Zedong nos disse que “Tito não errou em suas ações e em sua linha, quem errou foi Stálin”. Isso significa que, desde aquela época, ou até antes, Mao Zedong concordava com a separação da Iugoslávia do campo socialista e com a luta sem princípios de Tito contra a União Soviética para degenerar o marxismo-leninismo. Isso também significa que ele concordava com a luta de Tito contra o sistema socialista estabelecido por Lênin e continuado por Stálin e pelo Partido Bolchevique. (p. 418 – Tradução nossa)
[...] Mao Zedong e o Partido Comunista da China, ao tratar da retificação das fronteiras estabelecidas desde a época dos czares entre a China e a União Soviética, fazem isso abertamente. No entanto, quando levantam a questão da quebra dos acordos da Segunda Guerra Mundial, alegando que “as fronteiras dos estados foram mal determinadas”, entende-se, por Stálin, que consideram “justo” e “marxista-leninista” que os albaneses do Kosovo devam permanecer em silêncio sobre a opressão que sofrem e a violação de seus direitos. Essa solução foi colocada no caminho "marxista" de acordo com o Sajfudin chinês, de modo que não houve problema entre a Albânia e a Iugoslávia nesse sentido. (p. 421 – Tradução nossa)
[...] O Partido Comunista da China (PCCh) desviou-se da linha marxista-leninista e combate os princípios essenciais cuja aplicação fortalece a unidade marxista-leninista dos comunistas do mundo. As ações do Partido Comunista da China contra nossos esforços para fortalecer a unidade nas relações entre os partidos marxista-leninistas são uma luta dissimulada, feita pelas costas, sujando os partidos verdadeiramente marxista-leninistas que permanecem fiéis aos ensinamentos de Marx, Engels, Lênin e Stálin, e que criticam as ações erradas e antimarxistas do Partido Comunista da China e do próprio Mao Zedong. (p. 425 – Tradução nossa)
[...] Quando começamos a luta contra o titoísmo e o revisionismo moderno khrushchevista, nunca nos sentimos isolados. Reconhecemos que o movimento comunista internacional sofreu uma derrota temporária, mas decidimos trabalhar, lutar, mobilizar-nos completamente e enfrentar toda essa furiosa corrente antimarxista nas circunstâncias que mencionei anteriormente. Atualmente, ao lado do revisionismo titoísta, soviético, etc., estamos testemunhando o surgimento de uma nova tendência revisionista que possui o mesmo caráter, o mesmo potencial político-ideológico e não é menos perigosa, mas ainda não foi desmascarada. Estou me referindo ao revisionismo chinês. É evidente que, contra este novo e perigoso oportunismo, os partidos marxista-leninistas devem proceder com cautela, porque a China maoísta ainda é amplamente reconhecida como um “bastião”, como um “forte guerreiro” do marxismo-leninismo na história até o momento presente. (p. 426 – Tradução nossa)
Agora as coisas estão ficando cada vez mais claras sobre o que Enver e o PTA consideravam papel de Mao Zedong na degeneração do revisionismo chinês. Mas ainda não é suficiente, fazemos questão de reproduzir as passagens da 3ª Plenária do Comitê Central do PTA para desmascarar ainda mais Shanmugathasan e suas mentiras. Essa plenária ocorreu no dia 17 de dezembro do mesmo ano:
Se olharmos um pouco para o passado e compararmos com o presente, notaremos que a luta dos revisionistas para tomar o poder e restaurar o capitalismo mantém características semelhantes às de três décadas atrás. Ranković e Tito tentaram colocar o partido sob o controle do Ministério da Administração Interna na Iugoslávia; Brejnev fez o mesmo na União Soviética; Mao Zedong e seus seguidores agiram de forma semelhante com o Gabinete Geral na China. (p. 445 – Tradução nossa)
[...] Nosso partido critica veementemente o revisionismo chinês, da mesma forma que criticamos o revisionismo iugoslavo, soviético e todas as outras correntes revisionistas. Mao Zedong, como mencionado aqui, certa vez nos disse: “Não se sabe quem ganha, se nós vencemos ou os inimigos do socialismo na China. No caso de o Partido Comunista da China trair o socialismo e nossa pátria se tornar um país revisionista, então o Partido do Trabalho da Albânia (PTA) tem o dever de se opor a ela”. Desde que o Partido Comunista Chinês nos traiu, temos nos oposto à sua traição. Mao Zedong pronunciou essas palavras em tempos de crise, quando o socialismo na China estava ameaçado e apenas a Albânia socialista e o PTA se levantaram para proteger a China dos revisionistas abertos que haviam surgido. Foram momentos extremamente difíceis, tanto para a China quanto para Mao, que viu seus oponentes ganharem força. Mesmo enfrentando esses desafios, não recuamos em nossa posição política. Hoje, estamos convencidos de que Mao Zedong e seu legado são contrários ao marxismo-leninismo e servem de apoio aos dirigentes revisionistas chineses, facilitando novos passos rumo à traição. É evidente que Mao Zedong tem grande responsabilidade por essa regressão que está se tornando mais evidente na China a cada dia. Portanto, nos insurgimos contra essa linha revisionista. (p. 448 – Tradução nossa)
[...] Os dirigentes chineses não apenas expressaram sua oposição à União Soviética ideologicamente, mas também questionaram todas as fronteiras estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial. Isso indica claramente sua intenção de criticar Stálin, a União Soviética e a Conferência de Yalta de 1945. Eles alegaram e continuam a afirmar que a União Soviética, durante o período de Stálin após a Segunda Guerra Mundial, fez um acordo com os imperialistas americanos e britânicos para dividir áreas de influência. Os chineses promoveram avidamente essa visão, inventada pelo imperialismo global, que Tito também apoiou e continua a apoiar. Ao levantar a questão da “revisão de todas as decisões na Europa”, eles buscavam encorajar sentimentos chauvinistas e nacionalistas na Europa, na tentativa de atrair os países da antiga democracia popular para seu lado. Nesse contexto, Mao Zedong mencionou as fronteiras da Polônia, Romênia e Tchecoslováquia, mas convenientemente “esqueceu” de mencionar as fronteiras da Albânia e ignorou o Kosovo, que as potências imperialistas haviam roubado da Albânia e “dado” à Iugoslávia. (p. 449 – Tradução nossa)
Atualmente, os seguidores de Mao propagandeiam os chamados sucessos no Kosovo, apesar de nem mesmo a mídia iugoslava conseguir esconder o grande atraso dessa província. A política internacional chinesa também mostrou tendências maoistas para criar novos aliados revisionistas que poderiam apoiar suas ambições globais.
Outro ponto crítico foi a atitude totalmente reacionária da direção chinesa em relação aos imperialistas americanos. O Politburo e muitos camaradas do Comitê Central estavam cientes dessas questões quando as relatamos ao plenário. Estamos bem informados sobre os inúmeros fatos que evidenciam a postura antimarxista de Mao, seus camaradas e do Partido Comunista Chinês. Para chegar às conclusões que relatamos, nos baseamos principalmente em documentos que refletem as relações entre o Estado chinês e nosso próprio Estado. Documentos estrangeiros também fornecem informações extensas sobre os eventos na China, que lemos e consideramos com cautela. Com base na análise de nossos documentos, concluímos que os fatos relatados por outros sobre os desenvolvimentos na China também devem ser precisos. O que Mao Zedong ou Zhou Enlai nos disseram sobre assuntos mundiais, eles também comunicaram a outros. (p. 450 – Tradução nossa)
Simplesmente não resta pedra sobre pedra da ideia de Shanmugathasan de que Enver Hoxha estava mentindo no Prefácio de sua obra Reflexões Sobre a China. Isso se deve ao fato, também, de que os documentos do PTA são públicos e mostram um amplo debate de seu Comitê Central para entender o papel da figura de Mao Zedong ao longo da história e elencar seus principais erros de princípios. Não há motivos para Enver Hoxha mentir sobre esses documentos sendo que o público tinha acesso a eles, principalmente em seu país, menos Shanmugathasan aparentemente. Será que essa falta de acesso é por oportunismo ou lerdeza? Jamais saberemos, infelizmente.
Deng Xiaoping como continuador da obra de Mao Zedong
Seguindo seu curso de confusão e mistério, Shanmugathasan é incapaz de compreender o motivo do camarada Enver Hoxha rastrear o revisionismo de Deng Xiaoping em Mao Zedong. Aparentemente, o secretário-geral não leu mais do que o prefácio da obra Reflexões Sobre a China. Naturalmente, não podemos exigir que ele tenha lido uma obra que juntas formam 1.600 páginas de notas dos diários de Enver. Porém, ele ainda se propôs a escrever um artigo refutando todo o pensamento do camarada Enver, mesmo sem claramente o ter lido. Para que o leitor reconheça o que de fato é honestidade, iremos deixar bem claro aqui o motivo de Enver analisar em Mao Zedong o revisionismo de Deng Xiaoping, porém deixamos claro na mesma medida que isso é uma incógnita para Shanmugathasan porque ele não se deu ao trabalho de ler. Enver resume a questão dessa forma:
[...] Com relação a Deng Xiaoping, ele é um antimarxista inveterado que tem sido o principal apoiador de Liu Shaoqi. Este último foi acusado por Mao Zedong de ser um revisionista, chamado de “o Khrushchev número um da China”. Deng Xiaoping, por sua vez, foi rotulado como “o Khrushchev número dois” e foi removido, juntamente com Peng Zhen e outros seguidores, sob as mesmas acusações. Apenas após essas remoções foram realizadas reuniões para denunciar essas pessoas. Deng Xiaoping, de fato, era um revisionista e foi reintegrado ao poder não de acordo com os princípios marxista-leninistas, mas por decisão pessoal de Mao Zedong. Mao o condenou, depois o reabilitou significativamente, nomeando-o como primeiro vice do Primeiro-Ministro Zhou Enlai, Vice-Presidente do Partido Comunista da China (PCCh) e chefe do Estado-Maior do Exército simultaneamente. Essa foi uma decisão antimarxista aprovada apenas pela camarilha de Mao Zedong e Zhou Enlai. Zhou Enlai também reabilitou seus antigos camaradas, mesmo concordando com as acusações contra eles. Ele não sofreu na mesma medida que Liu e Deng na época porque Mao Zedong sentiu que Zhou Enlai estava isolado e merecia proteção. Zhou Enlai admitiu esse fato e foi um defensor da Revolução Cultural.
Portanto, Deng Xiaoping foi condenado durante a Revolução Cultural, instigada por Mao Zedong. Foi Mao Zedong quem convocou a “Guarda Vermelha” para atacar as estruturas de poder, um gesto que simbolizou a desintegração completa do seu partido. Os sindicatos e outras organizações de massa também foram desmantelados, pois estavam sob a influência de líderes como Deng Xiaoping, Liu Shaoqi e Peng Zhen. Assim, a Revolução Cultural de Mao não se baseou no partido e na classe trabalhadora, mas foi liderada por intelectuais, estudantes e alunos do ensino médio, que interpretaram suas ideias de maneira radical. Dentro desses grupos, havia uma variedade de opiniões, desde maoístas fervorosos até críticos do socialismo e apoiadores do socialismo. Mais tarde, Mao Zedong reabilitou Deng Xiaoping para alinhar-se com os Estados Unidos contra a União Soviética. No entanto, Mao mudou de posição novamente, removendo Deng Xiaoping de suas funções de liderança após a morte de Zhou Enlai. Deng deveria suceder Zhou Enlai, mas Mao optou por denunciar Deng Xiaoping novamente e indicou Hua Guofeng como sucessor, uma decisão que violou as normas do partido. Hua Guofeng e Zhu De, membro do Comitê Central e prefeito de Pequim, acusaram Deng Xiaoping de ser direitista e revisionista na Praça Tiananmen. Deng Xiaoping foi então marginalizado por cerca de dez a doze meses, até retornar ao poder após o golpe de Estado liderado por Hua Guofeng e Ye Jianying.
Atualmente, Deng Xiaoping está consolidando firmemente sua posição no estado e no partido. Existe a possibilidade de que ele se torne primeiro-ministro durante o 11º Congresso, previsto para o final do ano, aguardando a queda de Hua Guofeng. Posteriormente, Deng Xiaoping também poderá ser nomeado presidente do partido. Com o retorno de Deng Xiaoping, é esperado que a política da China continue em direção ao revisionismo, à unidade e à amizade com os Estados Unidos, possivelmente restaurando o capitalismo sob a bandeira do socialismo e do marxismo-leninismo.
Deng Xiaoping é um crítico ferrenho da Revolução Cultural e pretende eliminar completamente sua influência. Ele vê os sete pontos positivos e três negativos da Revolução Cultural como questões que devem ser esquecidas. Para Deng Xiaoping, essa revolução foi prejudicial e deve ser totalmente erradicada. Além disso, ele busca reduzir a autoridade de Mao Zedong, argumentando que Mao não seguiu consistentemente os princípios marxista-leninistas. Deng Xiaoping e seus aliados, agora no poder, preferem relegar Mao Zedong ao esquecimento e não querem mais mencioná-lo. Eles não estão interessados em manter o mito de Mao Zedong como um líder contra a corrente; ao contrário, veem que a maré está mudando contra ele. Com a linha política que Deng Xiaoping está implementando, espera-se que Mao Zedong seja cada vez menos relevante. (p. 555)
Se nota que Enver observava que tanto Deng quanto Mao estavam em perfeita sintonia acerca da aproximação com os Estados Unidos da América, por isso quem de fato reabilitou conscientemente Deng Xiaoping foi Mao Zedong! Enver tem um capítulo inteiro de sua obra dedicada a comentar isso em 1973. Foi assim que ele viu o acontecimento político:
Deng Xiaoping voltou à cena como Vice-Premiê do Conselho de Estado. A “Grande Revolução Cultural Proletária”, concebida e liderada pelo “Grande Presidente Mao Zedong”, não apenas chegou ao fim com “sucesso”, mas também resultou na reabilitação gradual de todos os quadros denunciados como “inimigos e agentes número 2, número 3”, “contrarrevolucionários”, “membros do Kuomintang”, entre outros. A Revolução Cultural, que começou contra Liu Shaoqi, Peng Zhen, Deng Xiaoping e outros, terminou com a revelação da “trama arquitetada por Lin Piao” e sua morte. Consequentemente, os autores da Revolução Cultural ficaram sob suspeita e se tornaram “reativos” (uma expressão chinesa que remete a aviões a jato), enquanto aqueles que a Revolução Cultural havia colocado sob suspeita e tornado “reativos” emergiram à luz e foram elevados, como Deng Xiaoping, que foi nomeado Vice-Premiê do Conselho de Estado! Liu Shaoqi, Peng Zhen e alguns outros líderes ainda permanecem sob suspeita. Por quanto tempo? Talvez até que “se corrijam”, pois esse é o “método infalível” dos camaradas chineses. Deng Xiaoping apareceu pela primeira vez na recepção oficial oferecida a Sihanouk, quando ele retornou dos territórios libertados do Camboja, figurando abaixo de Li Xiannian e acima de Ji Pengfei. Portanto, ele já ocupa sua posição no governo e, posteriormente, poderá reassumir seu lugar na direção do partido. “O pequeno pedaço de ouro”, como Mao o chamava antes da revolução, e “o inimigo número 2 do Partido Comunista da China”, como era conhecido durante a Revolução Cultural, agora, depois da revolução, “corrigiu-se” e “reconheceu seus erros” (p. 34)
A política de aproximação da China com os Estados Unidos da América não foi iniciada apenas quando Deng Xiaoping chegou ao poder. Essa política já havia sido estabelecida pelo Partido Comunista da China a partir de 1970 e se concretizou com as visitas de Nixon e Kissinger à China ao longo daquela década. Esse período ficou conhecido como a "política do pingue-pongue", onde uma série de atividades e intercâmbios entre a China e os EUA foram estabelecidos para consolidar essa aproximação. O objetivo era que a China se desenvolvesse economicamente, absorvendo as tecnologias ocidentais para fortalecer seu parque industrial ainda em formação e, no futuro, se tornasse uma superpotência social-imperialista.
Para os marxista-leninistas, ao contrário de Shanmugathasan, não há mistério nesse processo. Trata-se do desenvolvimento das relações de produção capitalistas na China, que precisavam superar os paradigmas de seu atraso econômico estrutural, como a pobreza e a miséria. O camarada Enver Hoxha observou que todo esse processo não era um plano individual de Deng Xiaoping, mas fazia parte de um grande projeto nacional traçado por todo o Partido Comunista da China, com Mao Zedong à frente. Por essa razão, a unidade do PCCh se manteve intacta após a morte de Mao, pois esse projeto de nação estava sendo concretizado por todas as figuras subsequentes. Por isso, dizemos que Deng Xiaoping foi a continuação direta do projeto nacional traçado quando Mao Zedong ainda estava vivo!
Sobre a Revolução Cultural e seus limites
Entramos aqui em uma amálgama de concepções sobre o caráter da Revolução Cultural por parte do autor, a maioria delas negando o papel da direção do partido comunista à frente das revoluções, exaltando o papel pessoal de Mao Zedong ao invés do coletivo. Por isso, ao invés de entrar profundamente na concepção do camarada Enver Hoxha sobre esse acontecimento na China, que é diverso e bem conhecido em suas obras, faremos um debate diretamente com Shanmugathasan sobre o papel do partido e as consequências dos eventos na China. Sem se esquecer, é claro, das ótimas referências do camarada Enver Hoxha para elucidar a questão fundamental da Revolução Cultural.
A primeira coisa a observar é que a facção do PCCh que iniciou a “Revolução Cultural” em 1966, dirigida por Mao Zedong, Lin Piao e Zhou Enlai, nunca avaliou a verdadeira origem dos erros oportunistas do partido nas décadas anteriores. Eles apenas atribuíram alguns desses resultados a outros dirigentes com quem competiam, como Liu Shaoqi e Deng Xiaoping, eximindo Mao de qualquer responsabilidade, embora ele fosse o principal culpado. Lembremos que tanto Liu quanto Deng foram figuras-chave dentro do partido, promovendo o “Pensamento de Mao Zedong” em detrimento do marxismo-leninismo, especialmente entre 1943 e 1957. Por outro lado, Lin Biao e Zhou Enlai tiveram desentendimentos com Mao nos anos anteriores, mostrando que havia uma luta constante entre diferentes facções. Essa aparente estabilidade, com Mao como líder e os outros como vice-líderes, durou até o fracasso do “Grande Salto Adiante”, que resultou em graves dificuldades econômicas. Figuras renomadas que haviam apoiado Mao, como Peng Dehuai, exigiram que ele fosse responsabilizado por exagerar as estimativas econômicas e divulgar falsos sucessos. A maioria do partido, que havia subido na hierarquia de Mao, estava inclinada a fazer concessões. Como resultado, na 8ª Plenária do PCCh em agosto de 1959, Mao foi forçado pelas circunstâncias a fazer uma leve autocrítica e a renunciar ao cargo de Presidente do Estado em favor de Liu. Em troca, o PCCh removeu Peng do cargo de Ministro da Defesa e nomeou Lin Biao, um oficial militar maoísta, apaziguando assim Mao, que havia ameaçado o partido com uma revolta camponesa. Foi somente após essa trégua que a influência de Liu e Deng aumentou, como consequência da perda de prestígio de Mao no país. No entanto, não houve uma mudança drástica de curso; a China continuou a oscilar para a esquerda e para a direita com seu oportunismo característico, tanto internamente quanto externamente. Mao, na verdade, permaneceu no controle dos fundamentos, em parte graças ao apoio de Liu e Deng em um momento crítico para ele. No entanto, Mao logo se vingaria daqueles que o haviam atacado (como Peng) e daqueles que ele achava que não o haviam apoiado suficientemente (como Liu e Deng) iniciando a “Revolução Cultural”.
O início da Grande Revolução Cultural Proletária, ou simplesmente Revolução Cultural, dirigida por Mao Zedong, marcou o começo de sua luta para recuperar o poder perdido. Inicialmente, Mao denunciou Peng Dehuai, um crítico seu por causa do Grande Salto Adiante, e algumas peças teatrais que o retratavam de forma negativa. Ele também utilizou representantes da facção mais à direita do partido, muitos dos quais eram seus aliados ou ex-aliados até o Grande Salto Adiante, para tentar se dissociar das políticas anteriores, embora inicialmente ele não tenha ido além de denunciá-las em dazibaos.
Diante da impossibilidade de retomar o poder pelos meios tradicionais e de acordo com os Estatutos do partido, Mao apelou para armar os jovens na chamada “Guarda Vermelha”. Com a ajuda do exército dirigido por Lin Biao, a Guarda Vermelha dissolveu os comitês do partido e redistribuiu os cargos nos novos comitês, resultando na prisão de vários dirigentes. O corpo estudantil foi promovido como a vanguarda dessa “revolução”. Após o triunfo, a história recente do partido foi reescrita, negando que as teses dos “direitistas” Liu e Deng tivessem sido tiradas de Mao e que eles mesmos o tivessem levado ao poder nas décadas de 1930 e 1940.
Os maoístas, eufóricos, espalharam a ideia de que o “Pensamento de Mao Zedong” superava as “limitações” do marxismo-leninismo, ou representava seu estágio superior. Toda a cultura progressista anterior foi deixada de lado, e a nova cultura proletária foi apresentada como equivalente ao “Pensamento de Mao Zedong”. Houve uma exaltação do culto a Mao Zedong, culminando na criação do Livro Vermelho de Mao, uma coleção de citações organizadas por Lin Biao para reforçar a imagem de Mao como combativo, multifacetado, sábio e até poético. Qualquer regra do centralismo democrático foi rejeitada; em um esquema anarquista, as massas foram incentivadas a questionar os membros do partido e a se libertar da cultura anterior. O messianismo centrado em Mao passou a dirigir todo o partido.
Durante a Revolução Cultural, houve a ascensão da “Gangue dos Quatro” e a consolidação de Lin Biao, que foi tipificado como sucessor de Mao no 9º Congresso do PCCh em 1969. A partir de então, a propaganda passou a promover a exportação da estratégia militar da “Guerra Popular Prolongada” para qualquer país do mundo, sem considerar as condições específicas de cada país ou as condições objetivas da revolução. Chegou-se ao ponto de afirmar que a Revolução Cultural era um marco sem precedentes, maior do que a Grande Revolução de Outubro de 1917. A expressão idealista e voluntarista de que as ideias têm precedência sobre a base econômica serviu de desculpa para introduzir todos os tipos de equívocos sem justificativas sólidas. Diz-se que Mao Zedong, graças a suas teorias posteriores, descobriu a existência contínua da luta de classes após a tomada do poder, mesmo que a Revolução Cultural, como outros eventos, tenha sido uma luta entre facções para manter ou recuperar o poder. Sob condições misteriosas, ocorreram a defenestração de Chen Boda e a morte de Lin Biao por volta de 1970, e o início de uma política abertamente pró-americana, retornando ao caminho da década de 1940.
Durante a Revolução Cultural, as acusações de revisionismo feitas por Mao Zedong levaram o Partido Comunista Chinês (PCCh) a perder sua posição de vanguarda política do proletariado, supostamente por estar impregnado de desvios direitistas. No entanto, a política de retificação adotada não buscou fortalecer o partido, suas instâncias e organizações de base, nem promover o combate ao burocratismo. Em vez disso, ocorreu por meio da negação do próprio partido por parte dos “Guardas Vermelhos”. Com o PCCh imobilizado por uma década sem congressos, o Birô Político paralisado por lutas internas e comitês distantes das massas, houve um período de tensão em que as estruturas partidárias foram relegadas ao ostracismo político, tornando-se contraditórias entre si. Isso levou à ineficácia de normas políticas leninistas, como o centralismo democrático, na visão de Mao Zedong, para a necessária retificação. A responsabilidade por essa situação recai sobre o próprio Mao Zedong e sua liderança, que se desviou dos princípios marxista-leninistas. O PCCh não possuía uma maioria “revisionista” no Comitê Central devido a “contradições internas do modo de organização leninista”, mas sim porque Mao Zedong violou repetidamente os princípios organizacionais leninistas ao longo dos anos.
Como coloca o camarada Enver Hoxha, só pode haver uma Revolução Cultural abaixo da direção de um partido marxista-leninista (p. 94). “A revolução cultural socialista é um problema muito sério e muito complicado, e os camaradas chineses também sabem disso, como eles dizem. Ela deve ser conduzida pelo partido com a maior seriedade, e o partido deve permanecer vigilante o tempo todo para controlar a linha, verificar sua aplicação, corrigir erros, proteger-se contra o esquerdismo e o direitismo, que são mais do que possíveis nesse setor vasto e delicado [...] Essa é uma questão que não está muito clara para nós, aparentemente se baseou na justa palavra de ordem da ‘linha de massas’, mas uma linha de massas que vai além das normas, dos princípios, que deixa de lado o partido e sua justeza e se baseia no culto ao indivíduo, na exaltação da juventude não-proletária, que se aproveita incorretamente de todos os sucessos alcançados pelo partido e pelo povo em todos os campos. Esse caminho pode fomentar a anarquia e diminuir a confiança das massas na linha do partido [...] Achamos que essa ‘Grande Revolução Cultural Proletária’ pode ser uma retificação de toda a linha do partido, mas uma retificação realizada fora das normas leninistas do partido e das leis da ditadura do proletariado, com base no culto a Mao Zedong e colocando em ação, em primeiro lugar, a camada mais exaltada, mais barulhenta, mais delicada e mais mutável do povo como uma camada, e não amadurecida e resistida pelas dificuldades da vida” (p. 109).
E precisamos seriamente entender os limites da Revolução Cultural. Se o objetivo era evitar o revisionismo e promover sérias mudanças estruturais na sociedade chinesa, então a Revolução Cultural não cumpriu com suas tarefas históricas, sendo que os “revisionistas”, entre eles Deng Xiaoping, foram reabilitados anos mais tarde pelo próprio Mao Zedong e a China começou uma política abertamente pró-americana. Em novembro de 1970, Zhou Enlai confessou a Edward Snow, em uma entrevista pública, que 95% dos membros do Partido Comunista expurgados durante a Revolução Cultural haviam sido reintegrados. Onde está a coerência nisto?
Porém, o que nos é mais espantoso é a afirmação descarada de Shanmugathasan: “Mas foi precisamente isso que Mao fez. Ele não foi inibido por regras mecânicas ou pelo pensamento metafísico. Ele pensou dialeticamente e agiu para preservar a ditadura do proletariado daqueles leitores capitalistas que haviam tomado o poder na superestrutura. Seguir as regras teria sido cortejar o desastre certo. Além disso, Mao tinha imensa confiança nas massas. Ele sabia que eles poderiam cometer erros. Mas ele também sabia que, fundamentalmente, agiriam corretamente, sob uma direção adequada e revolucionária. É por isso que ele não tinha medo de ‘criar’ problemas” – Cabe o nosso questionamento, seria “mecânico” e estar inibido pelo pensamento “metafísico” agir de acordo com os princípios do partido marxista-leninista que são fundamentalmente baseados na criatividade e pelo pensamento dialético revolucionário? Acreditamos que ninguém diria que as normas leninistas são mecânicas e metafísicas, sendo que foram as normas justas e leninistas que levaram o proletariado ao poder na URSS e na Albânia. Aliás, é agindo puramente fora das normas que os revisionistas foram alçados do poder em diversos países, através do golpe de estado, do assassinato e da violação dos estatutos leninistas. Obviamente não podemos esperar que nossos inimigos atuem por dentro das normas estabelecidas, mas localizar suas violações é o melhor caminho para liquidá-los posteriormente, algo que não fez Mao Zedong porque justamente ele violava essas justas normas. Cabe a nós, como marxista-leninistas, reforçar o papel do partido na condução de uma verdadeira Revolução Cultural.
Outra coisa, da qual vamos abordar em outra passagem de nosso ensaio, a afirmação “preservar a ditadura do proletariado” por parte de Shanmugathasan está incorreta. Que ditadura do proletariado é esta que nem mesmo os chineses fizeram questão de levantar dentro de seu país? Os chineses tinham optado pelo regime de Nova Democracia, onde existia um compromisso com a burguesia nacional.
Os revisionistas modernos propagam a noção de que, no capitalismo, principalmente nos países avançados, a consciência socialista emerge naturalmente do movimento espontâneo e que o ímpeto para o socialismo brota do desenvolvimento autônomo das forças produtivas e da alteração na balança de poder global em desfavor do imperialismo. Argumentam que, sob tais circunstâncias, uma variedade de partidos e organizações, desde partidos burgueses liberais até social-democratas, movimentos de libertação nacional e sindicatos alinhados à burguesia, podem ser os portadores dos ideais socialistas e liderar a transformação socialista da sociedade. Esta perspectiva, que idolatra a espontaneidade, encontra adeptos até mesmo entre algumas facções de “esquerda”, que, independentemente de suas intenções subjetivas, também priorizam a espontaneidade, como é o caso de Shanmugathasan. Eles rejeitam a necessidade de uma teoria da consciência científica e se opõem à afirmação de Lênin de que sem uma teoria revolucionária não pode existir um movimento revolucionário quando abertamente apelam à anarquia para incidir contra o partido do proletariado no período da Revolução Cultural, afinal, Mao Zedong não tinha nenhuma plataforma política para aquela luta além da disputa de facções dentro do próprio PCCh. Nesse sentido, os maoístas negam o papel da vanguarda armada com a teoria revolucionária do marxismo-leninismo e desacreditam a importância de apresentar programas políticos explícitos e uma estratégia e tática baseadas em princípios científicos. Para eles, o essencial é simplesmente desencadear a revolução e impulsioná-la. A direção por um partido marxista-leninista ou por outra força é irrelevante para eles, afinal ela está submetida aos desvios de direita e de esquerda. As revoluções, afirmam, podem ser realizadas com ou sem um partido revolucionário. Isso implica que não deve existir uma equação matemática que estabeleça a vanguarda como o partido marxista-leninista, que a guerrilha possa ser a precursora do partido, ou que o exército popular seja o núcleo do partido, e não o inverso. No entanto, a realidade também valida as conclusões de Lênin, mostrando que as pregações sobre a espontaneidade no movimento revolucionário são, de fato, as raízes do oportunismo tanto de direita quanto de esquerda. O camarada Enver Hoxha afirma em seu informe ao 6º Congresso do PTA em 1971:
Historicamente, está comprovado que a classe trabalhadora, independentemente de suas condições de vida ou trabalho, não pode desenvolver uma consciência de classe espontânea sem a existência de seu partido. O partido é o elemento transformador que eleva a classe trabalhadora de uma “classe em si” para uma “classe para si”. Embora a luta e a ação sejam essenciais para forjar e educar a classe, as massas e os revolucionários, sem um partido político que possua um programa definido e estratégias e táticas baseadas em fundamentos científicos, qualquer luta pode ser interrompida ou mesmo falhar. As experiências das lutas revolucionárias contemporâneas e as diversas batalhas dos povos em diferentes continentes corroboram essa visão (p. 757).
As condições objetivas e a luta revolucionária podem gerar uma consciência socialista inicial entre os trabalhadores, que Lênin denominou de consciência sindicalista. No entanto, uma consciência socialista mais avançada não surge espontaneamente, mas é fruto da ciência marxista-leninista. Esta ciência é absorvida pela vanguarda da classe trabalhadora, que se organiza no partido do proletariado. O partido, então, assume a responsabilidade de educar a classe, estabelecendo metas e aspirações revolucionárias claras e guiando a classe em sua luta histórica.
O papel do partido é crucial não só para disseminar a consciência socialista entre os trabalhadores e coordenar suas ações, mas também como um grupo teórico, político e prático em diversas áreas, incluindo política, ideologia, economia e forças armadas. A negação do papel de vanguarda do partido deixa a classe trabalhadora vulnerável diante da burguesia e das forças reacionárias. Historicamente, não há exemplos de sucesso na revolução proletária e na construção do socialismo sem a liderança do partido comunista. Quando os partidos comunistas são enfraquecidos, partidos revisionistas, reformistas ou outras forças políticas podem assumir a direção da revolução, como ocorreu com a Revolução Cultural, onde os estudantes não-proletários estavam à frente daquele processo. Contudo, as revoluções democráticas ou de libertação nacional só evoluem para revoluções socialistas proletárias sob a direção da classe trabalhadora e seu partido marxista-leninista. Essas são questões de princípios para todos os revolucionários, sobre as questões objetivas e subjetivas da revolução, este é o ABC do marxismo-leninismo que os maoístas ignoram.
A ineficácia da Revolução Cultural em atingir seus principais objetivos políticos dentro da realidade chinesa ficou evidente quando, após a morte de Mao Zedong, a facção “rival” assumiu o poder com relativa facilidade, estabelecendo uma unidade nacional que persiste até hoje. Assim, as pretensas “validades universais” da Revolução Cultural como diretriz para a luta de classes no socialismo são refutadas pela realidade concreta. A ascensão de Hua Houfeng ao poder é a prova mais evidente de que a consolidação do poder pode ocorrer sem o endosso direto de Mao Zedong, mas sim através da simples afirmação de seus sucessores. Enver Hoxha, em seus escritos, criticou os objetivos da Revolução Cultural por não terem impedido a ascensão de figuras como Hua Houfeng e Deng Xiaoping a posições de liderança no partido, onde estavam prontos e capacitados para consolidar seu poder político.
Ainda valem outros questionamentos sobre as afirmações de Shanmugathasan. Ele acusa de ser Zhou Enlai ter reabilitado os dirigentes destronados pela Revolução Cultural. Nós afirmamos que isso é um profundo erro, já que foi propagandeado pela própria mídia chinesa que foi a “política de quadros do Presidente Mao Zedong” como comprovamos acima que “reeducou” pessoas como Deng Xiaoping. Dizer que Mao não tinha nenhuma participação nessas reabilitações, ou que não tinha poder para evitar esse tipo de acontecimento, é no mínimo desonesto dado ao grau de poder que Mao acumulava em suas mãos no momento que o culto envolta de sua pessoa chegou ao seu maior auge.
A classe dirigente da revolução e citações demagógicas
Outra afirmação que precisamos questionar é a dos estudantes como parte da vanguarda do processo revolucionário. Shanmugathasan afirma de forma oportunista que precisamos, antes de tudo, ver “a que classe essa juventude pertence”. Pois bem, vamos aprofundar esse debate. O marxista-leninista albanês sustenta que o revisionismo tende a negar, na prática, o papel do proletariado – apesar de, às vezes, reconhecê-lo formalmente na teoria. No caso específico da década de 1960 e da Revolução Cultural, o foco não era a classe trabalhadora, mas sim a camada estudantil. Como Mao reconheceu, na China, a maioria dos estudantes universitários não tinha origens proletárias, mas sim burguesas e pequeno-burguesas, evidenciando as persistentes disparidades sociais. Mao Zedong afirmou na Conferência dos Secretários dos Comitês do Partido das Províncias, Municípios e Regiões Autônomas: “Conforme uma pesquisa realizada em Pequim, a maioria dos estudantes dos nossos estabelecimentos de ensino superior são filhos de proprietários de terras, camponeses ricos, burgueses, e camponeses médios abastados. Apenas 20% são de famílias da classe trabalhadora, ou de famílias de camponeses pobres e camponeses médios inferiores”.
Os estudantes, embora sejam a face jovem da sociedade, muitas vezes não têm a capacidade de resolver as contradições inerentes a um partido proletário. Isso se torna ainda mais evidente em contextos como o da China, onde a educação superior é predominantemente acessada por membros das classes burguesa e pequeno-burguesa. Estas classes não só persistiram como também fortaleceram suas posições de poder político e econômico.
Ainda que Shanmugathasan garimpe como um bom mineiro as citações de Mao Zedong dizendo que a classe operária é a vanguarda da revolução, precisamos observar esse fenômeno para além da simples citação e observar o processo político em sua totalidade, pois é na prática política de Mao Zedong que nos importa suas concepções. A partir disso temos ciência de que Mao utiliza diversas classes e camadas da sociedade para atingir seus objetivos políticos na sua luta contra outras frações do PCCh… uma hora são os estudantes, outro momento é o exército popular, numa outra questão são os Guardas Vermelhos, nunca o proletariado enquanto hegemonia, enquanto “classe para si”.
Esse fato se refletiu diretamente na política de recrutamento do PCCh ao longo dos anos. A política de recrutamento do partido mostrou que havia um objetivo espúrio em converter o partido comunista em um partido tipicamente burguês. Em A China de Mao e Depois – Uma História da República Popular, Maurice Meisner, o oeste da China indicam que, durante a metade dos anos 1950, o foco do recrutamento urbano era reforçar os escalões superiores do partido, recrutando indivíduos que já detinham posições de destaque socioeconômico. Intelectuais e técnicos eram priorizados em detrimento dos trabalhadores, e entre estes, os qualificados eram preferidos aos não-qualificados.
Durante o ano de 1956, o PCCh recrutou 635.137 intelectuais, representando um terço da intelligentsia do país. Esses indivíduos, em sua maioria, provinham da elite pré-revolucionária e mantinham estreitas ligações com a burguesia nacional. O recrutamento não se limitou aos círculos intelectuais, estendendo-se também aos partidos democrático-burgueses. Nesse período, o número de intelectuais no PCCh superou o de trabalhadores, e essa tendência estava em ascensão. A estratégia de recrutamento resultou em uma predominância quase total de membros do partido entre o pessoal gerencial da indústria, enquanto apenas uma fração dos trabalhadores de produção era recrutada, variando entre 10% a 20% do total de pessoal, incluindo administradores. A filiação partidária concentrava-se desproporcionalmente na gestão, e as posições de destaque no partido eram frequentemente atribuídas com base na relevância dos indivíduos no processo de industrialização. Gerentes de empresas frequentemente ocupavam cargos influentes no PCCh. Uma pesquisa realizada em 1966 com organizações partidárias em 33 grandes empresas industriais chinesas revelou que, na maioria delas, nenhum trabalhador fazia parte dos comitês do partido, que são os órgãos de direção nas organizações partidárias das fábricas. Com exceção de três empresas, os comitês do partido eram compostos por apenas um ou dois trabalhadores, em um total de sete a trinta membros. Essa política de recrutamento é um reflexo das dinâmicas de poder e da estrutura social da China durante o período, destacando a importância dos intelectuais na consolidação do regime e na promoção da industrialização do país. Justificando essa política de quadros contra a adesão da classe operária no partido, Deng Xiaoping falou ao 8º Congresso do PCCh:
A distinção anteriormente estabelecida no processo de admissão de novos membros foi eliminada, pois a classificação da situação social antiga perdeu ou está perdendo seu significado original. Antes e por um tempo após o 7º Congresso [em 1945], era fundamental ter procedimentos de admissão distintos para candidatos de diferentes estratos sociais, o que foi muito eficaz. Contudo, nos últimos anos, essa realidade mudou significativamente. Atualmente, a diferença entre trabalhadores manuais e funcionários de escritório é meramente uma questão de divisão de trabalho dentro da mesma classe social.
Em contraposição a essa política, o Partido do Trabalho da Albânia (PTA) tinha uma concepção diferente de estabelecer a hegemonia do proletariado por meio de uma política de recrutamento para o partido que fosse em direção a maior validação do controle operário. A erradicação dos desvios burocráticos foi primordialmente uma batalha para manter a essência revolucionária do partido. Não foi um processo fácil. Em 1956, a elevação de operários e camponeses a posições administrativas e a incorporação de técnicos e gestores ao partido resultaram em 45,2% dos membros do PTA afastados das atividades produtivas, atuando na administração. Conforme destacado por Enver Hoxha, surgiu “entre alguns comunistas na administração uma postura incompatível com os princípios do partido, uma perspectiva burguesa, quase aristocrática, em relação ao trabalho produtivo”. Medidas foram implementadas para realocar o máximo possível de comunistas da administração para a produção. Ele destacou de forma enfática:
No nosso país, o trabalho é sinônimo de honra, glória e heroísmo, e os comunistas são aqueles que mais devem compreender essa verdade. Para eles, o campo de batalha mais nobre está na vanguarda da luta, onde se decide o destino das políticas do partido. Durante a guerra, os comunistas estavam onde o risco era iminente, liderando seus companheiros com bravura. Com honra, cumpriram seu dever, servindo de inspiração heróica para todos os lutadores. Hoje, a batalha se dá na produção, e é lá que o comunista deve estar, na linha de frente junto aos trabalhadores e camponeses, liderando pelo exemplo e incentivando-os a atos de heroísmo no trabalho diário. (p. 584).
Além disso, Enver Hoxha enfatizou a importância da composição de classe do partido, para que ele não degenerasse numa casta privilegiada separada das massas:
Em nosso país, foram estabelecidas todas as condições necessárias para o fortalecimento contínuo da estrutura partidária, impulsionado pelo crescimento da nossa indústria. É crucial para o partido aumentar suas fileiras com membros da classe trabalhadora. Contudo, nota-se que certos comitês e organizações partidárias não estão tratando de maneira eficaz a questão de preparar os trabalhadores para ingressarem no partido, cedendo frequentemente às pressões de funcionários de escritório, que são hábeis na retórica persuasiva. As organizações do partido devem compreender que é o momento de incrementar significativamente a proporção de trabalhadores entre seus membros e de promover a educação desses indivíduos através de um trabalho ativo e engajado. Isso não implica, porém, que as portas do partido devam ser abertas indiscriminadamente a todos os trabalhadores interessados. As admissões são sempre realizadas de forma individualizada, após uma análise minuciosa das qualidades de cada candidato. É importante lembrar que a classe trabalhadora não está isolada das demais classes e estratos sociais. Ela é constantemente reforçada por novos elementos oriundos do campesinato ou das camadas urbanas, que muitas vezes carregam consigo ideias pequeno-burguesas e a mentalidade da propriedade privada. Assim, devem ser escolhidos para o partido, preferencialmente, aqueles que, por meio de um trabalho organizado e um esforço contínuo, seja na indústria ou nas minas, tenham consolidado sua consciência de classe e se destacado como vanguarda entre os trabalhadores.
É indiscutível que a prioridade deve ser a inclusão de trabalhadores no partido, mas não se pode ignorar o recrutamento de indivíduos de outros setores sociais, como membros de cooperativas agrícolas e pessoas de camadas mais pobres, que sejam leais e comprovados, dispostos a lutar pela causa do partido com dedicação. Contudo, é crucial lembrar que os trabalhadores devem formar a grande maioria dos novos membros, e para prevenir a infiltração de burocracia, as organizações partidárias devem impor critérios mais estritos para a admissão de funcionários administrativos, pequenos agricultores e outros interessados em se juntar ao partido (p. 557).
Após o 3º Congresso do partido em 1956, houve uma mudança na estratégia de recrutamento, priorizando trabalhadores de produção em detrimento dos de escritório, e reduzindo a concentração de membros do partido em posições administrativas. No 7º Congresso do partido, em 1976, a proporção de membros do partido em cargos administrativos caiu de 45% para 32%, enquanto os trabalhadores da produção passaram a constituir mais de 66% do total de membros. Eis aqui uma diferença brutal na composição social de membros partidários do PCCh e do PTA que diziam, da mesma forma, a diferença de composição da hegemonia proletária do partido. A implementação da política de hegemonia do proletariado dentro do partido requer um conjunto de medidas e ações práticas. Contudo, a análise dessas ações revela uma notável ausência de políticas diretas por parte do PCCh, o que resulta em uma sabotagem contínua da hegemonia proletária por sua própria direção política. Isso gera a necessidade de mobilizar outras camadas sociais na busca pela concretização de uma política que se oponha às outras facções políticas em disputa. Por isso vemos uma hora o exército sendo mobilizado, em outro momento os estudantes e por vezes os Guardas Vermelhos.
Lin Biao e as políticas universais do Maoísmo
Logo após a discussão sobre o caráter de classe da composição social do Partido Comunista da China e discutir o cerco da cidade pelo campo, Shanmugathasan comete um sério desvio da política maoísta ao colocar que a tática da Guerra Popular Prolongada (GPP) não é universal e até mesmo faz uma citação de Mao Zedong para endossar seu ponto de vista. Precisamos refletir seriamente sobre isso, pois estamos falando de uma política geral, uma plataforma política do Partido Comunista da China com Mao Zedong à frente. Ao mesmo tempo Shanmugathasan diz que a GPP não é uma política universal, toda a estrutura partidária e os birôs de propaganda do partido na época faziam inúmeras referências ao caráter universal das concepções de Mao Zedong. O maior expoente desse ponto de vista, e também de elevar o culto a Mao em sua quintessência, foi o antigo revolucionário Lin Biao.
Lin Biao foi o mais proeminente defensor do culto à personalidade em torno de Mao, trabalhando para desenvolvê-lo dentro do Exército Popular de Libertação (EPL) em particular. Em 1964, foi ele quem compilou alguns dos escritos de Mao em um manual, Citações do Presidente Mao Zedong, também conhecido como Livrinho Vermelho, e garantiu que ele fosse produzido e distribuído em massa, primeiro no EPL e depois em toda a República Popular.
Em setembro de 1965, foi publicada a obra mais famosa de Lin Biao, Viva o Triunfo da Guerra Popular, que contém a grande maioria de suas teorias políticas. Ela promoveu fortemente a teoria da Guerra Popular Prolongada de Mao Zedong e ainda proclamou seu caráter universal:
A teoria da Guerra Popular, desenvolvida por Mao Zedong, foi validada pela extensa experiência da revolução chinesa, alinhando-se com as leis objetivas desses conflitos e demonstrando ser invencível. [...] Essa teoria transcendeu as fronteiras da China, tornando-se uma contribuição significativa para as lutas revolucionárias de nações e povos oprimidos globalmente. A teoria de Mao Zedong não é somente um legado da revolução chinesa; ela reflete as peculiaridades do nosso tempo. É crucial destacar que a estratégia de Mao sobre a criação de bases rurais revolucionárias e o subsequente cerco às cidades a partir do campo possui uma relevância prática e universal extraordinária para as lutas contemporâneas de todas as nações e povos oprimidos, especialmente na Ásia, África e América Latina, em sua resistência contra o imperialismo e seus aliados. [...] O campo, e somente o campo, pode fornecer as áreas amplas nas quais os revolucionários podem manobrar livremente. O campo, e somente o campo, pode fornecer as bases revolucionárias a partir das quais os revolucionários podem avançar para a vitória final. [...] Ao considerar o mundo inteiro, se a América do Norte e a Europa Ocidental são vistas como “as cidades do mundo”, então a Ásia, a África e a América Latina podem ser vistas como “as zonas rurais do mundo”. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o movimento revolucionário dos trabalhadores tem sido, por diversas razões, temporariamente reprimido nos países capitalistas da América do Norte e Europa Ocidental. Por outro lado, o movimento revolucionário popular na Ásia, África e América Latina tem se intensificado. De certo modo, a revolução mundial atual reflete um cenário onde as áreas rurais cercam as cidades. Em última análise, o sucesso da revolução mundial está nas mãos das lutas revolucionárias dos povos da Ásia, África e América Latina, que juntos formam a grande maioria da população global.
Durante a 11ª Plenária do Comitê Central, em agosto de 1966, uma reunião dirigida por Mao e protegida pelas forças de Lin Biao, foi apresentado um emblemático cartaz com letras grandes proclamando: “Bombardear o Quartel-General!”, uma frase de autoria de Mao Zedong. Isso marcou o início da luta contra os elementos “direitistas” do partido, como Liu Shaoqi e Deng Xiaoping, e representou o começo prático da Grande Revolução Cultural Proletária. Com o enfraquecimento do controle inicial dos Guardas Vermelhos, o Exército Popular de Libertação (EPL), comandado por Lin Biao, assumiu o controle do país, anteriormente nas mãos do Partido Comunista. A Revolução Cultural quase aniquilou o Partido Comunista, desmantelando suas estruturas, enquanto simultaneamente ampliava o poder político do exército, que passou a dominar os Comitês Revolucionários provinciais, além de diversos ministérios e empresas estatais.
O 9º Congresso do PCCh foi realizado em 1969, durante o qual o ex-presidente Liu Shaoqi foi destituído de todos os cargos e expulso do partido. Durante esse congresso, Lin reforçou o culto a Mao mais do que nunca, declarando que o pensamento de Mao era um “estágio superior e completamente novo do marxismo”. Durante seu informe ao 9º Congresso, Lin chegou a proclamar que, de acordo com a teoria marxista, o principal componente do Estado é o exército. Ele resumiu a ideologia do maoismo, então chamada de “Pensamento de Mao Zedong”, da seguinte forma:
As conquistas do Partido Comunista da China (PCCh) são frequentemente atribuídas à liderança do Presidente Mao Zedong, cuja direção é considerada uma vitória para o Pensamento Mao Zedong. Durante meio século, Mao liderou o povo chinês em diversas lutas: pela revolução democrática, pela revolução socialista, pela construção socialista e contra o imperialismo, o revisionismo moderno e os reacionários de vários países. Ele se dedicou a promover a revolução e a construção socialista, integrando o marxismo-leninismo com a prática concreta da revolução chinesa. Mao defendeu, preservou e desenvolveu o marxismo-leninismo em várias áreas, elevando-o a um novo patamar. O Pensamento Mao Zedong é considerado o marxismo-leninismo da era em que o imperialismo se aproxima do colapso e o socialismo caminha para a vitória internacional. A história do partido demonstra que desviar-se da liderança de Mao e de seu pensamento resulta em revezes e derrotas; ao passo que seguir Mao e suas ideias leva ao avanço e triunfo do partido. Esta lição é vista como um lembrete perene. A oposição a Mao ou ao seu pensamento, em qualquer tempo ou circunstância, é vista como passível de condenação e punição pelo partido e pelo país. [...] O Exército Popular de Libertação (EPL) é o poderoso pilar da ditadura do proletariado. O presidente Mao já destacou isso muitas vezes: “do ponto de vista marxista, o principal componente do Estado é o exército”.
Lin Biao foi construído como sucessor de Mao a tal ponto que, durante o 9º Congresso, um dos poucos congressos realizados na história chinesa, a ideia de Lin Biao como sucessor no caso de renúncia ou morte de Mao foi literalmente escrita no Estatuto do PCCh, sendo aprovada em 14 de abril de 1969. O estatuto do partido afirmava:
O camarada Lin Biao sempre ergueu a grande bandeira vermelha do Pensamento de Mao Zedong e, com muita lealdade e determinação, levou adiante a linha revolucionária proletária defendida pelo camarada Mao Zedong. O camarada Lin Biao é o camarada de armas e sucessor mais próximo do camarada Mao Zedong.
A declaração de Lin Biao, apesar de sua aparente excentricidade, reflete a orientação política e social do Partido Comunista Chinês (PCCh), que estava empenhado em promover a Guerra Popular Prolongada e o Pensamento Mao Zedong como princípios universais. Nesse contexto, as tentativas de Shanmugathasan de atenuar as falhas do maoísmo parecem deslocadas, desalinhadas e erradas com a realidade prática e a direção que o movimento estava tomando. É fundamental observar que a crítica de Enver Hoxha à Guerra Popular Prolongada refletia a rejeição ao caráter universal atribuído pela propaganda chinesa, especialmente no período de atividade política de Lin Biao, a essa tática de luta. Suas declarações, portanto, eram acertadas ao expor e denunciar o viés antimarxista e dogmático dessa tática, conforme evidenciado pela análise histórica e teórica de suas obras e diários políticos.
A Nova Democracia e a China do Século 21
O principal erro de Shanmugathasan reside em sua concepção de Nova Democracia. Defendendo-a dentro de um contexto histórico, ele falha em compreender a essência das críticas levantadas pelo Partido do Trabalho da Albânia (PTA) e, mais especificamente, as visões do camarada Enver Hoxha. É importante levantar essa crítica porque Shanmugathasan não é capaz de reconhecer o impacto prolongado que a Nova Democracia teve, e ainda tem, na política chinesa atual. Esta filosofia teve uma influência notável na forma como a China abordou o socialismo, particularmente nas perspectivas de Liu Shaoqi e Deng Xiaoping, que são oportunistas e iremos provar. Portanto, é essencial conduzir um debate que transcenda uma visão puramente baseada nos conceitos, abordando também sua história e contemporaneidade. Isso é necessário porque as ideias de Shanmugathasan só são pertinentes enquanto confinadas a um debate puramente historiográfico que não considera as consequências reais da política implementada pelo Partido Comunista da China (PCCh). Nosso objetivo é examinar essas consequências materiais e desvendar o idealismo subjacente à sua teoria.
Na década de 1960, comunistas ao redor do globo se afastaram dos revisionistas soviéticos e voltaram-se para o Partido Comunista da China (PCCh) em busca de direção. Durante esse período, conceitos como a “Nova Democracia”, a estratégia de aliança com a burguesia nacional na transição para o socialismo e as ideias de Mao Zedong acerca da luta de classes durante o socialismo ganharam ampla divulgação. A mídia chinesa, mais especificamente a Peking Review comunicava aos comunistas internacionais:
Em um Estado onde o proletariado tomou o poder político sob condições sociais e históricas definidas, o estabelecimento do princípio de que os capitalistas podem ser transformados sob a orientação socialista é uma contribuição brilhante do camarada Mao Zedong para o tesouro do marxismo-leninismo. Essa teoria nunca apareceu nas obras clássicas do marxismo-leninismo, e nenhum país do mundo passou por essa experiência.
A transformação pacífica das empresas capitalistas foi alcançada agora na China. A experiência da China nesse assunto é de importância universal. A verdade subjacente a essa experiência não se limita aos países coloniais e semicoloniais. Estamos cientes de que, com o Vento Leste prevalecendo sobre o Vento Oeste, a revolução triunfará em vários países capitalistas e os grandes capitalistas serão privados de seus privilégios. Naquela época, é totalmente possível que esses países adotem a diretriz da redenção pacífica em relação aos capitalistas médios e pequenos.
Neste ponto de virada histórico crucial, nosso grande líder, o Presidente Mao, publicou seu Sobre a Justa Solução das Contradições no Seio do Povo e outras obras. Esses documentos brilhantes, que marcaram época, resumiram a experiência histórica da ditadura do proletariado no mundo e – pela primeira vez na história do desenvolvimento do marxismo – forneceram uma exposição científica, sistemática e penetrante das contradições, classes e luta de classes na sociedade socialista. Este foi um marco importante que significa que o marxismo-leninismo havia se desenvolvido para um estágio completamente novo – o estágio do Pensamento de Mao Zedong.
Através da influência do Partido Comunista da China (ou pelo menos sem oposição dele), a teoria da “Nova Democracia” foi aceita como estratégia universal para a revolução por vários partidos na Ásia, África e América Latina, bem como por partidos em países capitalistas avançados como Austrália, Canadá e Japão. Esses partidos e organizações, em maior ou menor grau, adotaram a ideia de uma revolução em duas etapas, “unindo todos os que podem ser unidos contra o imperialismo norte-americano”, dividindo a burguesia imperialista em setores “compradores” e “nacionais”, entre outros métodos.
Atualmente, não apenas a teoria da “Nova Democracia” foi criticada como estratégia para a revolução nos países imperialistas, mas o Partido do Trabalho da Albânia (PTA) também questionou a validade da teoria como estratégia para a revolução nas nações coloniais e semicoloniais, criticando sua aplicação na China. Essas diferenças de opinião entre os partidos albanês e chinês não surgiram recentemente, mas podem ser claramente observadas nas políticas muito distintas que os dois partidos seguiram durante a direção das revoluções albanesa e chinesa.
Ao longo da década de 1920, a Internacional Comunista adquiriu experiência em revoluções nacional-democráticas em nações coloniais e semicoloniais e debateu o papel da burguesia nessas revoluções. A resolução do 6º Congresso da Internacional Comunista em 1928 refletiu um desenvolvimento posterior de uma análise leninista dessa questão:
A burguesia nacional nos países coloniais não adota uma postura uniforme em relação ao imperialismo. Uma parte, especialmente a burguesia comercial, serve diretamente aos interesses do capital imperialista (a chamada burguesia compradora). Em geral, essa parte mantém uma visão antinacional, imperialista, contrária a todo o movimento nacional, assim como os aliados feudais do imperialismo e os funcionários nativos mais bem pagos. As outras partes da burguesia nativa, especialmente aquelas que representam os interesses da indústria local, apoiam o movimento nacional. Essa tendência, vacilante e inclinada a fazer concessões, pode ser chamada de reformismo nacional.
A formação de qualquer tipo de bloco entre o partido comunista e a oposição reformista nacional deve ser rejeitada; isso não exclui acordos temporários e a coordenação de atividades em ações anti-imperialistas específicas, desde que as atividades da oposição burguesa possam ser utilizadas para desenvolver o movimento de massas e que esses acordos não restrinjam de forma alguma a liberdade comunista de agitação entre as massas e suas organizações. É claro que, nesse trabalho, os comunistas devem, ao mesmo tempo, conduzir a luta ideológica e política mais implacável contra o nacionalismo burguês.
A razão pela qual o Comintern determinou que acordos com setores da burguesia em países coloniais e semicoloniais eram possíveis foi que certos setores (comumente chamados de burguesia nacional) geralmente apoiam o movimento nacional. No entanto, essas alianças só podiam ser temporárias e condicionais devido à natureza conciliadora e reformista desses setores. Eles não apoiavam levar a revolução democrática nacional até o fim, ou seja, uma ruptura completa com a dependência do imperialismo, que só pode ser realizada através da adoção do caminho do socialismo. Enquanto o proletariado pretende estabelecer a ditadura do proletariado e embarcar no caminho socialista, a burguesia “nacional” busca estabelecer a ditadura da burguesia, consolidar as relações capitalistas e permanecer dentro do sistema capitalista-imperialista.
Embora setores da burguesia possam desempenhar um papel revolucionário durante certos períodos da revolução nacional-democrática, eles abandonarão e se voltarão contra a revolução à medida que o proletariado e o campesinato avançam para levá-la até o fim. Relações que antes eram caracterizadas por alianças tornam-se amargamente antagônicas, e uma luta de vida ou morte se segue.
O proletariado só faz acordos com a burguesia quando essa é a única maneira de atingir seus objetivos. Se o proletariado for capaz de derrotar o domínio imperialista e feudal nos países coloniais e semicoloniais sem se aliar à burguesia nacional, certamente o fará, pois seu objetivo final é esmagar essa classe. Por outro lado, se o proletariado não conseguir fazer as alianças e compromissos necessários com a burguesia, ele pode se isolar de seus aliados de longa data entre as classes exploradas, toda a revolução democrática nacional pode ser esmagada ou os esforços do proletariado para estabelecer seu domínio podem ser destruídos pela reação interna e externa.
A chave para a estratégia do Partido Comunista da Albânia (PKSH) durante a guerra foi a aliança com o campesinato pobre e médio, que eles consideravam o aliado natural de longo prazo da classe trabalhadora e a principal força na Guerra de Libertação Nacional. Além disso, o PKSH construiu uma ampla aliança de classes para lutar na guerra de libertação nacional. Para isso, a direção do PKSH teve que combater os trotskistas que afirmavam que os comunistas deveriam realizar apenas a “revolução socialista” e que o campesinato “não era revolucionário”. Eles também diziam que o perigo fascista que ameaçava o país não poderia justificar a colaboração dos comunistas com os nacionalistas patriotas.
Na Rússia, contrariamente às esperanças de Lênin, “devido à insuficiente consciência de classe e organização do proletariado”, a revolução de fevereiro que derrubou o czar “colocou o poder nas mãos da burguesia”. No entanto, é inegável que o objetivo de Lênin durante a etapa democrática da revolução russa era o estabelecimento da hegemonia proletária, excluindo a burguesia. Após a revolução de fevereiro, Lênin se opôs ao governo de coalizão com a burguesia e, em vez disso, dirigiu as massas de operários e camponeses a derrubar o governo burguês, colocando o poder do Estado nas mãos dos Sovietes – os representantes das classes exploradas.
Devemos então concluir que o proletariado nunca deve, sob nenhuma circunstância, formar um governo de coalizão com a burguesia? Não, em algumas situações isso pode ser necessário. No entanto, nas condições de uma revolução anti-imperialista vitoriosa, os governos de coalizão com a burguesia não são o objetivo central. A única situação em que o proletariado consideraria recorrer a uma coalizão com a burguesia seria quando as classes exploradas não pudessem manter sua hegemonia de forma independente. Um governo de coalizão desse tipo não poderia levar a revolução até o fim e seria inevitavelmente de curta duração, pois conteria em si a luta de vida ou morte entre a burguesia e o proletariado pela hegemonia política.
Devido às condições prevalecentes na China após a revolução de 1949, a transição para o socialismo não poderia ser nada além de um processo prolongado e gradual, semelhante ao ocorrido na Rússia. A expropriação imediata da burguesia estava fora de questão. Em 1949, o proletariado ainda não tinha a capacidade de organizar a produção nas milhares de fábricas de propriedade da burguesia nacional. Da mesma forma, nas empresas que foram expropriadas do capital estrangeiro e burocrata, o novo governo chinês não teve escolha a não ser utilizar a administração e o pessoal técnico herdados dos capitalistas. O Partido do Trabalho da Albânia (PTA) não critica o Partido Comunista Chinês (PCCh) por não expropriar imediatamente a burguesia nacional, nem por reter intelectuais burgueses no setor estatal da economia. Dadas as enormes tarefas de reconstrução e reorganização que o novo governo chinês enfrentou em 1949, o PTA afirma que o PCCh “deveria ter procedido com cautela, sem ser esquerdista e sem pular etapas”. No entanto, o PTA considera que a política do PCCh “provou ser ‘democrática’, liberal e oportunista”.
Mao Zedong tinha uma visão muito diferente da natureza da luta de classes durante a transição para o socialismo em comparação a Lênin. Ele partia da crença de que os interesses nacionais da burguesia nacional prevaleceriam sobre seus interesses de classe. Portanto, ele não via essa classe se voltando contra a revolução após a derrubada do regime do Kuomintang, mas, em vez disso, continuava a considerá-la uma classe “revolucionária” que permaneceria aliada ao proletariado e ao campesinato contra o imperialismo nas décadas seguintes. Foi com base nessa análise que o PCCh propôs um governo de coalizão baseado em uma aliança de longo prazo com a burguesia nacional.
Embora em 1956 o PCCh tenha mudado a denominação do governo na China, a natureza desse governo não se alterou, principalmente porque a burguesia nunca foi completamente expropriada. Ela continuou a existir e a fortalecer suas posições até que Deng Xiaoping mudasse novamente esse paradigma. O governo continuou sendo uma coalizão com a burguesia. O objetivo declarado desse governo era exercer a ditadura sobre as antigas classes reacionárias, mas não sobre a burguesia nacional. A realidade contemporânea demonstra claramente que a burguesia nunca foi extinta como classe durante a “ditadura do proletariado” na China. A instauração do governo de Deng Xiaoping apenas confirmou uma tendência que já vinha se desenhando, culminando na transformação da China em uma superpotência social-imperialista nos dias de hoje.
Alguns seguidores de Mao Zedong descartam as declarações liberais de Mao em relação à burguesia nacional e à ala direita do PCCh durante todo esse período como palavras destinadas a “enganar” essas forças e “acalmá-las para dormir”. No entanto, é evidente que nem a burguesia nacional nem a ala direita do Partido eram idiotas ou que estavam adormecidos. Por outro lado, as declarações e políticas de Mao, como líder do Partido Comunista, não poderiam ter outro resultado senão criar ilusões desastrosas entre o proletariado e o campesinato sobre a natureza da luta de classes durante o período de transição. Isso jogou lama nos olhos dos trabalhadores que esperavam o estabelecimento de sua ditadura contra a burguesia nacional. A realidade chinesa hoje com a criação de inúmeros bilionários ao longo dos anos é a prova de que o que perdura de lá pra cá é um governo de coalizão com a burguesia.
A decisão de Mao de chamar o governo de coalizão de “ditadura do proletariado” não ajudou em nada a luta de classes do proletariado, mas criou mais ilusões sobre a natureza desse Estado e ocultou as verdadeiras tarefas do proletariado. A principal tarefa do proletariado naquele momento era eliminar a burguesia do poder político, estabelecer a verdadeira ditadura do proletariado e reprimir impiedosamente todas as tentativas burguesas de manter o poder. No entanto, segundo Mao, até então o proletariado já havia estabelecido sua ditadura, sem a necessidade de expulsar a burguesia do poder e, além disso, poderia continuar a governar em aliança com ela através da “coexistência de longo prazo e supervisão mútua”, como ele costumava dizer.
Os velhos e novos elementos burgueses haviam se transformado em um estrato social bem organizado, que, na época do 8º Congresso do Partido em 1956, estava profundamente entrincheirado em quase todos os níveis do poder político e econômico. Esse mesmo quartel-general burguês, composto por velhos e novos elementos burgueses e liderado pelo grupo revisionista Liu-Deng, que surgiu nas condições da Nova Democracia, é o que, após mais de duas décadas de luta, está no poder na China hoje e expande ainda mais sua dominação de classe, agora para fora da China. Basta apenas olhar a realidade e buscar entender como as coisas chegaram à situação que estamos hoje para imediatamente ver que Shanmugathasan está profundamente aquém, errado e distante da realidade e do entendimento do fenômeno social-imperialista chinês.
O revisionismo maoísta na dialética marxista
Ao avançar em seu artigo, Shanmugathasan demonstra um visível desgaste intelectual sobre o tema, a ponto de não mais tentar rebater as críticas de Enver Hoxha sobre os fundamentos da dialética marxista. Isso é evidente quando ele omite os argumentos de Enver, limitando-se a ecoar Mao Zedong: “Seria necessário mais espaço e tempo do que temos à nossa disposição para responder a todas essas críticas. Vamos nos limitar a reafirmar o que consideramos ser os princípios básicos da lei da contradição nas coisas, conforme enunciado por Mao” – uma abordagem que parece negligente. Tal postura é questionável, pois Enver apresenta uma análise extremamente detalhada e complexa da dialética marxista em contraposição a Mao Zedong. Ao não confrontar as críticas de Enver, Shanmugathasan deixa os argumentos deste últimos sem contestação, mantendo-os relevantes e em pleno vigor. Assim, os comentários de Enver permanecem intelectualmente intocáveis nesse tema, enquanto a interpretação de Mao sobre a dialética revela-se superficial e pouco fundamentada na literatura clássica marxista-leninista.
Independentemente das explicações de Shanmugathasan sobre a lei da unidade dos contrários, que também são incorretas, as críticas de Enver Hoxha mantêm sua relevância. Para simplificar para o leitor, apresentaremos um trecho específico dos comentários de Enver Hoxha sobre a dialética marxista-leninista em O Imperialismo e a Revolução e, em seguida, evidenciaremos a superficialidade da perspectiva maoísta sobre a dialética:
Os escritos de Mao Zedong frequentemente discutem o papel das revoluções no desenvolvimento da sociedade, mas, essencialmente, adotam uma visão metafísica e evolucionista. Ao contrário da dialética materialista, que apresenta o desenvolvimento como um processo progressivo em espiral, Mao vê o desenvolvimento de forma cíclica, como um círculo vicioso, passando por fases de equilíbrio e desequilíbrio, movimento e estagnação, ascensão e declínio, e avanço e retrocesso. Mao Zedong, inspirado pela filosofia antiga sobre o papel purificador do fogo, afirma:
“É necessário ‘atear fogo’ periodicamente. Como devemos proceder no futuro? De acordo com vocês, seria necessário fazê-lo anualmente ou a cada três anos? Penso que devemos fazê-lo pelo menos duas vezes a cada quinquênio, como o mês intercalado do calendário lunar-solar, que se repete uma vez a cada três anos ou duas vezes a cada cinco anos.” (Mao Zedong, Obras Escolhidas, Vol. 05, pág. 499, Edição Francesa, Pequim, 1977).
Assim, tal como os astrólogos antigos, Mao extrai do calendário lunar a lei do incêndio periódico, com um desenvolvimento que vai da “grande harmonia” à “grande desordem” e novamente à “grande harmonia”, repetindo-se periodicamente. O Pensamento Mao Zedong opõe-se à concepção metafísica, que é “morta, pálida e árida”, à concepção materialista dialética do desenvolvimento, que, como dizia Lênin, “nos fornece a chave do ‘automovimento’ de tudo que existe; [...] nos dá a chave dos ‘saltos’, da ‘ruptura da continuidade’, da ‘transformação no contrário’, da destruição do velho e do surgimento do novo”. (Vladimir Lênin, Obras Completas, Vol. 38, pág. 03; Edição Albanesa).
Isso se torna ainda mais evidente na abordagem de Mao Zedong sobre as contradições, sobre a qual, segundo a propaganda chinesa, ele teria dado uma “contribuição particular”, desenvolvendo a dialética materialista nesse campo. Embora Mao frequentemente discuta contrários, contradições e a unidade dos contrários, e até use citações de frases marxistas, ele está distante da concepção materialista dialética dessas questões. Em seu tratamento das contradições, Mao não se baseia nas teses marxistas, mas nas dos antigos filósofos chineses, encarando os contrários de forma mecânica, como fenômenos externos, e configurando a transformação dos contrários como uma simples troca de lugares. Usando alguns dos eternos contrários da filosofia antiga, como acima-abaixo, adiante-atrás, direita-esquerda, leve-pesado, etc., Mao Zedong nega as contradições internas dos objetos e fenômenos, tratando o desenvolvimento como uma simples repetição, uma cadeia de situações inalteráveis onde se verificam os mesmos contrários e a mesma relação entre eles. Mao interpreta a transformação dos contrários como um esquema formal, uma simples inversão de lugares, e não como a superação da contradição e a mudança qualitativa do fenômeno que comporta tais contrários. A partir desse esquema, Mao afirma que “quando o dogmatismo se transforma em seu contrário, converte-se ou em marxismo ou em revisionismo” (Mao Zedong, Obras Escolhidas, Vol. 05, pág. 479, Edição Francesa, Pequim, 1977), e que “a metafísica se transforma em dialética e a dialética em metafísica”, etc. Por trás dessas afirmações absurdas e do jogo sofista com os contrários, estão as concepções oportunistas e contrarrevolucionárias de Mao Zedong. Ele não vê a revolução socialista como uma mudança qualitativa da sociedade, em que as classes antagônicas, a opressão e a exploração do homem pelo homem desapareçam, mas como uma simples troca de lugares entre a burguesia e o proletariado. Para demonstrar essa “descoberta”, Mao afirma:
“Se a burguesia e o proletariado não pudessem se transformar um no outro, como se explicaria que, por meio da revolução, o proletariado se torne a classe dominante e a burguesia a classe dominada? [...] Nós e o Kuomintang de Chiang Kai-Shek estávamos em posições diametralmente opostas. Devido à luta e à exclusão mútua dos dois aspectos contraditórios, trocamos de lugar com o Kuomintang” (Mao Zedong, Obras Escolhidas, Vol. 05, págs. 399-400, Edição Francesa, Pequim, 1977).
A mesma lógica levou Mao Zedong a revisar a teoria marxista-leninista sobre as duas fases da sociedade comunista:
“A dialética ensina que o regime socialista, enquanto fenômeno histórico, desaparecerá um dia, assim como o homem deve morrer, e que o regime comunista será a negação do regime socialista. Como se pode considerar marxista a afirmação de que o regime socialista, assim como as relações de produção e a superestrutura do socialismo, não desaparecerão? Não seria isso um dogma religioso, uma teologia que professa a eternidade de Deus?” (Mao Zedong, Obras Escolhidas, Vol. 05, pág. 409, Edição Francesa, Pequim, 1977).
Ao revisar abertamente a compreensão marxista-leninista do socialismo e do comunismo, que essencialmente são duas fases de um mesmo sistema econômico-social, diferenciadas apenas pelo seu nível de desenvolvimento e amadurecimento, Mao Zedong apresenta o socialismo como algo diametralmente oposto ao comunismo.
Mao Zedong aborda os problemas da revolução com concepções metafísicas e antimarxistas, tratando-a como um processo infinito que se repete periodicamente ao longo da história da humanidade. Para ele, a revolução é um ciclo contínuo de derrota e vitória, e novamente derrota e vitória. Essas ideias antimarxistas, que ora se revelam evolucionistas, ora anarquistas, tornam-se ainda mais evidentes quando Mao discute os problemas da revolução na China.
Deve-se destacar que a noção de “unidade dos contrários”, atribuída a Nikolai Bukhárin, Alexander Bogdanov, Mao Zedong e Deng Xiaoping, representa na verdade uma simplificação do conceito, reduzindo-o à “teoria do equilíbrio”. Essa simplificação resultou em uma distorção completa do termo original. Neste contexto, é importante reconhecer a contribuição do filósofo soviético Fedor Ivanovich Kaloshin, que desempenhou um papel crucial ao expor e criticar essa teoria revisionista. “A teoria do equilíbrio, uma das mais perigosas variantes da concepção metafísica, é completamente utilizada pelos inimigos do marxismo. A teoria do equilíbrio é irreconciliavelmente hostil ao marxismo-leninismo. A tese inicial dessa teoria metafísica não é a luta entre forças opostas, mas seu equilíbrio. [...] A teoria do equilíbrio considera de maneira absoluta o crescimento quantitativo e nega o desenvolvimento qualitativo. Afirma que é possível conciliar as contradições e equilibrar os contrários. A teoria do equilíbrio, como arma filosófica na luta contra o marxismo, já foi defendida por Dühring. O revisionista Bogdanov substituiu a dialética marxista pela teoria do equilíbrio. O inimigo do povo Bukhárin, foi partidário dessa teoria antimarxista e pregou a integração pacífica do kulak no socialismo. Uma variante dessa famigerada teoria do equilíbrio é a teoria burguesa do ‘capitalismo organizado’, teoria que nega as contradições internas do capitalismo, as contradições entre o trabalho e o capital, entre os capitalistas e a classe operária, entre as forças produtivas e as relações de produção. É na teoria do equilíbrio que se apoiam, nas suas considerações ‘filosóficas’, os socialistas de direita de todos os países, os quais pregam a harmonia entre as classes e a teoria reacionária da transformação pacífica e gradual do capitalismo em socialismo. Os partidários dessa teoria são os mais ferozes inimigos do marxismo, inimigos da revolução socialista. A concepção metafísica, qualquer que seja a forma sob que se manifeste, é a cobertura filosófica, por meio da qual os inimigos do socialismo ocultam sua infame atividade antimarxista. Derrotar a concepção metafísica é a tarefa primordial de todos os cientistas e especialistas soviéticos, qualquer que seja o setor em que trabalhem”.
Sem subestimar o desenvolvimento correto da teoria da “unidade dos contrários”, os marxistas-leninistas destacam que o desenvolvimento ocorre por meio da “luta dos contrários”. Vladimir Lênin, em seus Cadernos Filosóficos, esclareceu: “O desenvolvimento é a luta dos contrários. [...] A dialética, em seu verdadeiro sentido, é o estudo das contradições na essência dos próprios objetos”. Enquanto isso, os revisionistas modernos negligenciam essa crucial conjunção da lei da negação da negação, utilizando-a para justificar sua conciliação de classes com a burguesia.
A desconsideração dos revisionistas contemporâneos pela lei da negação da negação decorre de múltiplas causas. Uma delas é o reconhecido desinteresse de Mao Zedong pela leitura de O Capital ou mesmo de textos fundamentais como Anti-Dühring, o que resultou em erros fundamentais graves. Dentre esses, destaca-se a negligência das leis dialéticas e sua simplificação excessiva. Mao chegou a declarar sua discordância com os princípios marxistas clássicos, afirmando: “Engels mencionou três categorias, mas eu não aceito duas delas. A unidade dos contrários é a lei mais fundamental, a transformação de quantidade em qualidade, a negação da negação simplesmente não existe”.
Afirmar que as leis da dialética são inexistentes é tão absurdo quanto tentar alterar as leis da natureza. Stálin já explicou que, embora as leis universais da natureza, economia e dialética não possam ser mudadas pelos povos, elas podem ser compreendidas e usadas em benefício próprio, adaptando-se e moldando a vida em torno delas. As leis da gravidade, a existência dos átomos e as Leis de Newton são imutáveis; o que se pode fazer é descobri-las e compreender o universo que elas regem. Essa interpretação errônea da teoria marxista por Mao se assemelha à dos mencheviques no tempo de Lênin, que consideravam a lei da “unidade dos contrários” como absoluta, enquanto Lênin a via como temporária.
A lei da unidade dos contrários, aplicada como um fenômeno temporário, é exemplificada pela aliança entre operários e camponeses, tanto médios quanto pobres. Existem, sem dúvida, contradições entre esses dois grupos. No entanto, a unidade foi possível devido ao interesse comum na construção de uma sociedade socialista na União Soviética. Os operários tinham interesse nisso por motivos evidentes, enquanto os camponeses se beneficiavam porque os métodos de produção socialista e os avanços sociais da revolução melhoravam significativamente suas condições de vida. Em Problemas Econômicos do Socialismo na URSS, Stálin reflete sobre uma solução definitiva para essa contradição, onde o campesinato deixaria de existir enquanto classe. Portanto, essa foi uma união temporária e transitória de contrários.
Na visão metafísica de Mao Zedong, a unidade dos contrários não era um estado transitório, mas uma condição absoluta. Mao propôs que essa unidade não deveria ocorrer entre a classe operária e o campesinato, mas entre a classe operária e a burguesia, como um meio para construir o socialismo! Ele previu que a realização do socialismo não ocorreria em sua vida ou na de seus filhos, reconhecendo que a China poderia enfrentar períodos de corrupção e declínio antes de retornar a um estado melhor. Mao também observou que “as coisas e os fenômenos sempre tendem ao seu oposto”, uma ideia que reflete a transição da dialética da Grécia Antiga para a metafísica da Idade Média e, posteriormente, de volta à dialética na era moderna. Em sua análise, Mao considerava apenas a oposição externa, a exclusão mútua dos aspectos contraditórios, simplificando as complexas relações mútuas a meras mudanças mecânicas de posição dentro de um todo. Essa abordagem simplista é vista como a essência do maoísmo, que lembra a antiga correlação de opostos yin-yang na dialética primitiva da China. Fica evidente que a interpretação maoísta da dialética é incompatível com a dialética marxista, pois o maoísmo compreende a interdependência e a condicionalidade dos contrários de maneira mecânica, reduzindo o movimento dialético a um ciclo simples, onde a paz se transforma em guerra, o capitalismo em socialismo, e assim por diante, em um processo contínuo de inversão de posições.
O resultado das cem flores e cem escolas
Ao refletir sobre essas questões, fica claro que Shanmugathasan está fundamentalmente equivocado ao afirmar que o proletariado e a burguesia são interdependentes. Tal afirmação é um erro grave. De fato, a burguesia depende da exploração do trabalho proletário para existir. No entanto, o contrário não é verdadeiro; a classe trabalhadora pode sobreviver sem a burguesia, já que é ela quem produz e sustenta as riquezas tanto nacionais quanto internacionais. A classe trabalhadora possui as condições objetivas para gerir o Estado, a economia e a sociedade como um todo. A visão binária de “certo e errado” apresentada por Shanmugathasan não passa de uma demonstração de seu maniqueísmo ideológico, ignorando que a dialética abrange não apenas contradições binárias, mas todos os fenômenos inerentes aos objetos em análise.
A burguesia não é homogênea em sua política, apresentando várias frações dentro da mesma classe com concepções similares, basta ver o número de partidos burgueses que existem. Em contraste, o proletariado tem aprendido a superar divisões internas, unificando-se em estratégia e tática revolucionárias sob a liderança do partido comunista monolítico. Apesar disso, contradições persistem após a revolução, o que exige do partido proletário a busca por unanimidades e sínteses, caracterizadas pela centralização democrática da sua política para manter a direção de todo o movimento popular.
Shanmugathasan, ao defender a campanha de debate público na China conhecida como “cem flores e cem escolas”, parece não ter percebido que, ao final, foram os revisionistas que dominaram o debate público, distorcendo até mesmo os conceitos de socialismo, revolução e luta de classes. A ascensão de Deng Xiaoping ao poder é um exemplo político dessa distorção, onde o seu arcabouço teórico desenvolvido durante a campanha foi enriquecido. Presumir que o prestígio do partido e sua “supervisão” poderiam direcionar o curso do debate público é desconsiderar que as ideias equivocadas na sociedade muitas vezes emanavam dos próprios membros do partido em posições de direção, que influenciavam o debate até que suas perspectivas fossem vistas como verdades incontestáveis. O partido não está excluído das dinâmicas da luta de classes e ele mesmo pode degenerar, como de fato degenerou.
Por isso, nós afirmamos que o proletariado deve censurar certos debates com toda certeza, principalmente deve-se censurar a burguesia e seus pontos de vista reacionários com todos os aparelhos ideológicos que o proletariado disporá do seu poder. O proletariado no poder não deve fazer concessões com as ideias e a ideologia burguesa, mas deve fazer uma ampla campanha de reeducação política e ideológica de todas as classes existentes através dos aparelhos ideológicos e da vida nova que se desenvolve com a construção do socialismo. Os artistas, escritores, pintores, músicos, todos os instrumentos de propaganda nas mãos do proletariado devem ser sentinelas do marxismo-leninismo que protegem e propagam às massas suas experiências, suas histórias, suas concepções avançadas, sua ciência que se desenvolvem junto às forças produtivas socialistas. Evidentemente que nesse processo ideias errôneas vão se desenvolver, mas cabe ao partido e a classe operária no poder desmascarar, avançar sua ciência e evitar que o revisionismo solape o poder dos trabalhadores. Por isso, é errado o ponto de vista que todos os debates devem ter o direito de encontrar seu lugar ao Sol, há elementos que como diz o camarada Enver Hoxha, “todo o partido e o país devem se levantar para erradicar os costumes retrógrados, para quebrar o pescoço de qualquer um que viole a lei sagrada do partido” – o proletariado tem o direito de exercer sua ditadura contra a burguesia de forma dura e implacável da mesma forma que a burguesia o fez com a aristocracia.
Cabe dizer que Shanmugathasan não entendeu até a época de escrita do artigo qual era o papel da Frente Democrática (FD) na Albânia, sendo ela uma criação do Partido Comunista da Albânia (PKSH) na época da Guerra de Libertação Nacional para reunir todas as organizações progressistas de mulheres, minorias étnicas, juventude, antifascista e patrióticas em uma ampla organização de massas que detinha um programa mínimo revolucionário e que, mais tarde, se converteu em verdadeiros órgãos de poder político. Ou seja, Shanmugathasan está completamente alheio ao papel político e revolucionário da FD naquele país. O camarada Enver Hoxha falou sobre o papel da Frente Democrática e sua relação com o Partido do Trabalho da Albânia em 1967:
A Frente Democrática da Albânia (FD) sempre foi, em todos os momentos, uma arma poderosa do Partido do Trabalho da Albânia (PTA) para a unificação política das massas ao seu redor, uma grande tribuna para o desenvolvimento da autoconfiança e das iniciativas de massas, tanto na guerra quanto na edificação do socialismo.
A experiência adquirida durante os vinte e cinco anos de existência da FD provou cabalmente a justeza da linha política do nosso partido em relação a essa organização de massas de grande importância teórica e prática. Assim, o estudo contínuo e a generalização dessa experiência são tarefas de primeira importância para todos nós, porque somente assim, tanto as organizações do partido quanto às da FD terão a oportunidade de aprender ao máximo possível suas lições necessárias para o trabalho vindouro.
A Frente Democrática (FD) é a herdeira direta da Frente Antifascista de Libertação Nacional (LANÇ), que nasceu, cresceu e se reforçou pela união política voluntária das largas massas populares. A sua existência encontrou-se com a da luta travada pela base contra os ocupantes fascistas.
A FD é obra do partido. Desde a sua criação, a FD sempre teve à sua frente o partido marxista-leninista da classe operária e somente ele. O Partido do Trabalho da Albânia (PTA) ocupa este papel dirigente, porque a sua linha justa exprime e defende os interesses vitais do povo albanês. E os comunistas albaneses, pela sua coragem, pela sua firmeza, pela capacidade frente às necessidades de luta, mostraram ser os combatentes mais fiéis à causa do povo, da pátria e do socialismo.
Enver Hoxha permanecerá vivo através dos séculos!
O final do artigo de Shanmugathasan contém outros inúmeros erros pequenos e erros factuais, como uma suposta política errônea de Stálin em relação à Mao Zedong e a revolução chinesa. Mas fazemos questão de reafirmar que Stálin já combatia as tendências do maoísmo desde 1949 quando notava uma vertente nacionalista no Partido Comunista da China (PCCh). É de conhecimento público o debate de Stálin com a delegação chinesa e Mao Zedong sobre o “socialismo com características chinesas”.
Comprovamos mais acima, também, como Mao Zedong foi o pilar central para o desenvolvimento da teoria dos três mundos. Comprovamos com fontes diretas da política desenvolvida pelos maoístas no começo dos anos 1970 e a aproximação entre a China e os Estados Unidos. Shanmugathasan escolhe, dessa vez, apenas fechar os seus olhos e ignorar a dura realidade de que seu messias teve uma política pró-americana, que foi através de Mao Zedong que Deng Xiaoping que a China realizou a política de abertura econômica e se tornou a potência social-imperialista que é hoje.
Dizemos, ainda, que o nome do camarada Enver Hoxha permanecerá vivo através dos séculos, exatamente porque através do seu nome reside a defesa do socialismo, do marxismo-leninismo e das lutas dos povos. Ele sempre teve uma visão científica, baseada em princípios e sempre desmascarou quem são os inimigos do marxismo e da revolução. Reafirmamos suas palavras: “nenhuma força, nenhuma tortura, nenhuma intriga pode erradicar o marxismo-leninismo das mentes e dos corações dos homens!”.
Referências Bibliográficas
NOTA DO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DA CHINA. Pequim: julho de 1978
CARTA DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO DO TRABALHO DA ALBÂNIA E DO GOVERNO ALBANÊS AO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DA CHINA E AO GOVERNO CHINÊS. Tirana: julho de 1978.
DIMITROV, Giorgi. A Unidade Operária Contra o Fascismo. 1. Ed. Edições Manoel Lisboa, Recife, 2014.
DIMITROV, Giorgi. The Diary of Georgi Dimitrov (1933-1949). 1. Ed. Yale University Press, New Haven, 2003.
GOSSWEILER, Kurt. Dimítrov sobre a dissolução da III Internacional. 1. Ed. Para a História do Socialismo, Lisboa, 2010.
HOXHA, Enver. Os agentes dos chineses estão começando a aparecer. 1. Ed. Casa de Publicações “8 Nëntori”, Tirana 1988.
ZEDONG, Mao. On the Question of the Differentiation of the Three Worlds. 1. Ed. Foreign Languages Press, Pequim, 1998.
CHAIRMAN MAO ZEDONG'S THEORY ON THE DIVISION OF THE THREE WORLD AND THE STRATEGY OF FORMING AN ALLIANCE AGAINST AN OPPONENT. Ministry of Foreign Affairs of People’s Republic of China, Pequim, 2014.
XIAOPING, Deng. Speech By Chairman of the Delegation of the People’s Republic of China, Deng Xiaoping, At the Special Session of the U.N. General Assembly. 1. Ed. Foreign Languages Press, Pequim, 1974.
HOXHA, Enver. Por que alguns partidos marxista-leninistas da América Latina não compreendem os erros de Mao Zedong. 1. Ed. Casa de Publicações “8 Nëntori”, Tirana, 1984.
HOXHA, Enver. Reflections on China I (1962-1972) – Extracts From the Political Diary. 1. Ed. Casa de Publicações “8 Nëntori”, Tirana, 1979.
HOXHA, Enver. Teoria e Prática da Revolução. 1. Ed. Zëri i Popullit, Tirana, 1977.
HOXHA, Enver. Vepra 61 (Mars 1977 – Qershor 1977). 1. Ed. Casa de Publicações “8 Nëntori”, Tirana, 1988.
HOXHA, Enver. Vepra 62 (Korrik 1977 – Nëntor 1977). 1. Ed. Casa de Publicações “8 Nëntori”, Tirana, 1988.
HOXHA, Enver. Selected Works, Volume IV (February 1966 – July 1975). 1. Ed. Casa de Publicações “8 Nëntori”, 1982.
ZEDONG, Mao. Obras Escogidas de Mao Tsetung, Tomo V. 1. Ed. Ediciones En Lenguas Extranjeras, Pequim, 1977.
BARNETT, Doak. Chinese Communist Politics in Action. 1 Ed. University of Washington Press. Washington, 1969.
RICHMAN, Barry. Industrial society in Communist China. 1. Ed. Random House. Toronto, 1969.
PRIFTI, Peter. Socialist Albania Since 1944: Domestic and Foreign Developments. 1. Ed. The Mit Press. Massachusetts, 1978.
XIAOPING, Deng. Eighth National Congress of the Communist Party of China. 1. Ed. Foreign Languages Press, Pequim, 1956.
HOXHA, Enver. Selected Works, Volume II (November 1948 – November 1965). 1. Ed. Casa de Publicações “8 Nëntori”, 1975.
ZEDONG, Mao. Citações do Presidente Mao Zedong. 1. Ed. Arquivo Marxista da Internet, Brasília, 2024.
BIAO, Lin. Long Live the Victory of People’s War!. 1. Ed. Foreign Languages Press, Pequim, 1965.
BIAO, Lin. Report to the Ninth National Congress of the Communist Party of China. 1. Ed. Foreign Languages Press, Pequim, 1969.
CONSTITUTION OF THE COMMUNIST PARTY OF CHINA. Foreign Languages Press: Pequim, 1969.
PEKING REVIEW (34). August 18, 1967.
VI COMINTERN CONGRESS, STENOGRAPHIC REPORT – ISSUE 2. Moscou, 1929.
HOXHA, Enver. O Imperialismo e a Revolução. 2. Ed. Casa de Publicações “8 Nëntori”, Tirana, 1978.
STÁLIN, Josef. Sobre os Problemas da Política Agrária na URSS. 1. Ed. Arquivo Marxista da Internet, Brasília, 2006.
MATERIALISMO DIALÉTICO, Academia de Ciências da URSS – Instituto de Filosofia. 1. Ed. Editora Vitória, Rio de Janeiro, 1955.
LÊNIN, Vladimir. Cadernos Filosóficos. 1. Ed. Editora Boitempo, São Paulo, 2023.
ZEDONG, Mao. Talk On Questions Of Philosophy. 1. Ed. Foreign Languages Press. Pequim, 1964.
STÁLIN, Josef. Problemas Econômicos do Socialismo na URSS. 1. Ed. Editora Vitória, Rio de Janeiro, 1954.
ZEDONG, Mao. Speeches At The Second Session Of The Eighth Party Congress. 1. Ed. Red Guard Publication, 1958.
HOXHA, Enver. Pelo aprofundamento da revolução no Partido e no Estado. 1. Ed. Casa de Publicações “8 Nëntori”, Tirana, 1967.
HOXHA, Enver. O Partido de Vanguarda e a Frente de Massas. 1. Ed. Casa de Publicações “8 Nëntori”, Tirana, 1967.
HOXHA, Enver. O Eurocomunismo é Anticomunismo. 1. Ed. Editora Anita Garibaldi, Rio de Janeiro, 1983.
WASHINGTON, Jim. Socialism Cannot Be Built in Alliance with the Bourgeoisie: The Experience of the Revolutions in Albania and China. 1. Ed. The November 8th Publishing House, Toronto, 2022.
