Mustafa Yalçıner: O que os Estados Unidos querem do Irã?
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Mustafa Yalçıner
Hoje marca o nono dia dos ataques lançados pelo sionismo israelense
contra o Irã. Os bombardeios continuam. Segundo as declarações dos Estados
Unidos, o Irã, que teria “perdido a superioridade aérea”, agora tenta se
defender como pode.
Israel e Irã seguem trocando comunicados oficiais, ora declarando seus
objetivos estratégicos, ora exigindo a evacuação de determinadas regiões e
cidades. Mas todos sabem que há um terceiro ator neste conflito, aquele cuja
ação e decisões realmente despertam interesse e atenção global, e sobre o qual
ninguém tem dúvidas: os Estados Unidos da América. Trump fala tanto quanto
Netanyahu. Exige a rendição do Irã. Afirmou conhecer a localização exata do
Líder Supremo, Ali Khamenei, e que, se quisessem, poderiam eliminá-lo, mas,
segundo ele, ainda não o fizeram. Sua última declaração foi de que estaria
dando ao Irã uma “última chance”. Primeiro falou em uma semana; depois, a
porta-voz da Casa Branca ampliou o prazo para duas semanas. Trump afirma que
está “dando uma chance à diplomacia”!
O que exatamente os EUA exigem do Irã? Oficialmente, querem que o Irã
“retorne às negociações nucleares”. Trump ameaça: ou o Irã assina o acordo
nuclear nos termos ditados por Washington, ou… Todos conhecemos o que vem
depois do “ou”. Se analisarmos as declarações conjuntas de Washington e Tel
Aviv, o motivo central, ao menos no discurso oficial, é impedir que o Irã
desenvolva armas nucleares. Passam a impressão de que, caso o Irã abra mão de
seu programa nuclear, não haveria mais problemas.
Entretanto, o programa nuclear iraniano, assim como seus avanços nessa
área, está sob a supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA),
e a exigência de abandono não passa de um mero pretexto. Foi o próprio Trump
que, durante seu primeiro mandato, retirou unilateralmente os Estados Unidos
das negociações nucleares! Agora, o tema é instrumentalizado como alavanca de
pressão sobre Teerã. Embora ainda seja cedo para afirmar que essa estratégia
tenha obtido êxito total, já se colhe os primeiros frutos: após relatos de que
alguns aviões iranianos pousaram no Bahrein, Trump apressou-se a declarar que
“o Irã quer negociar”, e as agências de notícias começaram a divulgar rumores
de contatos diretos entre os dois países.
Mas afinal, qual é a verdade? O que os Estados Unidos realmente desejam
do Irã? O que pretendem Israel e seu braço armado, o imperialismo
norte-americano?
Quem acompanha os debates políticos na Turquia poderia imaginar que o
objetivo de Washington (e de Tel Aviv) seria simplesmente “dividir o Irã”,
enfraquecê-lo por meio da imposição de um “Irã federativo”. Esta percepção se
deve ao contexto político turco, marcado por um nacionalismo exacerbado, tanto
de direita quanto de setores autointitulados de “esquerda”, e a uma paranoia
crônica sobre a possibilidade de fragmentação territorial.
De fato, não é de todo improvável que os acontecimentos tomem esse rumo.
O Irã é um Estado multinacional que nega os direitos nacionais das etnias não-persas.
Azeris, balúchis, curdos e árabes não possuem igualdade de direitos nacionais.
Entre eles, os curdos protagonizaram recentemente levantes armados contra o
regime, enquanto os balúchis, divididos entre Irã e Paquistão, também têm
apresentado sinais de insatisfação. Sabe-se há décadas que a CIA atua entre os
azeris, buscando explorar contradições étnicas e sectárias para desestabilizar
o Estado iraniano. E não hesitará em fazê-lo novamente.
Portanto, a exploração oportunista das contradições nacionais internas e
a imposição de um modelo federativo podem, sim, ser uma das cartas no baralho
imperialista. Contudo, limitar o objetivo norte-americano a essa questão seria
uma simplificação grosseira. O verdadeiro objetivo é outro: impor a dominação imperialista sobre o Irã,
submetê-lo à órbita estratégica dos Estados Unidos.
Aproveitando-se dos ataques do Hamas contra Israel, os EUA abriram espaço
para uma escalada ainda maior da violência sionista, buscando “limpar” a região
de forças antiamericanas, isolar seus concorrentes imperialistas e redesenhar o
mapa político do Oriente Médio. Após a Palestina, vieram os movimentos no
Líbano; na Síria, com o apoio da Arábia Saudita, dos Emirados do Golfo e com a
cumplicidade ativa de Turquia e Israel, o regime foi atacado e desestabilizado.
Agora é a vez do Irã.
A Washington resta apresentar a Teerã dois cenários: a rendição ou a
derrubada do regime, com a possível restauração da monarquia da dinastia
Pahlavi. A fragmentação territorial, ou qualquer outra alternativa, é apenas
uma tática subordinada a este objetivo estratégico maior.
É evidente, porém, que sempre existirá a opção da resistência. E não se pode excluir a possibilidade de que, com o apoio dos povos do Oriente Médio e das massas populares do mundo, os povos do Irã, mesmo enfrentando imensas dificuldades, escolham trilhar o caminho da resistência.
