Trotsky não criou o Exército Vermelho — Reestabelecendo uma questão histórica básica

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Os marxista-leninistas brasileiros vêm ampliando cada vez mais a luta pela verdade histórica após uma torrente de décadas imparáveis de mentiras antistalinistas, isto é, anticomunistas. Principalmente agora, em 9 de maio de 2026, que se aproxima o 81º aniversário da Vitória do Exército Vermelho contra a besta hitlerista-nazista, será que, mais uma vez, os social-democratas, forças progressistas de esquerda e os trotskistas brasileiros — grupos de idealistas pequeno-burgueses que temem o socialismo verdadeiro assim como o diabo teme a cruz — vão, mais uma vez, agradecer o Exército Vermelho pelos seus esforços monumentais sem mencionar, propositadamente, sua principal direção política e estratégica, isto é, o camarada Stálin?

Será que, mais uma vez, veremos esses grupos sujando o bom nome do Exército Vermelho, mentindo despudoradamente ao dizer que foi criado pelo “gênio visionário” de Leon Trotsky? Será possível tamanho desrespeito à figura daquele que foi o fundador da União Soviética e do Exército Vermelho, o grande Vladimir Lênin? É permitido mentir em nome da tentativa de estabelecer um prestígio político entre os trabalhadores que já não existe mais? E isso num momento em que, mais uma vez, trava-se uma luta de morte contra o fascismo?

No entanto, ficou evidente que muitos dos nossos conterrâneos têm uma compreensão profundamente distorcida da questão sobre Lênin como o fundador do Exército Vermelho — confusão causada, principalmente, pelos trotskistas, para tentar manter o pouco prestígio que tem em sua trágica e decadente história. Somos obrigados a polemizar, explicar e demonstrar, assim como já foi feito repetidas vezes ao longo da história por outros camaradas, uma verdade evidente: Lênin foi o fundador do Exército Vermelho!

Isso não surpreende. Diversos ideólogos burgueses, valendo-se do monopólio sobre os meios de comunicação em relação às forças revolucionárias, vêm há décadas inculcando na sociedade uma versão oposta e, ao mesmo tempo, mentirosa. Não é raro encontrar até mesmo camaradas — formados por leituras superficiais provenientes de comentaristas liberais e seus equivalentes — que atribuem a criação do Exército Vermelho a Leon Trotsky.

Foi justamente para enfrentar essas distorções que preparamos este material. Nosso objetivo é simples: organizar os fatos — fatos concretos, não especulações nem mentiras descaradas — e demonstrar como as coisas realmente ocorreram.

1. Lênin como verdadeiro fundador e organizador do Exército Vermelho

Lênin, ainda antes da revolução, já havia elaborado uma teoria consistente sobre as forças armadas do povo trabalhador insurgente — concebendo-as como um exército de tipo qualitativamente novo, distinto em sua essência de classe e em sua função histórica. Durante a Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917, dirigiu diretamente os destacamentos armados de operários, soldados e marinheiros; e foi sobre essa base concreta que se constituiu o Exército Vermelho de Operários e Camponeses. O Decreto de criação foi por ele assinado em 15 de janeiro de 1918:

REPÚBLICA SOCIALISTA FEDERATIVA SOVIÉTICA DA RÚSSIA
Conselho dos Comissários do Povo (Sovnarkom)


SOBRE O EXÉRCITO VERMELHO DE OPERÁRIOS E CAMPONESES
Decreto — 15 de janeiro de 1918

O Conselho dos Comissários do Povo da República Socialista Federativa Soviética da Rússia (RSFSR), no exercício do poder estatal revolucionário e considerando a necessidade histórica de organizar a defesa armada da ditadura do proletariado e das conquistas da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917, decreta:

I

Fica organizada uma nova força armada sob a denominação de “Exército Vermelho de Operários e Camponeses”, estruturada com base nos seguintes fundamentos:

1. O Exército Vermelho de Operários e Camponeses será constituído pelos elementos mais conscientes, disciplinados e organizados das classes trabalhadoras, assegurando seu caráter de classe e sua função revolucionária.

2. O acesso às suas fileiras é garantido a todos os cidadãos da República Russa maiores de 18 (dezoito) anos, desde que apresentem recomendação de comitês militares, organizações democráticas vinculadas ao poder soviético, organizações partidárias ou sindicais, ou, ao menos, de dois membros dessas entidades.

No caso de incorporação de unidades inteiras, será exigida a responsabilidade coletiva solidária de seus integrantes, bem como a realização de votação nominal.

II

1. Os combatentes do Exército Vermelho de Operários e Camponeses permanecerão sob completo sustento estatal, percebendo, adicionalmente, remuneração mensal no valor de 50 (cinquenta) rublos.

2. Os membros incapacitados das famílias dos combatentes, anteriormente sob sua dependência, terão assegurado o atendimento de suas necessidades essenciais, conforme as normas locais de consumo e as deliberações dos órgãos do poder soviético.

III

O Órgão Supremo de direção do Exército Vermelho de Operários e Camponeses é o Conselho dos Comissários do Povo (Sovnarkom).

A direção imediata e a administração das forças armadas caberão ao Comissariado do Povo para os Assuntos Militares, exercidas por meio de um colegiado especial de âmbito Pan-Russo instituído para esse fim.


Vladimir Ilyich Ulyanov (Lênin)
Presidente do Conselho dos Comissários do Povo

Nikolai Vasilyevich Krylenko
Comandante Supremo

Pavel Efimovich Dybenko
Nikolai Ilyich Podvoisky
Comissários do Povo para os Assuntos Militares e Navais

Prosh Perchevich Proshyan
Vladimir Petrovich Zatonsky
Isaak Zakharovich (Zerakhovich) Steinberg
Comissários do Povo

Vladimir Dmitriyevich Bonch-Bruyevich
Chefe da Administração do Conselho dos Comissários do Povo

O camarada Lazar Kaganovich, em suas Memórias, relata como foram os primeiros dias da criação do Decreto de fundação do Exército Vermelho — ainda sem nenhuma participação formal ou prática de Trotsky. Ou seja, nem mesmo na formulação do rascunho do decreto de articulação do Exército Vermelho Trotsky participou, isso, ainda, ficou a cargo de outras pessoas, inclusive em três conhecidos quadros do stalinismo à época — Kaganovich, Podvoisky e Krylenko — que lutaram ativamente contra Trotsky anos mais tarde. Pedimos licença ao leitor para anexar uma longa citação do camarada Kaganovich em nosso artigo que, apesar de grande, demonstra com olhar ímpar o entusiasmo gigantesco entre as massas operárias na construção do seu Exército, além disso, o papel inquestionável de Lênin como o verdadeiro fundador e articulador do Exército Vermelho:

Janeiro foi o mês do nascimento do Exército Vermelho; fevereiro, o de seu batismo de fogo. Já nos primeiros dias de minha permanência em Petrogrado, não me limitei a estudar os materiais e documentos fornecidos pelo camarada Podvoisky: por sua orientação, percorri diversos distritos da cidade, sobretudo o distrito de Vyborg — verdadeiro “Kronstadt operário” de Petrogrado. Ali pude constatar que o trabalho fervilhava: desenvolvia-se uma atividade intensa de recrutamento para o novo exército. Os destacamentos da Guarda Vermelha passavam por um processo de reorganização; a partir deles, e, também, de voluntários — marinheiros e soldados revolucionários — formavam-se batalhões do exército socialista, estruturados já com unidades especializadas, como seções de metralhadoras, comunicações e outras.

O 1º Regimento de Metralhadoras prestou auxílio significativo, fornecendo armamentos e quadros instrutores. Contudo, naquele momento, todo o esforço ainda se concentrava em torno dos destacamentos e estados-maiores da Guarda Vermelha. Os postos de recrutamento dos Sovietes ainda não haviam sido plenamente organizados — surgiriam posteriormente — o que tornava urgente tanto sua criação quanto a elaboração definitiva de instruções e regulamentos normativos.

Por volta de 10 de janeiro, elaboramos, em conjunto com os camaradas do Birô Provisório, propostas para a criação do Departamento de Organização e Agitação da futura instância central encarregada da construção do Exército Vermelho. Submeti essas propostas à apreciação do Birô do Congresso, que as discutiu.

Embora o núcleo dirigente já estivesse, em grande medida, selecionado e o trabalho houvesse, de fato, se iniciado, ainda não se alcançara um desenvolvimento pleno das atividades. Isso se devia ao fato de que nem os departamentos, nem mesmo o órgão central de organização do Exército Vermelho, haviam sido formalmente constituídos.

Em reunião do Birô Pan-Russo das Organizações Militares, Nikolai Ilyich Podvoisky informou que, por orientação direta de Lênin, era necessário acelerar a elaboração do projeto de Decreto e submetê-lo à seção militar do 3º Congresso dos Sovietes, para posterior encaminhamento ao Conselho dos Comissários do Povo. Todos os presentes concordaram em participar dos trabalhos da seção militar. Para sua organização e direção, foram designados três delegados: Podvoisky, Krylenko e Kaganovich.

Antes da convocação da seção militar do congresso, realizou-se nova reunião do Birô Pan-Russo das Organizações Militares, destinada à análise preliminar do projeto de Decreto sobre a criação do novo exército e à definição do procedimento de funcionamento da referida seção.

Dessa vez, reunimo-nos no gabinete que fora do ministro da guerra do antigo regime, agora ocupado por Podvoisky — um espaço luxuosamente mobiliado. A situação não deixou de provocar comentários irônicos entre nós: “Veja só onde você foi parar, camarada! Perdemos nosso organizador de massas — agora ficou inacessível”. Ao que ele respondeu, meio em tom de brincadeira, meio a sério: “Não se preocupem. Um bolchevique de verdade permanece bolchevique em qualquer lugar. Não é o lugar que faz o homem, é o homem que dá sentido ao lugar. E, afinal, tudo isso foi pago com o dinheiro do povo — não vamos desperdiçar, vamos utilizar”. Encerrada essa breve descontração, passamos ao exame da questão.

O projeto de Decreto foi apresentado pelos camaradas Krylenko e Podvoisky. Tratava-se de um documento extenso, situado entre um manifesto político e um ato normativo — cerca de três a quatro vezes mais longo que a versão posteriormente publicada. A maioria dos participantes defendeu sua manutenção, com ajustes que lhe conferissem maior precisão e clareza.

No que se refere ao princípio da adesão voluntária, houve plena concordância. Não poderia ser diferente naquele momento: os soldados do antigo exército encontravam-se em processo de desmobilização, exaustos e profundamente marcados pela guerra. Não seria possível integrá-los mecanicamente à nova força armada, nem mesmo os melhores entre eles. A avaliação do Partido era de que, após retornarem às suas localidades, receberem terras e reorganizarem suas vidas, muitos voltariam, em melhores condições, como combatentes conscientes na defesa das conquistas da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917.

Além disso, o antigo corpo de oficiais era, em sua esmagadora maioria, hostil ao novo Poder. Não se podia, portanto, convocá-lo de forma generalizada. Era necessário formar um novo quadro de comando, politicamente comprometido com o poder soviético, recorrendo aos antigos especialistas apenas de maneira individual e sob controle. Nessas condições, o voluntariado constituía o único caminho viável para a criação do novo exército.

Ficou acordado que esse princípio deveria ser amplamente explicado às massas, incentivando operários avançados e soldados e marinheiros ainda combativos a ingressarem voluntariamente nas fileiras do Exército Vermelho. Ao mesmo tempo, estabeleceu-se que o ingresso não seria indiscriminado: exigia-se recomendação de comitês militares ou de organizações alinhadas ao poder soviético, assegurando o caráter político e de classe da nova força.

Após a discussão do projeto, foi apresentado um breve informe sobre as medidas já em curso para a organização do exército. Ao final, Podvoisky propôs que todos os membros do Birô se engajassem imediatamente nessa tarefa, inclusive aqueles que atuavam em outras frentes do trabalho partidário. Dirigindo-se a mim, observou que, embora eu já estivesse envolvido, ainda me considerava vinculado à organização partidária do Oblast da Polésia e hesitava em assumir integralmente a nova função. Propôs, então, que se deliberasse formalmente minha transferência definitiva para o trabalho de organização do Exército Vermelho e que tal decisão fosse submetida ao Comitê Central — proposta que foi aprovada.

Após breve troca de opiniões sobre medidas urgentes, o Birô encarregou os camaradas Podvoisky, Krylenko, Mekhonoshin e Kaganovich, com a participação de Valentin Trifonov e Yurenev, oriundos do Estado-Maior da Guarda Vermelha, de revisar com urgência o projeto de Decreto e organizar sua discussão na seção militar do Congresso dos Sovietes.

O projeto de Decreto foi significativamente condensado e submetido à apreciação da seção militar do Congresso dos Sovietes. A presidência dessa seção coube ao camarada Krylenko, enquanto o informe principal foi apresentado por Podvoisky. O debate desenvolveu-se de forma intensa e dinâmica, extrapolando, em muitos momentos, os limites estritos do texto do Decreto.

Uma parte dos delegados — sobretudo soldados vindos da Frente — sustentava que o principal contingente de voluntários deveria provir das guarnições de retaguarda, da Guarda Vermelha e das fábricas, uma vez que os combatentes da Linha de Frente se encontravam exaustos pela guerra e desejosos de retornar às suas casas. Outros delegados, inclusive alguns provenientes da própria Frente, contestaram essa posição, argumentando que também ali havia numerosos soldados dispostos a ingressar na nova Força Armada — especialmente aqueles desprovidos de meios de subsistência no campo — e que, de fato, já se iniciava a formação de unidades do novo Exército diretamente nas Frentes de combate.

Representantes da marinha também tomaram a palavra, afirmando com firmeza que os marinheiros, em sua maioria, permaneceriam nas embarcações, mas estavam prontos, sob o chamado do Governo Operário e Camponês, a organizar destacamentos para atuar em terra na defesa das conquistas revolucionárias.

Diversos camaradas das localidades levantaram questões organizativas relevantes. No entanto, deliberou-se que tais pontos seriam aprofundados em nova sessão, uma vez que não se poderia adiar a apresentação do Decreto ao Conselho dos Comissários do Povo. Podvoisky informou que já havia ocorrido uma troca preliminar de opiniões no âmbito do próprio governo e que Lênin havia proposto uma série de emendas, insistindo, inclusive, na necessidade de maior concisão do texto.

Após nova revisão, o projeto foi encaminhado a Lênin. Em 14 de janeiro, fomos avisados de que poderíamos ser convocados para discutir o documento diretamente com ele.

E assim ocorreu. Em 15 de janeiro, os camaradas Krylenko, Podvoisky, Trifonov e Kaganovich foram recebidos por Lênin. Ele nos acolheu com cordialidade e imediatamente passou a inquirir sobre a recepção do projeto entre os delegados: que haviam sido as reações, que emendas haviam sido sugeridas, qual era o estado de espírito geral. Krylenko apresentou um relato detalhado, após o qual Lênin iniciou o exame do texto.

Ele passou então a ler o projeto em voz alta, ponto por ponto, examinando cada formulação com atenção rigorosa. Confesso que aquelas intervenções ficaram gravadas na minha memória de forma vívida, quase como se ainda estivesse ali, naquele momento.

Logo na parte introdutória, o texto dizia que “o antigo exército servia como instrumento da luta de classes nas mãos da burguesia”. Lênin levantou os olhos e, com aquela clareza que lhe era própria, observou: a ideia está correta — mas, para as massas, será muito mais compreensível dizer que “o antigo exército servia como instrumento de opressão de classe dos trabalhadores pela burguesia”. E tinha toda razão. Nós imediatamente concordamos. Era uma formulação mais viva, mais direta, que revelava com precisão o caráter de classe da velha máquina militar — e que, sabíamos, se transformaria numa poderosa arma nas mãos dos nossos agitadores.

Em seguida, deparamo-nos com outro ponto do projeto: “O Exército Vermelho é criado sem coerção nem violência; ele se compõe apenas de voluntários”. Lênin voltou-se para nós e perguntou: “Vocês realmente acham que isso, por si só, garante a solidez do exército?” E continuou: “Voluntários podem ser muito diferentes entre si. Neste momento decisivo, o que importa é o caráter de classe do Exército que estamos criando”.

E, sem hesitar, propôs uma nova redação: o Exército Vermelho deve ser formado pelos elementos mais conscientes e organizados das classes trabalhadoras. Foi como se tudo se encaixasse de repente. Sentimos isso imediatamente. Concordamos com entusiasmo — não apenas por respeito, mas porque era evidente: ali estava a essência. E foi assim que essa definição se tornou o primeiro ponto do Decreto.

Mais adiante, ao revisar a passagem sobre o ingresso no Exército — “todo aquele que estiver disposto a dar suas forças e sua vida pela defesa das conquistas da Revolução de Outubro e do Poder dos Sovietes” — Lênin fez um acréscimo aparentemente simples, mas de grande relevância ideológica: acrescentou ao final as palavras “e do socialismo”.

Foi um instante curioso — e, ao mesmo tempo, revelador. Olhamo-nos entre nós, trocamos sorrisos, até uma leve risada escapou. Era como se disséssemos silenciosamente: “Como pudemos deixar passar o essencial?”. Aquela palavra — socialismo — não era um mero detalhe. E ali estava Lênin, recolocando a construção socialista no centro, com a naturalidade marcada de sua personalidade. Sentimos, naquele momento, não apenas correção, mas também um certo alívio — e até alegria. “Ainda bem que temos Vladimir Ilyich para nos corrigir”, dissemos.

Em seguida, ele chamou atenção para o ponto relativo ao sustento das famílias dos combatentes. Voltou-se para nós com seriedade e perguntou: “Vocês estão convencidos de que os órgãos locais terão condições de cumprir tudo isso que está escrito aqui?”. Nossa resposta, devo admitir, não foi das mais seguras.

Lênin então nos advertiu, mas sem qualquer rispidez: um decreto revolucionário não deve prometer aquilo que não pode cumprir. Em meio à devastação econômica e às dificuldades financeiras daquele momento, promessas excessivas poderiam se transformar em fraqueza política. Era preciso precisão, responsabilidade e realismo das condições reais da revolução. Propôs, então, uma formulação mais sóbria, vinculando a assistência às condições locais e às decisões dos órgãos do Poder Soviético.

Aceitamos prontamente. E assim foi redigido o texto final.

Quando terminamos de incorporar todas as correções, Lênin, com simplicidade, disse: “Muito bem, agora levaremos este projeto ao Conselho [Soviete] dos Comissários do Povo”.

Na reunião do Sovnarkom, a discussão foi breve. O Decreto, com as emendas propostas por Lênin, foi aprovado por unanimidade.

Devo registrar que esse encontro causou em mim uma impressão profunda e duradoura. Muito se falava sobre a simplicidade de Lênin, mas essa palavra, por si só, não é suficiente. Tratava-se de uma simplicidade autêntica, orgânica, que emanava de sua postura igualitária e de sua relação genuinamente camaradesca com os demais. Ao apresentar suas críticas, não havia qualquer traço de imposição ou superioridade; buscava convencer pela força da argumentação e de sua lógica irrefutável.

E era justamente essa lógica rigorosa que tornava suas intervenções irresistivelmente persuasivas. Lênin aparentava cansaço, mas, ao analisar o projeto, demonstrava extraordinária energia, precisão e objetividade.

Confesso que também me impressionou profundamente sua memória. Quando Podvoisky mencionou meu nome, Lênin recordou imediatamente minha participação em uma conferência anterior, inclusive referindo-se à minha intervenção. E apoiou minha incorporação ao trabalho de organização do Exército Vermelho, recomendando apenas que a decisão fosse articulada com Sverdlov.

Não é preciso dizer o quanto esse encontro me fortaleceu e inspirou para a tarefa que se colocava.

Qual a participação de Trotsky neste processo? Também não sabemos, gostaríamos de saber. Talvez todos sejamos míopes e precisemos de óculos ou lupas por não encontrar o nome de Trotsky nos documentos neste trecho da história soviética; talvez necessitemos de um GPS, mapa ou bússola para sermos capazes de, finalmente, localizá-lo e encontrá-lo em algum lugar de relevância neste processo. Enfim, continuemos.

Imediatamente teve início a formação do primeiro corpo do Exército Vermelho. Já em fevereiro e março de 1918, suas unidades participaram de combates vitoriosos contra as tropas alemãs. Em 23 de fevereiro de 1918, detiveram o avanço inimigo nas regiões de Pskov e Narva.

É por isso que o 23 de fevereiro se consagrou historicamente como o Dia do Exército Vermelho e da Marinha — posteriormente descaracterizado, de forma mais constrangedora, sob o nome genérico de “Dia do Defensor da Pátria”.

Se tomarmos como referência essa data — 23 de fevereiro de 1918 — como o momento efetivo do nascimento do Exército Vermelho, torna-se evidente que sua criação se deu sem nenhuma participação de Trotsky, que naquele período ocupava o cargo de “Comissário do Povo para os Assuntos Estrangeiros”.

Na condição de chefe do governo soviético, isto é, Presidente do Conselho dos Comissários do Povo, Lênin esteve envolvido de forma ininterrupta na construção do Exército Vermelho: organizando seus quadros, garantindo seu abastecimento material, estruturando sua base técnica, elaborando a estratégia e acompanhando atentamente cada episódio da Guerra Civil.

Trotsky, por sua vez, sabotou propositadamente as negociações com a Alemanha para a assinatura da paz do Tratado de Brest-Litovski ao ignorar a diretivas de Lênin para a assinatura do Tratado; posteriormente, recuou de sua posição, mas o acordo acabou sendo firmado em condições significativamente mais desfavoráveis. Em 22 de fevereiro de 1918, renunciou ao cargo de Comissário do Povo Para os Assuntos Estrangeiros, tendo sua renúncia formalmente aceita em 13 de março.

Em 4 de março de 1918, por proposta de Lênin, foi instituído o Vysshiy Voyennyy Sovet (Vysvoensov), o Conselho [Soviete] Militar Supremo. A direção do órgão foi confiada a Mikhail Bonch-Bruevich, sendo nomeados como comissários Proshyan e Shutko. Sem dispersar quadros politicamente experimentados, Lênin designou, só em 14 de março de 1918, Leon Trotsky como Presidente do Vysvoensov. Ao mesmo tempo, o cargo de Diretor do Conselho (ocupado por Bonch-Bruevich) não foi abolido, de modo que ambos atuaram em paralelo durante vários meses.

Trotsky, portanto, encontrou uma estrutura já em funcionamento. Os alicerces do Exército Vermelho haviam sido estabelecidos sem sua participação, e o processo de construção das forças armadas soviéticas já avançava de maneira consistente antes de sua incorporação à direção militar por determinação única e exclusiva de Lênin.

Ao ocupar o posto de Presidente do Conselho Militar Supremo entre março de 1918 e fevereiro de 1924, é evidente que Trotsky desempenhou um papel pertinente na organização e consolidação do Exército Vermelho, empregando inclusive sua notável capacidade oratória para mobilizar as tropas. No entanto, diversos comandantes soviéticos destacaram também os aspectos negativos de sua atuação: inconsistências, erros estratégicos e táticos, além de uma condução frequentemente contraditória na construção das forças armadas — problemas que exigiram correções constantes por parte de Lênin e de outros dirigentes, inclusive do camarada Stálin e Félix Dzerzhinsky, que abertamente entraram em polêmica com ele.

Diante desse conjunto de fatos amplamente documentados, a conclusão se impõe com clareza: o verdadeiro criador, dirigente e inspirador ideológico do Exército Vermelho foi, inegavelmente, Lênin.

Em fevereiro de 1924, Trotsky foi destituído de seu cargo; em 1927, acabou expulso do Partido por sua atividade fracionista e oportunista. Assim, seu desfecho político foi marcado pelo isolamento e pela derrota, mesmo com todo prestígio que pôde ter obtido durante a Guerra Civil — prestígio este jogado fora pelo seu egoísmo e síndrome de profeta, restando o pouco de relevância que lhe sobrou das migalhas do Ocidente, impulsionado artificialmente em uma operação ideológica pelo imperialismo, sendo esquecido e ignorado completamente nos pontos nevrálgicos da luta anti-imperialista e pelo socialismo no Oriente.

2. Os detalhes — e fatos — para entender a história do Exército Vermelho

O primeiro fato é decisivo — Lênin foi o primeiro, entre os marxistas, a desenvolver de maneira sistemática a questão das forças armadas do Estado proletário, estabelecendo as bases científicas para a organização e a construção do Exército Vermelho. Demonstrou que este não seria uma simples continuação das velhas instituições militares, mas sim um exército de novo tipo. Enquanto os exércitos dos Estados imperialistas funcionam como instrumentos armados de dominação das classes exploradoras, o Exército Vermelho se constitui como um exército de libertação dos trabalhadores, educado nos princípios do internacionalismo proletário e da solidariedade de classe. O Exército Vermelho é carne da carne do povo, expressão direta de sua organização consciente e de sua força histórica. Lênin afirmou:

Sem a defesa armada da república socialista, não poderíamos existir. A classe dominante jamais cederá seu poder à classe oprimida. Esta, porém, deve provar na prática que não apenas é capaz de derrubar os exploradores, mas também de se organizar para sua própria defesa.

O segundo fato é igualmente inequívoco: foi Lênin quem redigiu e assinou o decreto de criação do Exército Vermelho de Operários e Camponeses. Ainda mais, o documento é assinado por Lênin, na qualidade de Presidente do Sovnarkom, acompanhado por outros dirigentes do novo poder soviético — Krylenko, Dybenko, Podvoisky, Bonch-Bruyevich etc.

E aqui se impõe a pergunta que desmonta toda a mistificação posterior: onde está Trotsky? Bom, nestes casos, podemos dizer que em momentos de tamanha grandeza decisiva da história, os ratos se escondem nos esgotos e bueiros — eles desaparecem.

Ainda nessa mesma linha, são particularmente reveladoras as memórias do camarada Sergey Sergeyevich Kamenev (não confundir com o traidor Lev Kamenev) — foi o antigo Coronel do Exército Czarista que, posteriormente, tornou-se Comandante Supremo das Forças Armadas da Rússia Soviética entre 1919 e 1924. Falando como especialista militar, ele é categórico ao afirmar: “Vladimir Ilyich nos deu um exemplo sem precedentes na história militar com o seu papel de criação de um exército como instrumento da política” — e vai além — caracteriza a condução da Guerra Civil por Lênin como “uma verdadeira ciência da guerra”, destacando que ele exercia influência direta sobre operações específicas no campo de batalha. Sergey Sergeyevich sublinha, sem ambiguidades, que Lênin dirigia o Exército Vermelho “cotidiana e diretamente”, conduzindo tanto sua organização estrutural quanto seu abastecimento, armamento e provisão. Conclui suas memórias com uma síntese precisa: “Vladimir Ilyich resolveu, com talento incomparável, a questão estratégica militar”.

No mesmo sentido se pronuncia o camarada Kliment Voroshilov — futuro Comissário do Povo para os Assuntos Militares e Navais da URSS e Marechal da União Soviética. Ele recorda uma orientação direta do grande Lênin:

Os trabalhadores avançados — todos os comunistas do Exército de Cavalaria — deveriam transformar suas unidades na encarnação viva da unidade, na aliança indestrutível entre operários e camponeses — nesta aliança reside a base material da vitória da luta revolucionária.

Lênin insistia na necessidade de reforçar essas tropas com operários avançados e exigia que cada membro do partido fosse exemplo no combate e na disciplina militar. Não por acaso, foi por iniciativa de Lênin que Voroshilov assumiu o comando de um destacamento enviado para esmagar a insurreição de Kronstadt, formado por delegados do 10º Congresso do Partido.

Os testemunhos de Semyon Budyonny, comandante do 1º Exército de Cavalaria e, também, futuro Marechal, reforçam ainda mais esse quadro. Em suas recordações, destaca que Lênin valorizava profundamente o fato de os comandantes emergirem das fileiras do próprio povo combatente — o que fortalecia a confiança das massas no Comando. Em conversas com Budyonny e Voroshilov, Lênin exigia relatórios minuciosos: queria conhecer em detalhes o nível do trabalho político nas unidades, a relação dos combatentes com o Partido Bolchevique e com o poder soviético, seu estado de espírito, bem como a composição social, nacional e até etária das tropas. Nada escapava à sua atenção. Ao mesmo tempo, Lênin enfatizava o caráter profundamente popular do Exército Vermelho:

O Exército Vermelho é filho do povo, seu guardião e sua esperança. Não nos é indiferente o comportamento dos combatentes. Devemos preservar, como algo sagrado, o nome do soldado da revolução.

Sua avaliação da atuação militar do 1º Exército de Cavalaria era elevada ao mais alto grau: “Exércitos como esse não existiram na história”. E explicava as razões de suas vitórias: a disposição consciente dos combatentes de se sacrificarem pela revolução e pela vitória — eis a verdadeira disciplina revolucionária.

Budyonny também relembra sua admiração pela capacidade de Lênin de prever os movimentos do inimigo. Após a derrota de Anton Denikin, Lênin advertiu com clareza: a guerra não terminaria tão cedo, pois os governos burgueses e a Entente imperialista continuariam a tentar estrangular o Estado soviético. E afirmava com convicção e firmeza: seriam ainda necessários sacrifícios, mas a vitória seria inevitável.

Mais ainda, Lênin identificava concretamente os focos da ameaça: alertava que Józef Piłsudski preparava seu exército, armado e incentivado pelas potências imperialistas, e que uma guerra com a Polônia era inevitável. Ao mesmo tempo, orientava os comandantes a permanecerem junto às massas de combatentes, escutando suas demandas, aprendendo com elas e dando vasão sua energia, criatividade e têmpera revolucionária.

No final de 1921, dirigindo-se aos delegados militares do 9º Congresso Pan-Russo dos Sovietes, Lênin sintetizou o vínculo entre Partido-Comando-Massas: os combatentes confiam em seus comandantes e, por meio deles, confiam no Partido — e é dessa unidade que deriva a força decisiva do poder soviético. Mesmo ao tratar da desmobilização após a derrota dos exércitos brancos e dos interventores estrangeiros, Lênin advertia que era indispensável preservar o núcleo do Exército e manter permanentemente a prontidão militar.

Nós poderíamos citar ainda inúmeros outros testemunhos, memórias e documentos de comandantes do Exército Vermelho que evidenciam o papel decisivo de Lênin em sua formação, organização e nas vitórias contra os exércitos brancos e as forças intervencionistas da Entente.

Agora, passemos aos fatos relativos ao Rato de Esgoto — ou melhor, Leon Trotsky.

Ao mesmo tempo, é necessário desmontar outro mito amplamente difundido: a ideia de que Trotsky teria sido a figura central na realização da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917. Essa versão, propagada por pseudo-historiadores liberais interessados em diminuir o papel de Lênin, Stálin, Sverdlov e Dzerzhinsky tenta inverter a realidade ao afirmar que a revolução teria sido obra de Trotsky, enquanto Lênin e Stálin seriam meros coadjuvantes.

A própria trajetória política de Trotsky desmente essa narrativa. Desde o 2º Congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR), travou uma luta ideológica dura contra Lênin e seus camaradas, alinhando-se às posições mencheviques. Apenas às vésperas de 1917, em um movimento abrupto, rompe com essa linha e se aproxima dos bolcheviques, alegando ter revisto suas posições anteriores.

Examinemos, portanto, sua atuação concreta durante o período da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917.

Esse indivíduo — que Lênin qualificou, em 1911, como um verdadeiro “Judas” infiltrado nas fileiras do partido — ascendeu, em 1917, à Presidência do Soviete de Petrogrado com o apoio de forças heterogêneas, incluindo Mencheviques e Socialistas-Revolucionários (SRs). Esse Órgão, desde fevereiro daquele ano, reivindicava autoridade suprema não apenas sobre Petrogrado, mas sobre toda a Rússia. Sua ascensão foi viabilizada, entre outros fatores, pela recomendação de Kamenev, que, junto com Zinoviev, havia anteriormente delatado aos inimigos o plano de insurreição armada do Partido Bolchevique à imprensa burguesa russa.

Entretanto, a preparação efetiva da Insurreição de Outubro não esteve nas mãos do Soviete em geral, mas do Comitê Militar Revolucionário (CMR), criado sob a direção do Partido Bolchevique. O núcleo dirigente desse organismo era o chamado Centro do Partido para a condução da insurreição armada, integrado por Stálin, Sverdlov e Dzerzhinsky. Foram esses quadros que desenvolveram os aspectos técnicos do plano insurrecional em Petrogrado, sob a orientação política geral de Lênin.

Trotsky não fazia parte desse centro dirigente. O plano da insurreição foi elaborado em estrita conformidade com as diretrizes de Lênin, que, até 24 de outubro, encontrava-se na clandestinidade devido às perseguições do Governo Provisório.

As orientações de Lênin eram claras e concretas: garantir uma superioridade esmagadora de forças, cercar e isolar Petrogrado, e tomar a cidade por meio de uma ação combinada de operários, soldados e da frota. Seguindo essas diretrizes, os dirigentes do Comitê Militar Revolucionário — entre eles Stálin, Konstantin Eremeev e outro heroico bolchevique, Nikolai Podvoisky, — planejaram a tomada dos pontos estratégicos: telefone, telégrafo, estações ferroviárias e instituições governamentais. Um dos elementos centrais do plano era o cerco e a tomada do Palácio de Inverno, com a prisão do Governo Provisório.

Trotsky não participou nem da direção geral da insurreição, nem de sua execução técnica.

No dia 24 de outubro, Lênin chegou ao Smolny — o Quartel-General da Revolução — e assumiu diretamente a condução do processo. Recebia delegações de operários, soldados e marinheiros, bem como representantes de fábricas e distritos operários, aos quais transmitia instruções precisas e operacionais. Determinava a concentração de forças nos pontos decisivos e exigia a execução imediata das tarefas definidas. Durante a noite de 24 para 25 de outubro, dezenas de combatentes e organizadores passaram por Smolny para receber orientações diretas. Lênin enviava ordens inclusive por meio de mensageiros motorizados, assegurando a coordenação da insurreição em tempo real.

Na manhã de 25 de outubro (7 de novembro), os trabalhadores e marinheiros de Petrogrado, seguindo essas orientações, já controlavam todos os pontos estratégicos da capital — estações, pontes e centros de comunicação. Restavam ao Governo Provisório apenas o Quartel-General Militar e o Palácio de Inverno. Ambos seriam tomados poucas horas depois: na madrugada de 26 de outubro, o Palácio de Inverno caiu sob controle das forças revolucionárias.

É significativo notar que, em sessão do Soviete de Petrogrado, Trotsky anunciou publicamente as datas previstas para a insurreição — o que, na prática, alertava setores contrarrevolucionários, uma vez que o Soviete não era composto exclusivamente por Bolcheviques, mas também por Mencheviques, Socialistas-Revolucionários e outros grupos.

Para evitar qualquer sabotagem por parte do Governo Provisório, o Comitê Central do Partido Bolchevique decidiu antecipar o início da Insurreição Armada, iniciando-a antes da abertura do 2º Congresso dos Sovietes.

Mais ainda: Trotsky insistia na posição de adiar a Insurreição até a abertura do Congresso — o que, na prática, significaria perder a iniciativa e comprometer toda a operação revolucionária.

De tudo isso decorre uma conclusão inequívoca: a organização e a direção da Insurreição de Outubro em Petrogrado estiveram nas mãos de Lênin e Stálin, Sverdlov e Dzerzhinsky. Trotsky, ao contrário, não desempenhou papel dirigente nesse processo e, em diversos momentos, atuou de forma a dificultar sua realização.

Trotsky não foi o organizador da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917 — assim como não foi o criador do Exército Vermelho!

Como afirmamos, naquele momento, ele ocupava o cargo de Comissário do Povo para os Assuntos Estrangeiros — esse dado é crucial: no próprio dia que se consagrou como marco simbólico da criação do Exército Vermelho, Trotsky não tinha qualquer vínculo com sua estrutura militar. Se considerarmos essa data como o nascimento efetivo do Exército Vermelho, então sua criação se deu integralmente sem a participação de Trotsky.

O primeiro responsável pelos assuntos militares da Rússia Soviética foi o velho Bolchevique — conhecido e verdadeiro partidário stalinista — Nikolai Podvoisky, que ocupou o cargo entre dezembro de 1917 e março de 1918. Foi somente em 14 de março de 1918 que Trotsky foi nomeado Presidente do Vysvoensov — Órgão criado por iniciativa de Lênin. Mesmo assim, essa nomeação não implicou controle exclusivo, sendo que a função dirigente, anteriormente ocupada por Bonch-Bruyevich, foi mantida.

Enquanto isso, já em janeiro de 1918, iniciava-se em Petrogrado a formação do 1º Corpo do Exército Vermelho, composto majoritariamente por operários. Em poucos meses, essa unidade já contava com batalhões de infantaria, regimentos de cavalaria e metralhadoras, artilharia pesada e leve, unidades aéreas, engenharia, transporte e comunicação. Dessa forma, o quadro é inequívoco: Trotsky chegou quando a estrutura fundamental do Exército Vermelho já estava estabelecida. O processo de construção das forças armadas soviéticas avançava de forma consistente antes de sua entrada na direção militar.

Poderíamos encerrar aqui a nossa análise. Contudo, por uma questão de justiça histórica para com os heróis da Revolução e da Guerra Civil, é necessário examinar também o papel de Trotsky enquanto dirigente do Conselho Militar Revolucionário (Vysvoensov).

É possível afirmar com toda seriedade, calma e segurança: Trotsky não foi o responsável pela vitória na Guerra Civil! Essas vitórias foram fruto da ação coletiva de numerosos comandantes e dirigentes. Além de Trotsky, atuaram como Comandantes Supremos figuras como Sergey Kamenev — cuja atuação foi reconhecida e honrada pelo Estado e o povo soviético.

Não se pode esquecer dos grandes Comandantes da Guerra Civil — Budyonny, Chapaev, Voroshilov, Shchors, Kotovsky, Timoshenko, entre tantos outros — nem dos dirigentes políticos que atuaram como comissários no Exército Vermelho, como Stálin, Kirov, Kuibyshev e Ordzhonikidze. Foi, aliás, a introdução do sistema de Comissários Políticos — responsáveis por garantir a direção política proletária sobre os especialistas militares oriundos do antigo regime — um dos fatores decisivos para as vitórias do Exército Vermelho.

Trotsky se opunha a esse sistema e defendia maior autonomia para os antigos Oficiais Czaristas, além de questionar o papel dirigente do partido no interior das forças armadas.

Passemos, então, a examinar sua atuação concreta.

Em julho de 1918, durante o levante dos Socialistas-Revolucionários (SRs) de esquerda em Moscou, Lênin exigiu uma resposta imediata para esmagar o levante contrarrevolucionário. Trotsky, no entanto, retardou a organização da resposta militar e dificultou a concentração de forças. Apesar disso, a revolta foi derrotada com Lênin à frente.

No mesmo ano, a defesa de Tsaritsyn — ponto estratégico vital para o abastecimento de grãos e para a ligação entre regiões — tornou-se decisiva. Lênin encarregou ao camarada Stálin dessa tarefa. Sob sua direção, foi possível garantir tanto o fluxo de alimentos quanto a resistência às forças contrarrevolucionárias. Trotsky, porém, interferiu negativamente nesse processo, emitindo ordens que favoreciam a desorganização da defesa e apoiando elementos que conspiravam contra a autoridade soviética na região. Em determinado momento, chegou a propor medidas que, na prática, implicariam a entrega da cidade ao inimigo. A resistência organizada sob a direção do camarada Stálin impediu essa derrota estratégica. Tsaritsyn foi mantida, garantindo a continuidade do abastecimento e a integridade territorial do poder soviético naquele momento crítico. Mais tarde, a cidade seria renomeada para Stalingrado.

Situação semelhante se verificou em 1919, durante a ofensiva das forças de Alexander Kolchak. Diante do avanço inimigo, Trotsky declarou a impossibilidade de detê-lo e propôs uma retirada até o Rio Volga. O comandante Mikhail Frunze recusou essa orientação, sendo apoiado por Lênin. O resultado foi uma contraofensiva bem-sucedida que empurrou as forças brancas para o Leste, libertando vastas regiões.

Novamente, durante essa campanha, Trotsky apresentou propostas que interromperiam o avanço, mas foram rejeitadas pela direção do Partido, permitindo a libertação de importantes centros urbanos.

Também na luta contra Anton Denikin, suas propostas estratégicas foram descartadas. O plano alternativo elaborado sob a direção de Stálin — baseado em apoio popular e melhor logística ferroviária — foi adotado e conduziu à derrota decisiva das forças brancas.

Mesmo em operações posteriores, como a campanha contra Pyotr Wrangel e a guerra contra a Polônia, são atribuídas à sua condução falhas graves de organização, abastecimento e coordenação, que comprometeram o desempenho militar do Exército Vermelho.

Os fatos, portanto, quando analisados em sua totalidade, conduzem a uma conclusão coerente com o conjunto da experiência histórica: Trotsky não desempenhou o papel dirigente decisivo nem na criação do Exército Vermelho, nem nas vitórias fundamentais da Guerra Civil. Essas conquistas foram resultado da direção política de Lênin, da ação coletiva do Partido Bolchevique e do heroísmo organizado das massas trabalhadoras em armas. A vitória do Exército Vermelho na Guerra Civil não foi obra de Trotsky, mas se realizou apesar de sua atuação, graças à direção de Lênin e à ação organizada de seus camaradas Bolcheviques.

Na Plenária de abril de 1924 do Comitê Central do Partido, realizado após o afastamento de Trotsky do cargo de Comissário do Povo para os Assuntos Militares e Navais, uma Comissão Especial encarregada de avaliar a situação do Exército Vermelho apresentou um informe contundente. Nele se afirmava que o país não dispunha, naquele momento, de um exército plenamente organizado, treinado, politicamente formado e preparado em termos de mobilização — e que, em seu estado então existente, o Exército Vermelho carecia de capacidade combativa efetiva.

Esse diagnóstico revelava a necessidade urgente de uma profunda reorganização das forças armadas com base nos princípios leninistas. Tal exigência não partia apenas da direção política, mas também dos próprios Comandantes e combatentes. Sob a influência de Trotsky e seus aliados, o Estado-Maior havia se transformado em um aparato burocrático pesado, desconectado da realidade concreta das tropas e incapaz de cumprir adequadamente suas funções. Faltava planejamento estratégico consistente, inclusive no que dizia respeito à mobilização, e os cálculos operacionais ignoravam as condições materiais efetivas.

Em fevereiro de 1924, Trotsky foi removido de suas funções. Em 1927, seria expulso do Partido por sua atividade fracionista. Seu percurso político posterior é conhecido: afastado do processo revolucionário soviético, colocou-se em oposição aberta ao Estado socialista.

É precisamente por isso que, ainda hoje, propagandistas burgueses e correntes trotskistas-anticomunistas procuram reabilitar sua imagem, apresentando-o como figura central da revolução e criador do Exército Vermelho — uma operação ideológica que visa obscurecer o papel dirigente de Lênin, Stálin e do Partido Bolchevique.

A realidade histórica, contudo, permanece clara: o verdadeiro criador, dirigente e inspirador ideológico do Exército Vermelho foi Lênin. Sob sua orientação, as forças armadas soviéticas foram constituídas como um exército popular, profundamente enraizado nas massas trabalhadoras, em constante desenvolvimento e aperfeiçoamento — e que, posteriormente, desempenhou papel decisivo na vitória sobre o nazifascismo na Grande Guerra Patriótica.