Encontro Entre Jorge Amado e Enver Hoxha



O AMOR PELA URSS, SENTIMENTO CRIADOR

Existem nomes mágicos que estão hoje por sobre todas as diferenças linguísticas, que unem os homens como irmãos sobre as fronteiras, mesmo quando essas são fronteiras colocadas pelo ódio dos donos da vida nos países capitalistas. Se dizeis “Stálin” em Pequim ou nos algodoais do Mississipi, o chinês e o negro americano vos estenderão suas mãos calosas. Se dizeis “União Soviética” no fundo misterioso do Brasil ou na tórrida África equatorial, o mulato, o negro e o branco vos sorrirão com confiança. Se dizeis “comunismo” em qualquer parte do mundo, encontrareis irmãos. Por vezes me vi sozinho com cidadãos albaneses que falavam somente a própria língua e bastava que eu dissesse um desses nome para ver o sorriso cordial nascer em sua face. O amor pela União Soviética e por Stálin não é apenas um ardente sentimento no coração de cada albanês, velho ou moço, operário ou camponês, escritor ou dirigente do governo. Ele é também o mais natural e o mais fecundo dos sentimentos. O mais natural porque o povo albanês sabe que foi a vitória dos Exércitos Vermelhos sobre o nazi-fascismo que possibilitou a conservação da independência da Albânia, conquistada à base de tão grandes sacrifícios. Sabe que essa independência – como disse Enver Hoxha – lhe foi dada novamente pela URSS quando o Partido Bolchevique enviou ao Partido Comunista da Albânia as cartas trocadas com Tito. Sobre a independência da Albânia se projetava a sombra escravizadora dos traidores titistas. Um passo mais e novamente o pequeno país mergulharia na noite da opressão, todo o sangue derramado na guerra libertadora teria sido em vão. De Moscou, mais uma vez, veio a luz da estrela do Kremlin que ilumina o caminho dos povos.

O povo albanês sabe também que é difícil e duro construir o socialismo e mais difícil e duro quando se é um pequeno povo de um milhão de habitantes, em um país atrasado onde não se elevavam as chaminés das fábricas onde se desconheciam os tratores e as máquinas agrícolas. Sabe que é a União Soviética, a grande amiga desinteressada, quem possibilita, com sua ajuda fraternal, a caminhada corajosa da Albânia para o socialismo. As provas dessa ajuda de todos os momentos, nós a encontramos por toda a Albânia, em todos os recantos.

O povo albanês sabe igualmente que a URSS é o sustentáculo maior da paz mundial, dessa paz tão indispensável à Albânia. Esse povo cercado de inimigos, como um pequeno pássaro rodeado de abutres, sabe que, no seu tratado de aliança com a URSS, reside a força que contém as garras e os assassinos bicos dos abutres titistas e monarco-fascistas. Mais além das fronteiras iugoslavas se estende a pátria do socialismo vitorioso. E a sua existência é suficiente para impedir o gesto agressor de todos os imperialismos que rangem os dentes ao verem um pequeno país libertar-se da escravidão e marchar pelas estradas do socialismo, ao verem um pequeno povo sacudir as algemas do capital estrangeiro e criar as bases da sua fartura. União Soviética e Stálin querem dizer para o povo albanês vida e liberdade, fartura e paz, construção e cultura. Como então não deixar que extravasasse do coração nas canções, nos vivas, nas demonstrações mais calorosas?

Sentimento natural, mas também fecundo sentimento criador. O povo albanês curva-se sobre os livros que contam as experiências e as vitórias soviéticas, o povo albanês segue a mesma estrada. O amor pela URSS faz com que cada um deseje ser digno da sua grande amiga, deseje ultrapassar as normas dos planos, deseje fazer de sua pátria uma terra tão feliz como a grande pátria dos trabalhadores. Com a URSS, a Albânia aprende. Com os povos soviéticos, o povo albanês aprende. Esse amor, que encontrareis expressado em todas as partes na Albânia é o mais fecundo dos sentimentos, o que possui nos nossos dias maior força criadora.

Um jovem albanês, conversando comigo no hall do hotel, sobre o cerco imperialista em torno da Albânia, disse-me:

– Todas as vezes que penso em nosso pequeno território e em nossa pequena população, olho um mapa da União Soviética que possuo em casa. E quando a vejo, enorme e invencível, então sinto que poderemos vencer qualquer inimigo, porque conosco está a URSS e Stálin vela por nós... Stálin vela por nós como um pai, como um pai o amamos.

Sim, como a um pai!

O COMANDANTE ENVER HOXHA

Durante a guerra de libertação nacional, Enver Hoxha atravessou por duas vezes, a pé, todo o território da Albânia. Pode-se dizer que ele conhece cada cidadão, dormiu numa enorme quantidade de casas nas cidades e nos campos, compartilhou da mesa pobre de milhares de camponeses, foi por eles escondido enquanto a polícia do fascismo o buscava afanosamente. Era, para cada um, como um filho querido, esse jovem quase adolescente que chefiava a luta pela libertação da Pátria. Mas era também como o pai de cada um, aquele que estava construindo o destino de todo esse povo. Vi, em uma recepção, uma velha camponesa de rosto sofrido, vestida de negro, de luto pelos filhos mortos na guerra, tomar Enver nos seus braços e beijá-lo nas duas faces como o faria a um dos seus filhos desaparecidos. Simplesmente como se não estivesse diante do chefe do governo e, sim, do filho do povo. E que esses dirigentes comunistas, chamem-se Dimitrov ou Thorez, Mao Tsé-Tung, Rakosi ou Prestes, são filhos genuínos do povo, cada velha operária ou camponesa sente por eles um carinho maternal. Jamais eles estão por sobre o povo, são o próprio coração do povo, sua carne e sangue.

Um dos mais belos espetáculos na Albânia é, sem dúvida, a profunda ligação que existe entre os homens do governo e a massa do povo. Os quatro anos de guerra, de fraternidade de armas nas montanhas, quando sobre a mesmas manta dormiam um leve sono o general de agora, o ministro de hoje, e o camponês sem terras de então, faz com que cada homem de governo, cada dirigente do Partido seja um familiar de todos os cidadãos que lhes conhece o passado, as qualidades reveladas na luta e depois no trabalho de direção do governo, que sabe porque confiar nele. Durante o Congresso pela Paz vi o general Hysni Kapo, membro do Birô Político do Partido, escutar longas conversas de camponeses, seus comandos de ontem que lhe relatavam a sua vida de agora e lhe falavam mesmo dos seus problemas mais íntimos. Na Albânia, governo e povo formam um todo único, uma amálgama forjada pela confiança dos cidadãos nos dirigentes, e isso explica muito a derrota dos agentes titistas, a vitória da construção do socialismo. Vi Tuk Jakova, vice primeiro Ministro e secretário do Partido, entre os trabalhadores do petróleo e ele estava ali como em sua casa, cada um daqueles homens não só o conhecia, mas cada um o estimava. Vi um cantor de ópera vir conversar com o general Mehmet Shehu, vice primeiro ministro e secretário do partido, falando-lhe das canções e coros populares. Era jovem homem de largos bigodes, de tez morena e sorriso franco. O dirigente do governo e do partido escutava-o atentamente e com amizade. Depois me disse: “Ele fez ao meu lado toda a campanha de libertação”. Nas montanhas, na luta clandestina contra o inimigo fascista, nasceram os laços indestrutíveis que ligam na Albânia o povo ao seu governo, que o ligam de tudo aquele a quem eles chamam de “comandante”.

É com essa voz familiar de “comandante” que eles designaram o general do Exército, Enver Hoxha. Primeiro Ministro e Secretário-Geral do Partido. Esse título recorda os anos de guerra, quando o jovem professor que havia estudado marxismo no exílio, deixou o balcão da pequena farmácia onde estava provisoriamente empregado, para tomar das armas e chefiar o povo na sua luta. Vi, nos museus e em casas articulares, fotografias de Hoxha nessa época. Era um adolescente quase, de risonhos olhos no belo rosto de cabelos negros, forte como uma árvore, forte de sua força e da consciência da justiça da sua causa. Vi também os documentos da polícia fascista, as ordens de busca e de captura desse “comunista perigoso”, condenado à morte. Onde andava ele, jovem professor transformado em chefe guerrilheiro, logo depois em comandante do Exército de libertação? Em que casa de camponês perdida no fundo da montanha dormira nessa noite enquanto a polícia o buscava? Mas talvez não estivesse na montanha, talvez fosse mesmo em Tirana, quem sabe? Que ele estivesse dirigindo a confecção de volantes com as palavras de ordem “incendiárias”. Talvez fosse em um dos monastérios dos bektashi, ou na própria casa do bábá, do chefe de todos os crentes bektashi, de Muftar Dédé que ele se escondesse da polícia nessa noite. Em qualquer parte, ele estava e a sua existência representava morte para os invasores, representava a liquidação de comboios fascistas, o saltar de pontes, o estalar das bombas nas amedrontadas casernas italianas ou alemãs. No processo da luta, ele constrói o partido e educa politicamente o povo, ele mesmo amadurece politicamente ao contato com inúmeros e grandes problemas a resolver de ordem militar, administrava a política. Forma-se dirigente e homem de governo nos campos de batalha; durante esses quatro anos na montanha ele adquiriu um conhecimento perfeito do seu povo e dos problemas do seu país. E durante quatro anos, o povo aprendeu a admirar e a amar seu “comandante”.

Quando não o tratam de “comandante”, chamam-no pelo seu prenome: Enver. Vi os jovens estudantes o cercarem no teatro de Tirana e ele perguntar a cada um pelos seus estudos. Os operários da fábrica “Enver” disseram-me do seu orgulho e da sua responsabilidade de trabalhar na fábrica que leva o seu nome. Ouvi os seus discursos e ouvi dele, em três largas conversas, se desprender sua fidelidade ao povo albanês, à União Soviética e ao internacionalismo proletário. Esse homem tão intimamente ligado à sua pátria e ao seu povo, conhece a verdadeira significação do internacionalismo proletário. Foi em terras estrangeiras que ele começou a se formar como Marxista-Leninista, foi nos caminhos do exílio que enxergou as estradas capazes de conduzir a Albânia à libertação. Eu o ouço ainda falando-me de Prestes, cuja história ele tão bem conhece, e da luta do povo brasileiro. Fala com a mesma apaixonada entonação com que diz da luta do seu povo. E parece-me ver na sala daquele ex-palácio do rei Zog, no fogo das palavras solidárias de Enver, o povo brasileiro livre, construindo o seu destino como faz hoje o povo albanês. Depois ele fala da URSS e com que comovido carinho! E fala de literatura e arte, de poesia e ciência, de tudo que espera ver seu povo construir. Pergunta-me se visitei a biblioteca e os Museus:

– É apenas o começo... – diz – Mas saberemos conquistar a cultura...

Cita cifras de livros mais recentes, está ao par de tudo que se passa na Albânia, nada escapa ao seu interesse de maior responsável pela vida da pátria. E, ao mesmo tempo, esse homem sabe rir, um sadio riso alegre, em seu coração não há nenhuma amargura, ele é como símbolo desse povo jovem, corajoso e cheio de alegria de viver.

Há um poema de Llazar Siliqi que fala dos antigos e dos novos tempos da Albânia. Ele diz: “Em que estado, em que estado, nós nos encontrávamos ontem. Ó camaradas! Pesada, vazia e estreita nos parecia a vida sobre esta terra. Eis que é o dia de ano novo e que poderia eu te desejar, ó meu irmão, além de pão para o amanhã? Que poderia eu te prometer, ó minha irmã? Que nos trás então o ano novo? Mas hoje, eu e tu, nós não somos mais como ontem. Nossa vida é hoje livre e imensa como o mundo, como o mundo sem limites; sobre os montes, as planícies e os oceanos hoje se estendem nossas mãos. São mãos de amigos, mãos de irmãos, que cerram outras possantes mãos edificando o comunismo. Mãos livres constroem o socialismo, mãos de camaradas que lutam pela liberdade... Amanhã é dia de ano-novo. Esta tarde, Enver estará sentado à sua mesa, conversa com seus amigos fieis, marcando com sua mão segura os novos planos...”

Não é por acaso eu ele está presente na poesia dos poetas novos da Albânia como símbolo da nova vida conquistada. É que ele foi o coração ardente da luta, foi o cérebro dirigente, foi a coluna mestra da criação do partido. Ele nasceu do sangue operário derramando nas greves nos anos feudais, nasceu do suor do camponês vertido sobre a terra que não era sua, nasceu das lutas anônimas de todos os patriotas contra o jugo estrangeiro. Tomou e suas mãos as bandeiras do povo e criou o instrumento capaz de dirigir a revolta do povo: o partido. E hoje ele é mais que nunca o coração da nova pátria livre. Quando sobe pelos céus da Albânia a música da construção socialista, quando se erguem os edifícios das fábricas, quando os jovens conquistaram a técnica e a cultura, quando se elevam as bibliotecas, as escolas, os clubes de cultura, os cinemas, os teatros, quando os camponeses se reúnem em cooperativas e as mulheres arrancam os véus para dirigir tratores, quando as crianças repousam nas creches e brincam nos jardins de infância, quando os escritores tomam as pena para criar romances e poemas, quando o trem de ferro apita sobre os trilhos colocados pela juventude, quando os túneis rasgam as montanhas e os fios elétricos se prolongam pelas aldeias perdidas, quando velhos camponeses se curvam sobre a carta do ABC, quando novos navios cortam as águas do Adriático partindo de Durazzo, quando novas minas e novos campos de petróleo são explorados, quando a vida do povo se transforma e a pátria cresce em fartura e alegria, ali estão o Partido e Enver Hoxha, criadores da vida!

Como um exército do trabalho e da felicidade do homem, o povo albanês marcha para o futuro radioso. À sua frente vai seu intemerato comandante, o camarada Enver Hoxha!

“FALEM NDERIT”

Quero, Albânia, por a mão direita na altura do coração, em um gesto de tamanha civilidade e gentileza como o fazem teus filhos, e repetir as palavras de agradecimento: “Falem nderit”, muito obrigado.

Falem nderit, muito obrigado, ó muito obrigado, Albânia, por estes dias de intimidade contigo, nas ruas das tuas cidades e nos caminhos das tuas montanhas, bebendo o capitoso licor da tua agreste poesia. Falem nderit, muito obrigado a teus operários, a teus camponeses, a teus escritores e artistas. Eu os vi construindo a vida, arrancando do nada uma pátria feliz. Muito me ensinaste nesses dias fraternais, uma lição de coragem, de confiança e de decisão. Em cada pedra dos teus caminhos há o que aprender, pois sobre todas elas correu o sangue generoso dos patriotas.

Do alto das montanhas históricas de Kruja, por entre as pedras das velhas torres de defesa, na cidadela invencível de Skanderberg, eu vi o teu passado de lutas gloriosas, tua áspera decisão de manter tua independência. Vi os velhos fuzis de antigamente com os quais os teus filhos lutaram contra os turcos séculos afora em uma irredutível revolta. E vi os fuzis recentes, aqueles que se levantam vitoriosos contra o invasor fascista e o opressor nazista. Vi as bandeiras perfuradas de balas, com a águia negra sobre a tela vermelha, à qual se juntou na manhã da liberdade sobre as montanhas, a estela de ouro do socialismo. Ouvi as histórias dessa guerra, apertei a mão dos generais e dos soldados. Ouvi também as histórias da luta contra os imundos traidores, aqueles que venderam o povo e desejavam vender o teu povo, os repelentes vermes titistas. Também deste combate saíste vitoriosa, Albânia, e essa tua vitória pertence a cada um de nós, a todos que desejamos e lutamos pela paz.

Vi as fábricas crescendo, sob os nomes bem-amados de Stálin e de Enver. Vi as cooperativas e as fazendas do estado, os mercados de camponeses e o trem de ferro sobre os trilhos. Vi a bandeira vermelha tremulando sobre Tirana. Para mim foi poesia, foi como assistir ao nascimento de um mundo. Na União Soviética, mãe de todos os povos, eu vira a árvore majestosa do socialismo, sob sua sombra descansei de minhas caminhadas, enxerguei os frutos iniciais do comunismo. Em tuas terras, Albânia, eu vi essa árvore socialista sendo plantada com o esforço do homem, regada com o seu suor, adubada com o sangue derramado na guerra. E a vi crescendo, já sua sobra começa a se estender.

Falem nderit, Albânia, pelo novo amor que te tenho, esse amor feito do conhecimento. Amo-te como amei minha primeira namorada adolescente, com a mesma tímida ternura comovida. Amo a tua juventude, risonha adolescente colorida que os anos não envelhecerão, jamais. Bem sei que madura és de experiência, adulta na vontade invencível dos trabalhadores, e amanhã madura estarás em teus kolkhozes, nas torres de petróleo libertadas, no mar e na montanha conquistadas. Mas adolescente serás para todo sempre, não há outono para a primavera do socialismo.

És a irmã mais moça nessa família fraternal dos povos livres. E para tu guardamos, no mundo inteiro, esse carinho reservado para o filho mais jovem. Cada um de nós enxerga em ti o exemplo da vitória de um pequeno povo sobre os inimigos seculares da felicidade do homem. Também tu iluminas nosso caminho, estás construindo a paz para nós também.

Falem nderit, quero te dizer: foi repetindo essas palavras que errei ao acaso pelas ruas de Tirana na minha última noite em terras tuas. Lutarei ainda pela paz depois que te vi construindo a vida por entre o cerco dos homens da morte. Saí mais rico de tuas terras: rico da tua coragem, da tua confiança no futuro, da tua alegria de construir. Comigo levo a tua imagem, ela me ajuda a combater. Penso em ti e certas palavras vêm aos meus lábios, são palavras claras e vitais: madrugada o orvalho, aurora e alegria, poesia e festa. Porém penso em uma outra palavra que resume todas estas nesses nossos dias inquietos: é a palavra “paz”, ela é tua palavra, Albânia!

A ALBÂNIA É UMA FESTA